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Fire Emblem Echoes: Shadows of Valentia.

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Posted 12/15/2017 by in 3DS

Rating

Nota:
 
 
 
 
 

4/ 5

Plataforma:
 
Desenvolvedor: Intelligent Systems.
 
Diretor: Toshiyuki Kusakihara, Kenta Nakanishi.
 
Compositor: Sho Murakami, Takafumi Wada, Takeru Kanazaki, Yasuhisa Baba.
 
Roteirista: Sakoto Kurihara.
 
Resumo:

Shadows of Valentia tem sucesso ao revitalizar a história do antigo título da franquia, trazendo personagens e conflitos complexos. No entanto, o jogo embora também gera suspiros de alívio por vários elementos de Gaiden terem sido posteriormente descartados.

by Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo
Full Article

Mesmo sendo o remake de Fire Emblem Gaiden, um dos primeiros títulos da franquia, Fire Emblem Echoes: Shadows of Valentia traz a melhor história desde Path of Radiance, com personagens trágicos, discussões relevantes e uma narrativa bem construída. No entanto, ele também contém um level design pouco inspirado e várias mudanças problemáticas na jogabilidade, tornando-o um dos mais inconsistentes exemplares da franquia.

No início da história, Alm e Celica são amigos de infância que, em um dia fatídico, são separados um do outro quando um grupo de cavaleiros reconhece a garota no isolado vilarejo em que viviam – Celica é, então, forçada a fugir sem oferecer explicações a Alm. Anos mais tarde, já treinado por seu avô, Mycen, e vendo que seu país sofreu um golpe de estado, Alm, sempre impulsivo, oferece seus serviços a um grupo militar de resistência, chamado The Deliverance. Enquanto isso, Celica parte em uma jornada para descobrir o que acometeu a deusa de seu reino, uma vez que as terras deixaram de ser cultiváveis e o estoque de comida está esgotando.

O universo de Shadows of Valentia é divido em dois continentes, cujas respectivas ideologias encontram-se corrompidas. O reino do sul, Zofia, que preza pela abundância de alimentos e longas festas, teve seus líderes tornando-se apáticos e concentrando-se mais no próprio prazer do que no bem estar do povo. Já Rigel, no norte, teve sua cultura baseada na mais rígida e inabalável disciplina, o que acabou escurecendo o coração de seus homens, tornando-os capazes dos atos mais cruéis em nome do dever e da honra.

É nesse cenário que Alm encontra-se quando o rei de Zofia é assassinado e a ameaça de uma invasão militar de Rigel é só uma questão de tempo. No entanto, o protagonista logo se depara com divergências dentro de seu próprio grupo, que refletem os problemas institucionais de seu reino.

The Deliverance é uma organização criada por nobres para resolver um problema criado por nobres e que, para isso, precisa alistar o povo. Quando um de seus líderes, Clive, mostra intenção de dar poder a Alm para criar um canal de comunicação com os soldados, alguns de seus companheiros inevitavelmente se rebelam. O representante deles chama-se Fernand, que enxerga com ultraje a possibilidade de alguém que cresceu como um pobre – mesmo sendo de sangue real, neto de Mycen – dar ordens a ele.

Fernand acredita que a criação de um nobre é que confere autoridade a ele. Um nobre é melhor que o povo justamente pela educação e convívio que teve e, por isso, tem o direito de governar e viver melhor. Um membro da classe baixa, consequentemente, tem que considerar sua instrução ruim como inevitável e aceitar a posição social que lhe resta ocupar. Quem compartilha de opinião similar é um dos antagonistas de Alm, o lorde de Rigel chamado Berkut, que expõe claramente o determinismo de sua ideologia: “One is born either noble or common. This destiny cannot be changed. Has a sheep any hope of leading wolves?” Alm, como é de se esperar, opõe-se a isso, defendendo que são as ações de um sujeito que devem definir seu valor e não as circunstâncias de seu nascimento.

Os principais antagonistas de Shadows of Valentia não são unidimensionais, encerrando em si uma carga de tragédia. Sim, o regicida de Zofia e seus comparsas no início são irredimíveis em sua maldade, mas eles não demoram a ser substituídos por personagens mais interessantes. Fernand, por exemplo, não é capaz de atos cruéis e os condena com veemência. Se, contraditoriamente, ele defende a nobreza e a desigualdade que dela deriva é porque foi ensinado a fazer isso desde a infância. Assim, quando confrontado ideologicamente, ele reage de forma violenta, exatamente como foi programado a agir nesse caso. Já o arco narrativo de Berkut o pinta como um sujeito com um reprimido complexo de inferioridade, que busca desesperadamente formas de se provar e estabelecer como alguém importante. A defesa de seu titulo de nobreza é mais um sintoma de sua necessidade de se agarrar a elementos que o tornam superior a outros do que resultado lógico de uma ideologia. O personagem entra no clássico caso daquele que, em sua ambição desmedida, sacrifica tudo que lhe é mais querido para, no fim, conseguir absolutamente nada.

