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Êxodo: deuses e reis.

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Posted 04/13/2015 by in 2014

Rating

Nota:
 
 
 
 
 

3/ 5

Ano:
 
Diretor:
 
Título Original: Exodus: gods and kings.
 
Elenco: Aaron Paul, Ben Kingsley, Christian Bale, Indira Varma, Isaac Andrews, Joel Edgerton, John Tuturro, Sigourney Weaver.
 
Roteiro: Adam Cooper, Bill Collage, Jeffrey Cane, Steven Zaillan.
 
Compositor: Alberto Iglesias.
 
Duração: 150 minutos.
 
Montagem: Billy Rich.
 
Fotografia: Dariusz Wolski.
 
Resumo:

Êxodo: é um filme que extrai maior parte de sua força dramática da relação entre seu protagonista e Deus. No entanto, por não se preocupar com praticamente nenhum outro personagem, Ridley Scott sabota o potencial de sua história e dos conflitos narrados, enfraquecendo o filme.

by Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo
Full Article

Êxodo: deuses e reis, mesmo possuindo uma escala épica, típica das obras de seu diretor Ridley Scott, é um filme que extrai maior parte de sua força dramática da relação entre seu protagonista e Deus. No entanto, por não se preocupar com praticamente nenhum outro personagem, Ridley Scott sabota o potencial de sua história e dos conflitos narrados, enfraquecendo o filme.

Êxodo conta a história do príncipe do Egito, Moisés (Christian Bale), que, após descobrir ser hebreu e adotado, é exilado por seu irmão de criação, o faraó Ramsés (Joel Edgerton). Passando a viver como pastor longe da cidade em que cresceu, Moisés, extremamente cético, decide subir uma montanha considerada proibida por Deus durante uma tempestade. O pastor sofre um acidente e, preso por uma grossa camada de lama, tem, então, um encontro com Deus (Isaac Andrews), que lhe incube de salvar os hebreus e levá-los à terra prometida.

O êxodo propriamente dito, porém, só ocorre no epílogo do filme. A história de Êxodo é, na verdade, similar àquela encontrada na animação O Príncipe do Egito, mas com foco diferente: ambas narram o embate entre Ramsés e Moisés, acompanhando as dez pragas que lançadas sobre o povo do Egito; todavia, Êxodo se preocupa mais com a relação entre Moisés e Deus do que com aquela entre o pastor e o faraó.

Ridley Scott constrói o universo do filme como um épico, não poupando planos abertos para mostrar a imponência dos cenários – em que as enormes estátuas, pirâmides e esfinges em construção se contrapõem aos pequenos habitantes –, enquanto aproveita a grandiosidade da trilha sonora. Do mesmo modo, as breves batalhas são filmadas seguindo a cartilha do gênero, com direito a um plano que se inicia com a câmera mostrando as cabeças dos cavalos de um exército galopando em fila e depois vai descendo até focar seus cascos batendo contra a terra. Já as pragas em si são um espetáculo visual a parte, com os efeitos especiais criando cenas impactantes ao mostrar milhares de rãs e gafanhotos invadindo o Egito.

É importante, aliás, notar que o roteiro, apesar de claramente apresentar as pragas como obras de Deus, se esforça para dar explicações minimamente naturais para sua ocorrência – mesmo que estas se configurem, em algumas ocasiões, um bocado absurdas, como sugerir que a súbita maré baixa que permitiu que os hebreus atravessassem o Mar Vermelho ocorreu devido a uma tsunami que se aproximava. Essa postura de tentar conferir alguma lógica a eventos que, à primeira vista, parecem absurdos, contudo, é adequada por se assemelhar à visão de mundo do protagonista da história.

