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Alien: Covenant.

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Posted 05/29/2017 by in 2017

Rating

Nota:
 
 
 
 
 

3/ 5

Ano:
 
Diretor:
 
Título Original: Alien Covenant.
 
Elenco: Amy Seimetz, Billy Crudup, Callie Hernandez, Danny Mcbride, Katherine Waterston, Michael Fassbender.
 
Roteiro: Jack Paglen, Michael Green, John Logan, Dante Harper.
 
Compositor: Jed Kurzel.
 
Duração: 122 minutos.
 
Montagem: Pietro Scalla
 
Fotografia: Dariusz Wolski
 
Resumo:

Alien: Covenant não chega a se configurar o pior capítulo da franquia Alien, mas é certamente o mais irregular.

by Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo
Full Article

Aviso: a crítica traz vários spoilers da obra analisada.

Sexto filme da franquia Alien e continuação direta de Prometheus, Alien: Convenant almeja revisitar o conceito por trás do icônico monstro, contextualizando-o nas discussões suscitadas por seu predecessor. Narrativamente, contudo, o filme derrapa em sua estrutura, mostrando-se irregular ao desenvolver seus personagens e falhando em construir o clímax final.

Dessa vez, a história acompanha a tripulação da espaçonave Covenant, que viaja em uma missão de colonização. Após um acidente que mata o capitão da nave, a equipe recebe uma transmissão de um planeta próximo e, percebendo que ela foi enviada por um ser humano, decide averiguar sua origem. Chegando ao planeta, porém, alguns membros são infectados por um parasita, dando origem a terríveis criaturas. Ao receberem a ajuda de um misterioso androide, os integrantes da nave começam a entender que aquele planeta guarda mais segredos do que a princípio imaginavam.

Em uma primeira análise, quem se posiciona como protagonista é Daniels (Katherine Waterston), uma mulher que se torna a segunda em comando quando seu marido perece no acidente. Daniels rapidamente se estabelece como a voz da razão, questionando o novo capitão, Orem (Billy Crudup), a respeito dos perigos da investigação.

O início do filme foca na interação entre os tripulantes, indicando suas características principais. Orem, por exemplo, é um homem de fé que está inseguro sobre sua autoridade sobre o restante da tripulação. Já a piloto Faris (Amy Seimetz) mostra inquietação nos poucos momentos em que é posta sob pressão, o que prediz suas ações temerárias quando o primeiro membro da equipe fica doente.

É apenas no segundo ato, com a entrada do androide David (Michael Fassbender), que os temas do filme vêm à tona e a narrativa ganha vida. Só o cenário em que o personagem vive já impressiona tanto pelo escopo, quanto pelos detalhes: enquanto o exterior de sua morada é uma necrópole aterradora, que guarda ainda os cadáveres mumificados de vários Engenheiros, o interior do lugar é decorado como um laboratório de biologia, indicando a obsessão do androide pela vida e anatomia dos Aliens.

A eventual revelação de que David almeja criar as famosas criaturas do título é fundamental para a construção da temática do filme, pois estabelece uma sequência de criações que tem seu princípio nos Engenheiros e seu fim com os Aliens. Graças às inúmeras cenas que expõem os monstros saindo de dentro de Engenheiros e humanos, e lembrando do início de Prometheus, que mostra a humanidade surgindo do DNA dos Engenheiros, é possível enxergar ambos os filmes estabelecendo cada ponto dessa cadeia de criação como uma representação da natureza daquele que veio antes – no entanto, com uma degradação ocorrendo no processo.

