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A história da sua vida e outros contos.

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Posted 04/07/2017 by in F. Científica

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4/ 5

Sumário

Genero:
 
Autor:
 
Editora:
 
Idioma Original:
 
Título: A história da sua vida e outros contos.
 
Título Original: Stories of your life and others.
 
Tradução: Edmundo Barreiros.
 
Edição: 2016.
 
Páginas: 368.
 
Capa: Shelley Eshkar.
 
Resumo:

Embora seja prejudicado por um ou outro conto problemático, o livro escrito por Ted Chiang fascina pela complexidade e variedade de suas ideias

by Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo
Full Article

História da sua vida e outros contos é um livro paradoxal: se, de um lado, suas histórias trazem uma terminologia rebuscada frequente o suficiente para fazê-lo aderir ao gênero “hard science fiction”, por outro, o foco delas nunca é a tecnologia em si, mas o ser humano. Dessa forma, embora seja prejudicado por um ou outro conto problemático, o livro escrito por Ted Chiang fascina pela complexidade e variedade de suas ideias.

A coletânea começa com um dos seus contos mais fracos. A Torre da Babilônia transcorre na antiguidade: o cenário é a construção da famosa Torre de Babel e o protagonista é um homem com a função de escavar a abóboda do céu. Chiang estabelece a magnitude do feito por intermédio da escala dos acontecimentos: para subir até o topo da torre, por exemplo, o protagonista demora quatro meses. O conto diverte com seus elementos fantásticos – a abóboda do céu de fato é escavada, formando túneis –, mas o protagonista é raso demais para prender a atenção do leitor. Já sua reviravolta final desperta algumas questões filosóficas e teológicas, questionando a utilidade de conhecer o divino, a natureza do mesmo e as falhas da perspectiva humana, mas tais questões são suscitadas tardes demais na narrativa para surtirem algum efeito. 

Em Entenda, o protagonista toma uma droga especial que o torna mais inteligente a cada dose. A premissa lembra filmes como Sem Limites e Lucy, mas a história é superior a de ambos e já acerta por não fazer ninguém se transformar em um pen-drive. O conto até descamba para o absurdo em seu clímax, mas este é salvo pela criatividade de seu duelo final, em que os dois oponentes mal se movem, se atacando e contra-atacando com feromônios, insinuações corporais e gatilhos psicológicos. 

No entanto, o que torna a história superior a dos filmes são as discussões que protagonista e antagonista travam no final: enquanto este deseja usar seu conhecimento elevado para ajudar a humanidade, o protagonista enxerga na estética seu único objetivo. Cria-se um conflito entre empatia e a beleza como um fim em si mesmo, com o apreço pela segunda dificultando o desenvolvimento da primeira – ideia que é retomada e melhor desenvolvida no último conto dessa coletânea.

Divisão por Zero, por sua vez, é uma sensível história sobre depressão que é construída  por paralelos inusitados. Sua estrutura alterna entre três pontos de vista: o primeiro é impessoal e ensina alguns conceitos de matemática. O segundo acompanha uma matemática chamada Renee, que tem seu quadro depressivo piorado quando sua teoria põe a credibilidade da própria aritmética em xeque. E o terceiro é de seu marido, que sente orgulho de ajudar pessoas depressivas por ele próprio ter a doença, mas agora se vê perdido com o caso de sua mulher, cujos gatilhos para as crises partem de conceitos e teorias que vão além de sua compreensão.

A pergunta suscitada pelo conto é se a empatia pode existir com a incompreensão, se é impossível respeitar o que outro está sentindo enquanto não se entende a lógica desse sentimento, seja por ignorância ou preconceito: um problema cotidiano que qualquer pessoa que sofre de depressão e doenças similares já se deparou ao tentar explicar sua condição para outras pessoas. O brilhantismo do conto, porém, reside na forma com que mescla sua estrutura com a problematização em torno da teoria de Renee para tentar arranjar uma solução para essa questão.

A história da sua vida é o conto que originou o filme A chegada e é importante apontar que algumas características da reviravolta do filme são expostas já no início da história, a leitura dessa análise não sendo recomendada  para aqueles que desejam evitar spoilers do longa.

Em A história da sua vida,  Chiang expande o escopo da estrutura do conto anterior. A narrativa novamente é dividida entre o elemento humano e as explicações científicas, mas dessa vez a conexão entre as duas partes é ainda mais intrincada, pois, além de simbólica, também é causal.

Na trama, uma linguista é chamada pelo governo para tentar entender as mensagens que alienígenas estão enviando para a Terra. Uma parte do conto, narrado em primeira pessoa, trata das dificuldades da protagonista em estabelecer os princípios que regem a língua alienígena, enquanto a outra parte é constituída pelas memórias da personagem sobre sua filha.