Alm e Celica também se mostram mais complexos do que aparentam à primeira vista. Alm, por exemplo, tem uma tendência pouco saudável de querer resolver todos os problemas com violência. Não é à toa que ele não hesita em querer ser recrutado pelo grupo de resistência: literalmente lutar pelo que acredita é a linguagem que Alm entende. Seu ímpeto pela batalha é ainda agravado por sua visão maniqueísta de mundo, em que ele se vê como um herói, enquanto seus inimigos são imediatamente vilões desprezíveis. Isso o coloca em confronto direto com sua amiga da infância, cuja filosofia pacifista prega o diálogo e concessões mesmo quando as mesmas significam que a opressão vai continuar. Além disso, o altruísmo de Celica também descamba para a arrogância – única característica que compartilha com Alm – fazendo ela acreditar que é a única que deve sofrer com os fardos impostos pela guerra e a única que deve fazer os sacrifícios necessários.

É inevitável, portanto, que os breves momentos de reencontro entre os dois sejam dramaticamente ambivalentes: ao mesmo tempo em que são cenas doces, repletas de um amor há muito reprimido, não deixam de gerar conflito e discussões, levando inevitavelmente a novas separações. Seus arcos narrativos também se mostram adequados, colocando suas respectivas tragédias no final de uma cadeia de ações baseadas em suas respectivas teimosias: a natureza guerreira de Alm e a altruísta de Celica levam os dois não somente a traçar caminhos separados como também a cometer erros terríveis.

Mas, se em sua narrativa Shadows of Valentia mostra-se superior a vários de seus antecessores diretos, em sua jogabilidade, o título derrapa com modificações que só simplificam seus sistemas, não trazendo nada para compensar essa perda de complexidade.

A primeira a ser discutida é a remoção do famoso triângulo de armas da franquia: antes, espadachins levavam vantagem contra lanceiros, que exceliam contra portadores de machado, que, por sua vez, completavam o círculo ao ganhar bônus contra espadachins. Esse bônus não era enorme a ponto de impedir que um espadachim ganhasse de alguém com machado, mas complicava a luta, podendo levar a tragédias como errar um ataque e ainda tomar um crítico de volta. Agora, entretanto, todo mundo luta de igual para igual na arena e, como esse triângulo não foi substituído por nada de efeito equivalente, a mudança só tornou os embates menos complexos.

O inventário também foi removido: os personagens sempre carregam uma arma base de sua classe e além dela podem carregar um único item, que pode ser de cura, um anel que aumenta seus atributos ou uma arma especial que faz algo similar. Se Fire Emblem Fates trocou o sistema de durabilidade por um de compensação de atributos, Shadows of Valentia remove tudo, coloca nada no lugar e se dá como satisfeito.

Tudo aqui é mais simples que os últimos títulos da franquia. As conversas de suporte diminuíram em número e ocorrem no meio da batalha, não há mais uma base para construir e defender, não há mais casamentos entre personagens e muito menos a loucura de filhos presos em um mundo paralelo bizarro em que o tempo passa mais rápido.

Uma adição, que remonta a Fire Emblem Gaiden, é a exploração de dungeons. O jogador controla Alm ou Celica em terceira pessoa (seus capítulos seguem alternados até eventualmente se unirem), explorando labirintos e enfrentando pequenas batalhas no processo. Se o jogador surpreender o monstro, a batalha começa no seu turno e causando um pouco de dano nos oponentes, caso contrário os monstros agem primeiro. As batalhas, entretanto, são praticamente as mesmas toda a vez que ocorrerem, pois, assim como os inimigos, o design dos mapas raramente muda dentro da mesma dungeon. Dessa forma, essas partes caem no tédio da mesmice, com o jogador acabando tendo que driblar os monstros no labirinto para poupar tempo.

A única mudança realmente interessante é a possibilidade de visitar cidades e vilas, que são apresentadas uma estética similar à área principal de Shin Megami Tensei IV, pois permite mais interação com os habitantes daquele universo e até ativar missões secundárias.

O level design de Shadows of Valentia prova, entretanto, que a franquia evoluiu bastante nesse aspecto desde Fire Emblem Gaiden: enquanto cada fase em Conquest, por exemplo, tentava trazer um diferencial, seja no objetivo, seja nas dinâmicas do cenário, enquanto aqui o jogador basicamente encontrará campos abertos dos mais variados tamanhos com uma ou outra estrutura no meio. Assim, são poucas as batalhas que exigem um estratégia única por parte do jogador.

Por fim, o trabalho de som em Shadows of Valentia merece grande destaque. Primeiro, porque é o primeiro título a dublar a fala dos personagens e faz um ótimo trabalho, no nível de Kid Icarus Uprising, em que até mesmo os resmungos de piratas vilanescos, como “Yar har ho!”e “Gar har har!”, são pronunciados de forma espirituosa. Em segundo lugar, a trilha sonora é digna de aplausos tanto por sua lógica – o tema de união entre Alm e Celica torna-se um leitmotif, surgindo em diversas músicas de conflito, refletindo como a continuidade da separação dos dois não para de afetar aqueles a sua volta – como por sua qualidade e variedade, colocando temas diferentes para o mapa principal em cada capítulo e até incluindo um com vocais.

Fire Emblem Echoes: Shadows of Valentia tem sucesso ao revitalizar a história do antigo título da franquia, trazendo personagens e conflitos complexos. No entanto, o jogo embora também gera suspiros de alívio por vários elementos de Gaiden terem sido posteriormente descartados.

por Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo.

15 de dezembro de 2017.


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Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo


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