Assim, a partir dessa sequência de concepções, o roteiro desenvolve um processo de “destilação” que, para chegar à essência do ser, parte de um ponto superior e vai lapidando-o aos poucos. No primeiro momento, há os Engenheiros, que surgem altivos, austeros e distantes do espectador. A coloração azulada da pele confere a eles um ar etéreo, estabelecendo-os como algo mais transcendental que sua criação, os humanos. Suas motivações ora são deixadas sem explicação, tornando-os figuras míticas inalcançáveis, ora explicadas por lógica e observação, como o plano deles de destruir a humanidade em Prometheus. Os humanos, por sua vez, surgem mais complexos, fazendo um balanço entre razão, fé e desejo, elementos que são postos em personagens diferentes – Daniels, Omer e a copiloto Upworth (Callie Hernandez), respectivamente – , sinalizando a diversidade de nossa composição. David, porém, é o representante máximo de uma criação dos humanos e nele há uma negação ainda maior do superego comparando-o ao seu respectivo criador: David posiciona-se como uma figura rebelde, que rejeita autoridade, despreza capacidade de autocontrole e racionalização e ainda revela ser movido por desejo. Não é à toa que uma de suas características mais desenvolvidas no filme é sua sexualidade: ao descer a cadeia de criações para alcançar a essência do ser, é ela o elemento que aflora, chegando-se finalmente ao Alien, que representa o sexo em sua forma mais monstruosa. Se o primeiro criador é etéreo, a última criação é apenas violência e sexo, um ser puramente animalesco, como o próprio David sugere em determinada cena, ao explicar que estava tentando domar a criatura.

As cenas em que o androide interage com seu duplo, Walter – o androide que acompanha a tripulação de Covenant e é um modelo mais avançado de David, sendo também interpretado por Michael Fassbender –, são carregadas de erotismo. Essa tensão sexual transborda das imagens (David insere um objeto fálico na boca de Walter, por exemplo) e dos diálogos (enquanto diz “let me do the fingering”/ “deixa que eu trabalho com os dedos”), sendo explicitada em outra cena pelo mesmo objeto fálico, agora posicionado de forma ereta sobre a virilha do androide. Se o fim da cena é emblemático por mostrar David matando Walter da mesma forma que suas futuras criações irão – pela penetração –, ela em si também aponta para o narcisismo que domina a personalidade do personagem e para a fascinação que ele sente pela própria identidade.

Ao reconhecer sua posição como criação, David deseja mais que tudo superá-la, tornando-se aquele que odeia: um criador. O flashback com Wayland que abre o filme é importante por relembrar o espectador que o próprio David foi criado pelo mesmo motivo, com Wayland surgindo igualmente frustrado, tentando se mostrar superior ao se posicionar na posição do criador que ele tanto quer encontrar e entender. A diferença entre Wayland e David é que o humano deseja que sua criação o sirva, enquanto o androide a deixa correr livre.

Esse paralelo entre os dois, aliás, sinaliza um ciclo que pode indicar as motivações dos próprios Engenheiros ao criar os humanos e que foi constantemente posta em questionamento em Prometheus: afinal, alguém criou os Engenheiros e suas ações podem ser resultado da mesma frustração, uma forma de tentar superar o mesmo complexo de inferioridade.

David é o personagem mais fascinante de Alien: Covenant e, em uma análise mais profunda, faz muito mais sentido considerá-lo o protagonista do filme do que Daniels, apesar de ele ser o vilão e ela, a heroína: é David o centro gravitacional do filme e quem possui um arco narrativo que complementa os temas apresentados. Daniels, por outro lado, sequer traz um arco narrativo e está lá apenas para servir como a identificação do espectador.

Se as diversas características da personalidade humana estão espalhadas entre os membros da tripulação, David as carrega todas dentro de si, tornando-se individualmente complexo. Há um contraste forte no personagem: enquanto sua dicção é monocórdia e seus movimentos são pouco naturais, indicando sua origem robótica, ele é, na verdade, dominado pela emoção. O elemento mais importante da cena em que ele assassina os Engenheiros, por exemplo, não é o genocídio em si, mas a raiva estampada no rosto do personagem. Embora ele minta durante todo o filme, não é difícil acreditar que ele não o faz quando expõe seus sentimentos pela protagonista de Prometheus, Elizabeth. Ele pode ter matado ela, usando-a como cobaia – e é possível imaginá-la reclamando “Porra, David, de novo?” –, mas isso não o impediria de acreditar que sentia amor por ela. Enquanto Walter defende sua relação com Daniels como sendo um dever, racionalizando-a, David afirma categoricamente que “sabe melhor”, reposicionando as ações de seu duplo no campo da emoção.