Moisés surge como um homem cético que não hesita em questionar a fragilidade das crenças daqueles ao seu redor. Ele recorrentemente resume essas crenças em sentenças simples para expor o absurdo que as regem. Em determinado momento, por exemplo, quando seu filho lhe conta que é proibido subir uma montanha específica, ele zomba da arbitrariedade da regra, perguntando para o menino: “Seu Deus impede os homens de subirem montanhas?”. Christian Bale encarna o papel de maneira adequada, evitando que essa atitude questionadora soe desrespeitosa em vez de apenas combativa.

É por esse motivo que a dinâmica que o personagem mantém com Deus se revela fascinante. Moisés jamais deixa de fazer objeções às ações de Deus que acredita serem de natureza questionável. O protagonista, por exemplo, não deixa de indagar o motivo de Ele ter permanecido inerte durante todo aquele tempo de escravidão e, de repente, querer resolver a situação. Mas, principalmente, Moisés vai contra os métodos de atuação indiscriminados, que atingem tanto culpados quanto inocentes, que Deus emprega: quando a decisão de matar os primogênitos lhe é revelado, sua primeira reação é se recusar a fazer parte dela. Ou seja, o protagonista contesta justamente quem está disposto a ajudá-lo, tornando sua situação mais complexa.

Êxodo certamente não é um filme que agradará fundamentalistas religiosos. Deus aqui é apresentado não somente como um psicopata, mas também de forma infantilizada. Ele surge em cena sempre na figura de uma criança: um menino que, volta e meia, age de maneira mimada e birrenta. Apesar de imensuravelmente poderoso e terrível, o Deus representado no filme não é nem mesmo maduro, chegando até a ceder a provocações. Quando, perto do clímax, Ramsés profere o desafio “Vamos ver quem é mais eficiente em matar: eu, você ou seu Deus”, qualquer espectador que já tenha ouvido falar do Antigo Testamento inevitavelmente soltará um riso, pensando “Nossa, você vai perder feio”.

Essa abordagem é fundamental para o filme funcionar, visto que a dinâmica entre os dois constitui o conflito central da história, chegando a eclipsar até mesmo a relação entre Moisés e o faraó. O protagonista se vê tendo que seguir um Deus do qual discorda em diversos níveis porque Ele também pretende ajudar os hebreus a se livrar da escravidão. Ou seja, Deus é, em diversas ocasiões, enxergado como se fosse um mal necessário, quase uma arma, para Moisés atingir seu objetivo – visão, aliás, que Deus também parece ter do pastor.

Além disso, tal abordagem também é responsável por conferir identidade própria a um filme que, ao lidar com um material já trabalhado com sucesso diversas vezes no Cinema, poderia ter trilhado apenas o caminho comum, sem oferecer qualquer perspectiva nova ao espectador.

Ainda nesse ponto, é válido compreender como o diretor decide filmar as cenas envolvendo Deus. Na primeira vez em que o personagem aparece para Moisés, o protagonista tem consciência de que a situação o faz parecer louco (“Sei que pareço estar delirando“, ele confessa para sua mulher). Ridley Scott então aplica essa concepção nas cenas seguintes entre Moisés e Deus, realizando cortes no meio das discussões entre os dois para mostrar rapidamente o protagonista gritando sozinho com uma pedra no meio do nada.

Não obstante o conflito entre os dois personagens ser o coração da história, ela é estruturada seguindo a batalha entre Moisés e o faraó. De um lado temos o protagonista incitando os hebreus à revolta e cometendo atentados contra os egípcios – basicamente, um terrorista – e do outro vemos Ramsés revidando os ataques com gestos ainda maiores de violência, com Deus volta e meia aparecendo para mostrar quem é que realmente manda no Egito.

Moisés, aliás, apresenta insights políticos bem à frente de seu tempo, em um momento explicando para Ramsés o conceito de autodeterminação dos povos, em outro dando aos hebreus uma aula de guerrilha sobre como se deve atingir a classe-média para pressionar um governante a ceder às demandas feitas. E, expandindo a analogia do terrorismo, se Moisés pode ser considerado como tal, a estratégia que Ramsés usa para combatê-lo serve como uma excelente crítica às táticas antiterroristas atuais, visto que todos os seus gestos violentos para coibir a revolta somente a intensificam.

