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Affordable Space Adventures.

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Posted 10/27/2017 by in WiiU

Rating

Nota:
 
 
 
 
 

4/ 5

Plataforma:
 
Título: Affordable Space Adventures.
 
Publicador: KnapNok Games.
 
Desenvolvedor: KnapNok Games.
 
Duração Média: 4 horas.
 
Lançamento: 9 de abril de 2015.
 
Compositor: Harry Damm.
 
Resumo:

Affordable Space Adventures é um título que rivaliza em criatividade com os maiores da Nintendo no Wii U. Sua história ácida é construída habilmente e suas mecânicas, se não aproveitadas ao máximo, mostram-se inovadoras e fascinantes.

by Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo
Full Article

Affordable Space Adventures é um pequeno jogo de puzzle e aventura que consegue utilizar melhor o controle especial do Wii U do que qualquer título da própria Nintendo no sistema. Contando sua história com um tom predominantemente cínico, que ataca a mentalidade exploradora de grandes corporações e a postura imperialista da sociedade, e oferecendo uma jogabilidade inovadora que gera enigmas únicos, o jogo apenas peca em sua curva de dificuldade, que cai vertiginosamente durante o clímax.

O jogo abre com um comercial: a companhia Uexplore convida pessoas a participar de seu programa de exploração ao planeta Spectaculon, mostrando paisagens verdejantes, cachoeiras sob um belo arco íris e golfinhos saltando no pôr do sol, enquanto promete riquezas inimagináveis, apelando para o instinto imperialista do seu público alvo: “If you map an area first you can claims it as yours”, promete o anúncio.

Essas propagandas são a alma da história contada em Affordable Space Adventures. A primeira, por exemplo, traz diversas contradições e ironias que estabelecem o tom cínico da narrativa. Os cenários convidativos e deslumbrantes são acompanhados da garantia que são absolutamente seguros. No entanto, para tornar o conceito de conquistar terras estrangeiras mais tentador, a companhia também afirma que 99% da superfície do planeta ainda não foi mapeada, pondo em xeque suas alegações anteriores. Em seguida, afirma que há zero acidentes reportados desde 1995, mas a ênfase deve ir para o “reportados” e as incontáveis fatalidades que esconde sutilmente em si. Mais tarde essa data ainda muda, alertando para a falsidade da empresa: “0 accidents since 1993” diz um livreto da empresa exposto na tela de loading. Até mesmo o comercial que mostra a funcionária responsável por questões de segurança, Alex Bonody, tem no seu sobrenome um acrônimo para “nobody” (ninguém) e seu rosto claramente photoshopado em uma foto.

Não é uma surpresa, portanto, quando a realidade em Spectaculon revela-se contrastante com o imaginário construído pelo marketing da empresa. Assim que a nave do protagonista (nunca nomeado ou descrito, levando o jogador a se colocar no lugar) surge na tela, seu sistema operacional está reiniciando após passar por problemas não mencionados. A nave em si é minúscula, com sua lanterna iluminando parcamente um ambiente banhado em uma opressiva luz arroxeada. Assim que ela se movimenta o choque é, então, reforçado: seu motor gera solavancos que tornam sua movimentação instável, chacoalhante, quase como se a nave estive “tremendo”. Uma densa fumaça preta sai pelo escapamento. Lá fora, uma tempestade de raios feroz bloqueia parte da visão, enquanto os destroços de equipamentos da Uexplore terminam de construir a atmosfera hostil.

Mecanicamente, o título, de movimentação 2D, encontra sua originalidade ao fazer do sistema operacional da nave, controlado em grande parte pela tela de toque do gamepad, seu ponto chave. Nele, é possível ativar e desativar diversos mecanismos e sistemas que são gradualmente tornados disponíveis para uso durante a aventura, enquanto a OS da nave recupera suas funções.

Há dois motores, por exemplo. O movido a combustível, que permite a nave empurrar objetos pesados e a faz sacudir violentamente caso seu estabilizador não esteja ligado, e o elétrico, que torna a nave perfeitamente estável, embora fraca, e oferece opções mais complexas, como controle sobre como ela é afetada por inércia ou gravidade. Há outras particularidades inerentes aos dois motores – apenas o elétrico permite movimentação submersa –, mas a complexidade advém principalmente da necessidade de adaptar essas opções aos puzzles envolvendo os cenários e inimigos.

O primeiro enigma do título é basilar, fazendo parte da linguagem universal do gênero: o jogador precisa empurrar blocos e pressionar dispositivos. Depois de unir esses dois elementos, porém, o título felizmente começa a apresentar suas idiossincrasias: a tremedeira da nave, por exemplo, torna-se um problema quando se precisa atravessar um corredor com feixes de laser. Diminuí-la com o estabilizador, entretanto, aumenta a pressão no reator, podendo fazê-la explodir se o jogador demorar muito para atravessar o lugar.

Os inimigos complicam a situação. A nave não está equipada com qualquer armamento – como poderia se Spectaculon é completamente seguro? – então resta como opção apenas fugir ou tentar passar despercebido pelos artefatos alienígenas, normalmente mecânicos, espalhados pelo lugar. Isso é feito com o controle dos atributos da nave: cada motor, equipamento e função afeta o nível de calor, som ou eletricidade gerados e aí captados pelos inimigos.

Nesse ponto a lógica dos puzzles se faz clara. É necessário ativar os mecanismos necessários para superar um obstáculo, mas de forma a não ser percebido pelos artefatos hostis do ambiente: o jogador vai tentando descobrir qual o arranjo específico de funções o permite tanto atravessar aquele ambiente específico quanto fazê-lo de forma furtiva. A dificuldade sobe primeiro com o acréscimo de arranjos possíveis, depois com sua alternância imediata enquanto se atravessa os ambientes e, por último, ao exigir um pensamento fora da caixa, como a possibilidade desligar totalmente a nave para ela cair despercebida, religando o sistema nos últimos instantes com o arranjo necessário preparado previamente.

No entanto, essa progressão de dificuldade cai quando justamente deveria chegar ao seu ápice: as últimas fases do jogo são tão simples e fáceis quanto às iniciais. A lógica do movimento é interessante, criando uma jornada circular com a regressão de possibilidades, mas não funciona porque os enigmas que vieram antes nunca alcançaram seu potencial. Talvez percebendo isso, os desenvolvedores lançaram, em uma atualização tardia, novos estágios bem mais difíceis e interessantes, embora sejam acessados separadamente da história.

A apresentação audiovisual do título é digna de aplausos. Sempre colocando o cenário em um tamanho desproporcional em relação ao protagonista, os desenvolvedores reforçam sua fragilidade e insignificância diante daquele misterioso e hostil planeta. A interface das cápsulas de fuga encontradas nos ambientes também surpreende por resgatar a do Windows 95: uma surpresa tematicamente apropriada por apontar para a propaganda falsa da Uexplore e suas tecnologias de ponta. O design de som, por sua vez, é composto principalmente por sons diegéticos, que provém do ambiente, contribuindo para atmosfera opressiva do local, enquanto a trilha instrumental, quando surge, é sutil, complementando os sons do ambiente.

Outro ponto positivo, e infelizmente indisponível após novembro de 2017, é o excelente uso do extinto Miiverse durante o epílogo, em que mensagens escritas por outros jogadores contribuem para a piada final.

Affordable Space Adventures é um título que rivaliza em criatividade com os maiores da Nintendo no Wii U. Sua história ácida é construída habilmente e suas mecânicas, se não aproveitadas ao máximo, mostram-se inovadoras e fascinantes.

por Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo.

27 de outubro de 2017.


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Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo


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