É uma pena, portanto, atestar que a superfície do filme seja tão problemática, não conseguindo aproveitar sua riqueza temática. A única cena de suspense que realmente funciona é a que marca o primeiro ponto de virada da história: a infecção de dois membros da tripulação de Covenant e o eventual surgimento dos Aliens. Aqui, Scott trabalha com ironia dramática, utilizando o fato de o espectador saber o que surgirá da infecção para aumentar a tensão, uma vez que ele tranca uma personagem com a pessoa infectada, fazendo-o o espectador imediatamente perceber que ela corre imenso perigo. Além disso, o desespero da piloto Faris, que assiste a tudo, acrescenta à cena, pois suas ações começam a falhar continuamente justamente devido à pressão que ela sente, enquanto o gore, representado pelo estado final do corpo do infectado, choca o espectador.

As outras sequências de ação, todavia, não demonstram o mesmo cuidado na composição. O segundo clímax, por exemplo, que termina com Daniels voltando para a nave mãe, usa um artifício inútil com o intuito de gerar uma reviravolta posterior: para deixar na dúvida quem sobrevive no confronto entre Walter e David, Scott corta a cena no momento chave. Todavia, isso apenas deixa claro que é David quem sobrevive, pois a não ser caso o diretor tenha perdido todo o bom senso, ele jamais mataria o personagem principal do filme fora de câmera sem qualquer preparação para isso.

O embate final contra o Alien na nave Covenant falha justamente por falta de preparo. O cenário em que ele ocorre é uma parte aleatória da nave que não teve importância nenhuma até então, a estratégia para matar a criatura também surge apenas na hora, nunca tendo sido mencionada antes, e nem visualmente impactante ou especialmente inteligente todo o confronto é. Pior ainda é atestar que essa última luta não complementa em nada as discussões suscitadas, mostrando-se desprovida de força dramática e, assim, finalizando o filme em um anticlímax.

As várias execuções que o Alien faz ao longo do filme também se revelam problemáticas, surgindo ora irrelevantes, ora juvenis na sua composição. Enquanto a morte de uma mulher na necrópole de David não causa reação nenhuma por o espectador sequer se lembrar do nome da personagem, a cena do chuveiro presente no trailer, em que o Alien mata duas pessoas fazendo sexo, apesar de reforçar o caráter sexual da criatura, é exagerada demais para funcionar: o rabo do monstro surgindo lentamente por debaixo do homem e subindo na direção da vagina da mulher gera apenas risos pela artificialidade da situação.

Os membros da nave Covenant, por sua vez, são mal desenvolvidos, nem chegando aos pés de David. Enquanto uns têm seus traços particulares martelados constantemente (Orem usa a palavra fé pelo menos três vezes na primeira uma hora de filme), outros sequer tem uma característica para chamar de sua. A mulher que é morta na necrópole, por exemplo, é simplesmente vazia de qualquer coisa, estando lá apenas para morrer. Para piorar a situação, aqueles pouco sortudos que têm algum semblante de personalidade não são aproveitados: a fé de Orem, por exemplo, não leva a absolutamente nada e ele morre agindo de forma tão estúpida quanto qualquer outro personagem menor.

Não obstante, os atores fazem o possível com seus personagens, embora apenas Michael Fassbender realmente tenha material para trabalhar. Construindo dois personagens que se complementam, Fassbender ainda mostra a preocupação de fazer a reviravolta de que David está fingindo ser Walter funcionar: seu suspiro quando o Alien é derrotado, por exemplo, é necessariamente ambíguo para a primeira vista ser entendido como de alívio por Daniels ter sobrevivido e, em uma segunda visita, como de decepção pela criatura ter sido derrotada.

Por fim, o roteiro ainda demonstra uma surpreendente falta de cuidado com a consistência da franquia, quebrando, sem justificativa decente, um de seus padrões mais antigos: se os nomes dos androides em cada filme seguiam uma ordem alfabética (Ash, Bishop, Call e David), o introduzido aqui se chama…Walter.

Alien: Covenant não chega a se configurar o pior capítulo da franquia Alien, mas é certamente o mais irregular: ele traz um protagonista complexo e o cerca de personagens vazios, contém uma temática rica e sequências de ação que nada tem a ver com ela, e até retoma o conceito sexual por trás de seu monstro, mas também desfaz desnecessariamente parte da tradição da franquia.

por Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo.

29 de maio de 2017.


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Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo


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