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A Espada do Destino.

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Posted 05/17/2015 by in Fantasia

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Nota:
 
 
 
 
 

4/ 5

Sumário

Genero:
 
Autor:
 
Editora:
 
Idioma Original:
 
Título: A Espada do Destino.
 
Título Original: Miecz przeznaczenia.
 
Tradução: Tomasz Barcinski.
 
Edição: 2012.
 
Páginas: 379.
 
Capa: Alejandro Colucci
 
Resumo:

A Espada do Destino é um livro que constrói seu tema de forma eficaz, por intermédio de pequenas histórias que, juntas, compõem uma única luta contra o impossível. O grande acerto de Andrzej Spakowski, porém, é evitar julgamentos moralistas, preferindo apresentar um personagem complexo, cujos tropeços tornam-no ainda mais fascinante.

by Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo
Full Article

A Espada do Destino é o segundo volume de A saga do bruxo Geralt de Rívia, iniciada com O Último Desejo. Em sua narrativa, o autor polonês Andrzej Spakowski mantém praticamente o mesmo estilo do livro anterior, apresentando contos carregados de ironia e ligeiras críticas sociais, enquanto desenvolve seu protagonista de forma eficiente.

O tema do livro, como o título sugere, é a luta contra o que é determinado: Geralt precisa provar que a responsabilidade de construir seu próprio futuro recai apenas em suas mãos. Spakowski utiliza dois elementos distintos do protagonista para trabalhar o assunto: o pessoal, identificado na paixão proibida que sente pela feiticeira Yennefer, e o profissional, representado pela tradição principal de sua seita, que recruta crianças predestinadas ao ofício.

Sua relação com Yennefer é definida na primeira parte do livro. Já no conto inicial, por exemplo, um dos personagens afirma: “O que vou dizer está estampando em seus rostos, de forma que nem preciso me esforçar para ler suas mentes. Vocês foram feitos um para o outro. Só que nada acontecerá. Nada. Sinto muito”. O principal antagonista da história de Geralt, portanto, não são os monstros que combate ou a sociedade que o despreza, mas o destino. Os personagens que encontra e as situações que enfrenta são carregadas de um fatalismo que o incomoda profundamente. Geralt teme o destino, como todos os supersticiosos de um universo medieval, mas deseja enfrentá-lo e garantir a todo custo que não será influenciado por ele.

O bruxo sabe que ir de encontro ao destino é enfrentar o conformismo e a inércia inerente ao mesmo, um feito muito mais complicado que decapitar mandrágoras e eliminar lobisomens. Todavia, não vê outra escolha senão lutar.

Os temas dos contos, basicamente expostos em seus títulos, representam vão representando e delineando vários elementos desse confronto. O primeiro, O limite do possível, é uma sarcástica aventura em que Geralt se une a um eclético grupo de caçadores que pretende matar um dragão por um jovem rei. O tom de ironia é forte e o humor é abundante: quando, por exemplo, um personagem diz para um guarda que ele merece ser promovido por não aceitar o suborno inicialmente oferecido, sua honestidade sendo certamente reconhecida e recompensada pela sociedade, o narrador brinca, afirmando que o guarda tinha futuro profissional justamente por ter, no fim, aceitado um suborno maior. A história é desenvolvida pela interação entre os membros do grupo de caçadores, com os vários estereótipos de fantasia medieval – mercenários sem escrúpulos, paladinos honrados, druidas sensatos – sendo explorados de forma satírica, discorrendo sobre sua visão de mundo e em particular sobre o que eles consideram ser possível ou não naquela jornada. Como modificar o próprio destino é uma ação, por definição, impossível, torna-se interessante observar a forma apropriada com que Geralt e Yennefer agem ao se deparar com situações cada vez mais bizarras, agarrando-se à existência delas, esperançosos.

O conto seguinte, porém, faz um contraponto ao tema anterior, reforçando a implacabilidade do antagonista do bruxo. Um fragmento de gelo desenvolve o relacionamento amoroso que ele mantém com Yennefer, colocando-o a prova quando o protagonista depara-se com um poderoso feiticeiro amante dela. Spakowski é hábil na construção narrativa, preparando com eficiência o terreno para um provável duelo entre os dois homens: são estabelecidas a opinião que cada parte tem da outra e a natureza hostil da relação que mantém entre si. Mas o essencial para o conto funcionar é fato do autor ter resistido a tentação de tornar o feiticeiro um personagem repugnante. Como Spakowski, pelo contrário, apresenta um sujeito honesto e íntegro que pode ser visto até mesmo como uma pessoa melhor que o bruxo, a tensão do leitor aumenta na preparação do confronto por acabar torcendo pelos dois combatentes. Além disso, a grande sensação de impotência presente no clímax é impactante por também caracterizar o dilema principal de A Espada do Destino.

