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Warcraft: O primeiro encontro entre dois mundos.

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Posted 06/17/2016 by in 2016

Rating

Nota:
 
 
 
 
 

4/ 5

Ano:
 
Diretor:
 
Título Original: Warcraft.
 
Elenco: Anna Galvin, Ben Foster, Burkley Duffeld, Clancy Brown, Daniel Wu, Dominic Cooper, Paula Patton, Robert Kazinsky, Tobby Kebbell, Travis Fimmel.
 
Roteiro: Charles Leavitt, Duncan Jones.
 
Compositor: Ramin Djawadi.
 
Duração: 123 minutos.
 
Montagem: Paul Hirsch.
 
Fotografia: Simon Duggan.
 
Resumo:

Warcraft: O primeiro encontro entre dois mundos, adaptação do famoso jogo de estratégia em tempo real da Blizzard, é um filme de fantasia narrativamente ambicioso que, apesar de sofrer com alguns problemas óbvios, fascina pela complexidade com que estrutura o arco narrativo de seus personagens.

by Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo
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Warcraft: O primeiro encontro entre dois mundos, adaptação do famoso jogo de estratégia em tempo real da Blizzard, é um filme de fantasia narrativamente ambicioso que, apesar de sofrer com alguns problemas óbvios, fascina pela complexidade com que estrutura o arco narrativo de seus personagens.

A trama do filme começa estabelecendo uma rivalidade entre orcs e humanos e passa a contar como ela se originou: os orcs, por terem destruído seu próprio mundo, atravessaram um portal até um lugar chamado Azeroth, onde imediatamente entraram em guerra com humanos, anões e elfos. No entanto, um dos líderes orc, Durotan (Tobby Kebell), acredita que seu comandante Gul´dan (Daniel Wu), é o culpado pelo destino de sua terra natal e que, se ninguém impedi-lo, o mesmo acontecerá com seu novo lar.

O prólogo de Warcraft funciona muito bem em apresentar os orcs para o espectador, mostrando sua hierarquia tribal (com chefes de clã) e aspecto bestial (eles têm presas) ao mesmo tempo em que humaniza o protagonista: Durotan aparece conversando amigavelmente com sua mulher grávida, Draka (Anna Galvin), preocupado com o prospecto de ela atravessar o portal com ele. É uma cena doce, cujos diálogos mesclam carinho, piadas e a personalidade agressiva da raça: “Você vai conseguir esconder essa sua barriga gorda?”, ele pergunta suavemente, para o que ela responde “Só se você esconder essa sua cabeça gorda”.

A cena que se segue estabelece o elemento central da história: a magia Fel (Vileza, na tradução), que oferece incrível poder a seu usuário, mas drena a energia de seres vivos para funcionar. Gul’dan surge matando centenas de prisioneiros e abrindo o portal pelo qual centenas de guerreiros atravessam correndo. A câmera sobe, percorrendo a extensão do portal, enquanto a intensa música tema composta por Ramin Djawadi (Game of Thrones) captura o clima de guerra.

Duncan Jones, porém, não é um diretor que está somente preocupado com a escala da ação. Ele não esquece o impacto das mortes, capturando a mão de uma das vítimas de Gul’dan caindo em meio a outras, e nem o drama dos personagens, rapidamente voltando para o dilema de Durotan e sua mulher. Além disso, nessa cena ele ainda se mostra visualmente inventivo, brincando com a perspectiva espacial com a jornada através do portal.

É um prólogo repleto de informação, compondo uma diretriz que o restante do filme segue com seu ritmo frenético. Nesse sentido, é importante que a base da trama seja simples – Gul’dan precisa ser derrotado, pois sua magia verde é má – para que o filme não se torne confuso – afinal, o objetivo está delineado desde o início.

Assim, Jones se dá espaço para construir vários personagens cujas histórias se entrelaçam.  O general Lothar (Travis Fimmel), por exemplo, é o centro narrativo dos humanos, com sua relação com o filho Callan (Burkley Duffeld) e com o rei Llain (Dominic Cooper) compondo seu arco dramático. Os dois, todavia, apesar de serem acessórios, não são personagens muito simples: o primeiro quer provar seu valor como soldado para compensar sua rejeição pelo pai, enquanto Llain deseja estender aos orcs, se possível, o acordo de paz que mantém com as outras raças – ambos objetivos levando-os a cometer sacrifícios. Todos os personagens de Warcraft seguem esse padrão, surgindo cada um com seu arco narrativo próprio.

Lothar, por exemplo, também se vê tendo que trabalhar com uma meia-orc, chamada Garona (Paula Patton), cuja natureza reflete sua função narrativa: ser uma ponte entre homens e orcs – uma ponte construída por sangue, como simbolizado no clímax. Já o amigo de Durotan, Orgrim (Robert Kazinsky), vê-se em meio a um dilema: como seu colega planeja opor-se a Gul’dan, ser fiel a ele significa trair seu povo.