Embora a relação entre os dois personagens obviamente se modifique ao longo do filme, indo da amizade ao ódio completo, Ridley Scott não dá muita ênfase a esse arco narrativo, preferindo se focar na dinâmica com Deus e nas cenas de ação envolvendo as pragas. Não somente isso, como a própria atuação de Joel Edgerton, que interpreta Ramsés, não ilustra a transformação ocorrida muito bem: desde o início, ao contrário do que seus diálogos sugerem, ele parece não sentir um afeto muito grande por Moisés, recorrentemente surgindo com expressão fechada ou sorrindo forçosamente perto do irmão de criação – sensação que é ainda reforçada pela sua reação a uma profecia proferida no início do filme. O roteiro quer que o espectador acredite que os dois personagens se amavam, mas os atores nunca interagem demonstrando carinho em tela. Com isso, a jornada do faraó perde bastante do impacto que poderia causar no espectador.

Destino pior têm os personagens secundários que ou deixam de apresentar qualquer função narrativa ou, após cumpri-la, são basicamente esquecidos ao longo do filme. A rainha Tuya (Sigourney Weaver), mãe de Ramsés, por exemplo, serve como uma figurante de luxo, trazendo apenas uma meia dúzia de falas no filme inteiro. Quando Ramsés põe em cheque o conselho dela sobre como lidar com Moisés, afirmando que ela nunca gostou dele, o espectador possivelmente ficará surpreso com o fato de ela ter chegado em algum momento a interagir com alguém e ainda ter formado opiniões, visto que até então ela praticamente não havia aberto a boca. Depois dessa cena, ela desaparece. O personagem de Aaron Paul é outro que não serve para praticamente nada e nem sua característica marcante – afirmarem que ele “não sente dor” – leva a qualquer lugar. Já o velho hebreu Nun, (Ben Kingsley) que conta a Moisés sobre suas reais origens no início do filme, some na metade sem nenhuma explicação. Dessa forma, Ridley Scott deixa de povoar o universo de seu filme com personagens interessantes e apresenta Moisés discutindo com Deus sobre o destino de pessoas com quem o espectador não poderia se importar menos.

Essa falta de desenvolvimento provavelmente é resultante das mais de duas horas de filme cortadas: a primeira versão de Êxodo alcançou a marca de quatro horas e meia de duração, como o diretor revelou em entrevista ao site Collider. Isso também explicaria o ritmo acelerado do filme que se utiliza de elipses enormes, principalmente no início, para movimentar a história, cortando eventos que o espectador consegue inferir sozinho. Assim, Moisés encontra uma moça, troca um olhar e uma conversa e, na cena seguinte, os dois já estão se casando. Outras elipses, todavia, são mais forçadas, como a que corta a morte de Seti (John Tuturro), pai de Ramsés. Na cena anterior a sua mumificação, ele aparece na cama doente, mas o espectador não tem muito tempo para compreender a gravidade da situação, tornando o evento súbito demais.

O filme também peca ligeiramente em seu clímax, em que tanto Moisés quanto Ramsés sobrevivem à quebra de uma tsunami porque os roteiristas e Deus assim quiseram – afinal, tal cena contraria o mínimo de realismo que as outras sequências de ação do longa trazem.

No fim, Êxodo: deuses e reis é um filme que apresenta uma fascinante dinâmica entre seus dois personagens principais, Moisés e Deus. Todavia, o diretor Ridley Scott se esquece de cercá-los com outros personagens igualmente interessantes,  deixando de aproveitar, desse modo, o potencial que essa abordagem diferenciada possuía.

por Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo.

Publicado originalmente em 25 de Dezembro de 2014.


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Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo


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