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Depois de tudo.

2
Posted 11/09/2015 by in 2015

Rating

Nota:
 
 
 
 
 

2/ 5

Ano:
 
Diretor:
 
Título Original: Depois de Tudo.
 
Elenco: Marcelo Serrado, Otávio Müller, Maria Casadevall, César Cardadeiro, Rômulo Estrela
 
Roteiro: Marcelo Rubens Paiva, Mauro Mendonça Filho e Lusa Silvestre
 
Compositor: Plínio Profeta.
 
Duração: 101 minutos.
 
Montagem: Pablo Ribeiro.
 
Fotografia: Dudu Miranda.
 
Resumo:

Depois de tudo é um filme que nunca alcança a força dramática que pretende. Salvo por uma cena ou outra, ele é incapaz de produzir uma reação no espectador e de instigá-lo a pensar. Ele até pode ter almejado ser reflexivo, mas, no fim, é somente tedioso.

by Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo
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Depois de tudo é um drama que trabalha a relação de dois amigos, alternando entre eventos que transcorrem no passado e no presente. É um filme que almeja ser reflexivo, privilegiando a interação entre seus personagens em uma trama que gira em torno do sentimento de remorso. No entanto, apesar de alguns bons diálogos, o filme tropeça no que lhe é essencial, construindo personagens rasos e unidimensionais que raramente surpreendem e encantam.

Marcos (Otávio Müller) e Ney (Marcelo Serrado) eram excelentes amigos quando jovens. Moravam no mesmo prédio, trabalhavam juntos em um bar, tocavam rock e sonhavam em viver de música. No entanto, um acidente de carro abala a relação: os dois se separam, Ney fica cego e Marcos deixa de visita-lo hospital. Eles somente voltam a se encontrar muitos anos depois, quando uma amiga em comum é internada por overdose.

O filme começa de forma promissora com a diferença entre os dois personagens sendo estabelecida rapidamente. Ney alcançou sucesso e tornou-se rico fazendo o que gosta, vivendo pela música, mas mora sozinho. Marcos, por outro lado, virou funcionário público, trabalha sempre entediado e arranja consolo apenas na figura de seu filho.

A fotografia e o design de produção de Depois de tudo delineiam bem o universo em que cada um vive. A casa de Marcos, por exemplo, surge sempre imersa na escuridão, refletindo o estado de espírito do personagem, enquanto o apartamento de luxo de Ney é ostensivo e impessoal.

A relação entre eles é o ponto principal do filme e funciona principalmente quando os dois estão debochando um do outro. Uma cena em particular, no início, é brilhante em apontar os ressentimentos que compartilham e em mostrar que o tempo e a distância não diminuíram a força da amizade. Trata-se da primeira discussão após se reencontrarem, eles sentados em um restaurante e, por meio de diálogos afiados, não perdendo uma única oportunidade de ridicularizar o estado em que se encontram: de um lado Marcos faz piadas com a cegueira do amigo e, do outro, Ney revida brincando com a aparência física e condição financeira do colega. É um duelo divertido que alcança seu clímax quando Marcos brinca com a possibilidade de seu amigo só descobrir que foi para um motel com um homem na “hora h”, para qual Ney responde com naturalidade “Eu já transei com homem. Ele chegou por trás, eu gostei, liguei o foda-se e foi isso”. Esse, aliás, é o melhor momento de Otávio Müller no filme: ele primeiramente faz o espectador rir com sua expressão de surpresa diante da confissão do amigo. Todavia, subvertendo as expectativas, ela rapidamente se esvai para uma carregada de tristeza, quando ele lamenta “Nós nunca nos beijamos”.

Essa carga de arrependimento define os personagens adultos. Ambos refletem sobre o passado com remorso, constantemente se perguntando por que fizeram ou deixaram de fazer certas ações. Apesar do humor eventual, portanto, o clima do filme é triste, dominado pela melancolia.

O diretor João Araújo tenta reforçar demais essa atmosfera e acaba pecando no processo. Araújo abusa de primeiros planos, focando o rosto dos atores, e de planos com campo de profundidade pequena, em que o cenário ao fundo está embaçado, o que novamente ressalta os atores. É como se o diretor estivesse gritando: “Olha o drama dos meus personagens! Olha como sofrem! Olha como são complexos! Como a história tem caráter pessoal!” – o que até teria se configurado uma técnica narrativa eficiente caso Araújo não tivesse exagerado. Na obra resultante, porém, essa estratégia narrativa chega a prejudicar certas cenas. Ao visitar seu antigo bar, por exemplo, Marcos afirma que ele permanece “igualzinho” como era antes. Todavia, como em nenhum momento o espectador consegue enxergar aquele cenário direito, resta a ele – assim como a Ney – apenas levar a afirmação de Marcos na fé – e a cena perde seu impacto dramático.