Ou seja, apesar da quantidade de personagens, poucos são aqueles que surgem planos, uma vez que, volta e meia, eles desafiam seus estereótipos. Assim que Gul’dan descobre que Draka está grávida, por exemplo, o espectador é levado a acreditar que ele responderá com violência – devido a sua caracterização vilanesca com direito a olhos brilhando em verde esmeralda –, mas é, então, surpreendido por uma reação – se ainda sinistra – carinhosa para com a criança. A magia de Gul’dan pode levá-lo a atos de incrível crueldade, mas no fim, ele ainda quer proteger seu povo.

Há um esforço claro por partes dos roteiristas em não deixar nenhum antagonista unidimensional. O líder orc Blackhand (Clancy Brown), por exemplo, reclama, em determinado momento, que não quer ser forçado a matar inocentes novamente, enquanto aquele que arquiteta a invasão a Azeroth, o faz com um misto de boas intenções e falta de controle sobre si mesmo. Em outras palavras, Jones evita uma postura maniqueísta, colocando heróis e antagonistas em ambos os lados da guerra. O verdadeiro vilão de Warcraft é, na verdade, a magia Fel, que corrompe e distorce as intenções de quem a utiliza: basta reparar o que seus dois grandes usuários fazem com os mundos que querem proteger para compreender a extensão do dano causado por ela.

É aí que reside a ambição narrativa de Warcraft: fantasia é um gênero normalmente associado à aventura, porém, a história do filme é essencialmente uma tragédia.

Tal característica encontra-se mais evidente no arco narrativo do guardião de Azeroth, Medivh (Ben Foster), em que a tragédia se manifesta em um de seus formatos mais clássicos. O guardião é movido por húbris, acreditando que consegue ser mais do que de fato é, tentando controlar forças maiores que ele e ajudar seres além daqueles que está destinado a salvar, sempre rejeitando auxílio quando o mesmo é oferecido. Medivh é, então, gravemente punido por sua postura, sendo diretamente responsável pela própria ruína.

O personagem, entretanto, torna-se ainda mais fascinante devido ao que não é dito sobre ele. Medivh sugere um passado conturbado e a existência de histórias complexas por trás de suas motivações, mas estas são apenas pinceladas. Ele mesmo é enigmático em sua interação com os outros personagens, levando a cenas carregadas de ambiguidade: no momento em que se abre para Garona, estaria Medivh revelando, por vias tortas, seu parentesco com ela ou somente extravasando sua angústia e agindo com carinho? Quando afirma querer salvar a todos, estaria ele também englobando os orcs em seu plano?

O arco dramático do guardião é ainda enriquecido por ser manifestado fisicamente no Golem que o personagem constrói com as próprias mãos a partir do barro: o propósito inicial da criatura se contrapõe a sua verdadeira função no clímax, refletindo diretamente a jornada de seu criador, enquanto seu fim a complementa simbolicamente. O tema musical de Medivh, por sua vez, é apropriadamente melódico e triste, capturando a essência da jornada do guardião.

Em Warcraft, Jones constrói uma narrativa repleta de simbolismos e relações escondidas em meio à ação. Basta analisar atentamente a cena em que Orgrim relaciona a presença de estátuas à vontade dos deuses, por exemplo, para observar que ela serve primeiramente como uma piada, mas também como um alerta para o espectador notar qual é a única estátua presente em Azeroth.

O diretor também traz algumas ideias interessantes para o filme, como a troca de perspectiva entre personagens em uma cena acompanhar a da língua que estão falando (o inglês de Lothar torna-se uma língua alienígena quando a câmera foca em um orc e o mesmo volta a falar em seu dialeto próprio quando a cena passa novamente para o general) e um movimento de câmera aéreo que simula brevemente a perspectiva de um jogo de estratégia em tempo real, viajando pelo campo de batalha.

Por isso, é uma pena atestar que Warcraft sofre com alguns problemas bem visíveis. As atuações, principalmente dos atores que surgem em carne e osso, deixam a desejar: se Travis Fimmel, com sua voz suave, é competente quando precisa ser sarcástico ou brincalhão (como na ágil troca de “Poderia ser uma armadilha”, “Não é”, “Mas poderia ser”), em suas cenas mais dramáticas ele fracassa em transmitir qualquer emoção verdadeira. Por outro lado, Paula Patton tende ao overacting, exagerando nas expressões faciais e sempre parecendo muito mais emotiva do que deveria estar.

Já a montagem feita por Paul Hirsch (O Império Contra-Ataca) falha por um excesso anormal de fusões, que dão um ar amador ao projeto e acabam sugerindo a existência de vários cortes de última hora.  Aliás, o filme teria se beneficiado de uma duração um pouco maior, que possibilitasse uma visão mais aprofundada de como Azeroth funciona: anões e elfos, por exemplo, mal aparecem, dissolvendo a força do “Pela Aliança!” proferido no final.

Warcraft: O primeiro encontro entre dois mundos é um filme mais ousado que se poderia supor a princípio. Trazendo uma gama enorme de personagens razoavelmente complexos e uma proposta diferenciada para o gênero fantasia, o filme configura-se uma dos primeiros sucessos em adaptar jogos de videogame para o cinema.

por Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo.

17 de junho de 2016.


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Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo


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