As duas histórias seguintes são O fogo eterno e Um pequeno sacrifício. A primeira preocupa-se mais em desenvolver o protagonista do que o tema do livro, apesar de ser um pouco redundante. Em O fogo eterno, Geralt encontra-se perseguindo um doppelganger que assumiu a forma de um comerciante e contraiu inúmeras dívidas, apesar de ter realizado ótimos negócios. O comerciante verdadeiro, antes que a guarda da cidade realizasse a coleta com ele, confiscando todos seus bens e colocando-o na cadeia, contrata o bruxo para capturar a criatura. A grande questão do conto é o código de honra de Geralt, que não o permite matar monstros sencientes. Tal recusa é de fato bem explorada por Spakowski, principalmente no momento em que o doppelganger assume a forma do bruxo e os diálogos revelam que essa moral advém da visão que ele tem de si próprio. Contudo, tal questão já tinha sido explorada suficientemente bem no primeiro conto do livro – visto que Geralt também se nega prontamente a matar o dragão e discorre sobre sua razões – possibilitando que os detalhes expostos em O fogo eterno fossem mantidos apenas na sugestão sem qualquer prejuízo narrativo.

Um pequeno sacrifício, por outro lado, trabalha com a história de A Pequena Sereia, mostrando-se um capítulo essencial para se compreender a mensagem do livro. Dessa vez, Geralt é empregado por um príncipe para descobrir o que causou a morte de vários pescadores e coletores de concha. O uso de fábulas e contos de fadas é bem mais comedido em A Espada do Destino do que no volume anterior, uma vez que Spakowski – agora se baseando na obra de Hans Christian Andersen – os utiliza como analogias em vez de integrá-los à trama principal. Enquanto o bruxo procede com sua investigação a história de amor entre o príncipe e uma sereia é desenvolvida no plano de fundo, com cada parte exigindo que a outra se sacrifique em prol da relação – o príncipe querendo que ela torne-se humana, largando os mares, e a sereia desejando que ele transforme-se em um tritão, abrindo mão da coroa – com ambos se recusando terminantemente a ceder. A forma melancólica com que Geralt encara o problema, perguntando-se se seria capaz de agir diferentemente deles, adequa-se perfeitamente ao tom pessimista e sombrio da conclusão dessa história, em que seu amigo Jaskier reflete sobre o destino de uma trovadora que se interessou pelo bruxo durante a aventura.

O quinto conto, que empresta seu título ao livro, intensifica o foco na profissão de Geralt, quando ele se vê tendo que proteger uma pequena princesa que havia se perdido numa perigosa e proibida floresta, onde dríades abatem qualquer humano que avistam, independentemente de sua posição social ou idade. A luta contra o destino é discutida abertamente pelos personagens que minuciam o tema e apontam a hipocrisia de um protagonista que manifesta sua revolta, mas ao mesmo tempo lamenta sua incapacidade de agir. Aqui seria simples para o autor julgar as ações de Geralt, classificando-as como boas ou más, mas ele segue caminho diverso, colocando-o quase sempre em situações onde suas escolhas definem seu caráter muito além do maniqueísmo comum: o ponto não é julgá-lo simplesmente como um personagem bom ou mau, mas dissecar seus conflitos e crenças.

Por fim, Algo mais conclui as reflexões suscitadas e volta a atenção para uma importante história do livro anterior, forçando Geralt a encarar o prospecto de que o destino possa também ter lhe reservado um presente e obrigando-o a questionar se realmente existia uma escolha entre aceitá-lo e recusá-lo.

Não obstante, ocorreram algumas mudanças narrativas positivas em A Espada do Destino quando comparado ao livro anterior. A organização similar a uma coletânea de contos permanece, mas os capítulos que serviam como uma irrelevante conexão entre cada um desaparecem em prol de uma narrativa cronológica. Tal mudança confere unidade e coesão à história de forma bem menos intrusiva que no primeiro volume. Além disso, a presença do trovador Jaskier em todos os contos também se mostra acertada, visto que ele insere um humor essencial para o livro não se tornar melancólico demais e, assim, permite que a ironia funcione sem obstáculos.

O escopo da aventura, por sua vez, continua pequeno. O autor prefere se focar no dilema de seu protagonista em vez de construir um universo rico e complexo. Essa decisão permanece sendo benéfica à história, uma vez que não a infla com personagens, eventos ou firulas desnecessárias.

O único problema de Spakowski reside na sua insistência em esfregar na cara do leitor o significado dos títulos, já bem óbvios, de seus contos. Naquele que abre o livro, por exemplo, diversos personagens usam a expressão “o limite do possível” dezenas de vezes, enquanto que no seguinte, Geralt e Yennefer refletem que a verdade é “um fragmento de gelo” num preocupante número de ocasiões. A repetição é excessiva, cansativa e, até certo ponto, ofensiva: será mesmo que Spakowski não acredita que o leitor seja capaz de compreender o significado depois do primeiro diálogo?

A Espada do Destino é um livro que constrói seu tema de forma eficaz, por intermédio de pequenas histórias que, juntas, compõem uma única luta contra o impossível. Geralt surge desde o início como uma figura trágica e sua jornada, se um tanto óbvia, mostra-se consideravelmente honesta e emocionante. O grande acerto de Andrzej Spakowski, porém, é evitar julgamentos moralistas, preferindo apresentar um personagem complexo, cujos tropeços tornam-no ainda mais fascinante.

por Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo.

17 de Maio de 2015.


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Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo


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