O roteiro, escrito por Marcelo Rubens Paiva, Mauro Mendonça Filho e Lusa Silvestre, ainda se sai bem pior nos flashbacks que retratam a juventude dos dois. Nos acontecimentos que formam essa parte, a ironia e a postura crítica dão lugar ao moralismo e ao melodrama.

O foco deixa de ser a interação entre Marcos e Ney e passa para a que os dois mantêm com Bebel (Maria Casadevall), a nova vizinha deles. O problema dessa mudança é o fato de a personagem ser rasa e unidimensional. Ela é uma jovem professora de inglês sem rumo, que passa o filme inteiro ou fumando, ou usando drogas ou fazendo sexo com Marcos. O espectador é incapaz de compreender a fundo a personagem, de entender suas motivações ou a ausência delas: não é demonstrado se ela está feliz com seu emprego e fazendo o que gosta (um ponto importantíssimo para os dois rapazes), o que ela pretende da vida e nem o que ela verdadeiramente sente pelos dois, se ela realmente ama Marcos ou não. Não é a toa que ela não tem diálogos no presente: Bebel é basicamente usada como uma ferramenta narrativa pelos roteiristas, uma forma de causar discórdia entre os amigos e levar à cena do acidente. Após despenhar sua função, não lhe resta mais nenhuma característica e ela desaparece. Em suma, Bebel é uma personagem pessimamente construída que jamais convence o espectador.

Os jovens Marcos (César Cardadeiro) e Ney (Rômulo Estrela), por sua vez, também não são desenvolvidos com a mesma habilidade que suas contrapartes adultas. Sai de cena o duelo verbal entre os dois e entra uma dicotomia simplória: Marcos é desleixado, enquanto Ney é responsável. Todas as cenas seguem essa diretriz. Em uma, Ney está fechando as contas do bar e seu amigo está indo para casa fazer sexo com Bebel. Em outra, Marcos compra um violão e Ney avisa que eles não têm dinheiro. Ney acorda cedo para compor e Marcos dorme até tarde e chega atrasado no próprio bar. Ney preocupa-se em conseguir um certificado de músico, enquanto Marcos está novamente transando com Bebel. É uma estrutura, no mínimo, repetitiva.

Até o figurino preocupa-se em salientar essa diferença: na primeira cena de Bebel, por exemplo, Marcos aparece vestindo roupas largas, que mais parecem pijamas, e Ney, um suspensório com jeans masculino.

Assim, a oposição entre a situação dos dois personagens no presente torna evidente o moralismo que permeia a história. Ney, que era mais responsável, consegue realizar seu sonho de viver com música e ficar rico, enquanto Marcos acaba amargurado como funcionário público. Simplista e previsível.

Características que se aplicam ao filme como um todo. As razões do acidente de Ney, por exemplo, são óbvias de início (Bebel sinaliza a todo momento sua instabilidade), e a reviravolta final é boba, em nada acrescentando à relação de Marcos e Ney: pouco interessa se Marcos foi ou não visitar seu amigo no hospital, os pontos que são estabelecidos como relevantes no clímax são os sentimentos e o respeito que ainda nutrem um pelo outro.

Depois de tudo é um filme que nunca alcança a força dramática que pretende. Salvo por uma cena ou outra, ele é incapaz de produzir uma reação no espectador e de instigá-lo a pensar. Ele até pode ter almejado ser reflexivo, mas, no fim, é somente tedioso.

por Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo.

09 de setembro de 2015

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Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo


2 Comments


  1.  
    Ravelly

    Realmente o filme deixa bastante a desejar. Um momento que fica uma incógnita em nossa cabeça é quando o Marcos cita a música Soldados do Legião urbana já no momento recente da trama como se essa canção tivesse tido uma determinada importância no momento do flashback. A música é citada como se ela tivesse sido uma canção de guerra dos rapazes, como se elas fomentassem o posicionamento político e social deles, mas essa importância dada à canção não é mencionada nas recordações, apenas é cantada uma vez em uma cena do cotidiano do bar.





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