Os trechos que narram o contato com as criaturas chamadas heptapodes fascinam por discutir em detalhes conceitos tanto matemáticos quanto linguísticos. Como em todo bom hard science fiction, esses princípios (Fermat e Sapir-Whorf, principalmente) não só informam o leitor como também movimentam a trama e constituem a base da narrativa. Além disso, Chiang não se esquece de inserir breves de momento de humor para não deixar a história intragável para os leigos: “Interpretação otimista: o alienígena estava confirmando minhas expressões como corretas, o que implicava em compatibilidade entre os padrões de discurso humano e heptapode. Interpretação Pessimista: ele estava com uma tosse persistente”.

No entanto, é a parte sobre as memórias da linguista o trunfo do conto. Variando entre cenas doces, cotidianas e aquelas cheias de ressentimento e brigas, elas despertam a curiosidade do leitor por dois motivos: o primeiro é sua mescla aparentemente confusa de tempos verbais, uma vez que, desde o início, a personagem parece estar se lembrando de eventos futuros (“Lembro-me de uma conversa que teremos quando você estiver no penúltimo ano do ensino médio”), e o segundo é o onipresente tom melancólico da voz da linguista, que permeia até a narração dos momentos mais felizes com a filha. Quando o leitor eventualmente entende a razão desses pontos, a ciência e o caráter humano da história se unem, deixando a história comovente e repleta de pathos.

Setenta e dois nomes é um conto peculiar que apresenta um cenário vitoriano com fortes traços steampunk. Nesse mundo, nomes são sempre atos performativos, chegando a ter o poder de mudar características de materiais e, até mesmo, de dar vida a autômatos. Novamente, o autor dobra conceitos científicos para explicar os elementos fantásticos de seu universo: aqui, por exemplo, a lei da termodinâmica é usada para explicar o funcionamento de Golems.

Na trama, um jovem chamado Robert tem seu trabalho de nomenclatura reconhecido por um nobre excêntrico que oferece pagar muito por seus serviços se Robert conseguir aplicar os efeitos de seus nomes de autômatos em fetos humanos.

Trata-se de uma história que sofre bastante em ser prolixa na hora de explicar sua ciência particular, mas que eventualmente funciona ao tratar de métodos artificiais de natalidade, caindo em discussões sobre determinismo genético, supremacia racial e, inevitavelmente, discursos de extrema direita.

A melhor troca de diálogos do conto é quando o príncipe expõe o problema de pessoas pobres se reproduzirem muito, gerando muitas crianças fadadas à miséria e a ignorância. Sua solução é impedir que elas se reproduzam, o que leva Robert, inocente, a perguntar algo como “E se, em vez disso, melhorarmos a condição de vida delas?”.

A evolução da ciência humana é um breve conto que explora as motivações para pesquisas tecnológicas e o avanço da ciência humana. Assumindo o inusitado e dificílimo formato de um editorial de uma revista científica (como formar uma narrativa com isso?), o conto traz um universo futurista marcado pela separação entre humanos e meta-humanos  que, mais inteligentes e hábeis, formam uma cultura científica anos luz à frente dos humanos. A inteligência dos meta-humanos, porém, é intrínseca a sua limitação na linguagem, que assume forma própria para expor suas ideias. A história, porém, apesar de trazer um universo com características fascinantes, é curta demais para explorá-las devidamente.

Voltando a tocar em questões teológicas, O inferno é a ausência de Deus se destaca por desenvolvê-las de forma bem mais complexa e provocativa que A Torre da Babilônia.

O universo do conto pega algumas características da crença cristã e as torna realidade. Deus, por exemplo, existe, ama a todos, reside em todas as coisas e faz sua vontade expressa na aparição frequente de anjos. Além disso, milagres acontecem e são expressão de Sua bondade e o sofrimento é uma forma reconhecida de se alcançar a salvação e conhecer o trabalho Dele.

O protagonista, Neil, é um homem cujo drama envolve a morte de sua mulher durante a aparição de um anjo. Neil não é apresentado como um homem cético – afinal, Deus existe, não há no que se acreditar, ele está lá –, mas como um que nunca se preocupou em amá-Lo: o personagem simplesmente não é devoto. No entanto, a alma de sua mulher foi para o céu e a única forma de reencontrá-la é amando Deus acima de todas as coisas. Ou seja, justamente se tornando devoto. Contudo, se Neil não O amava antes, como o fazer agora que sua mulher foi morta por causa Dele?

Além de Neil, a história acompanha outros dois personagens cujas histórias eventualmente cruzam com a dele: a devota Janice, que, sem pernas por causa de Deus, ainda assim sempre pregou a bondade Dele em grupos de apoio, mas agora tem sua autoridade fragilizada quando, por um milagre, ela consegue as pernas de volta, e o frustrado Ethan, que, mesmo sempre amando a Deus profundamente, sente-se renegado por nunca ter presenciado uma aparição angelical.

A história é estruturada de forma a trazer à tona diversos questionamentos universais e, com isso, tentar auferir o quanto a religião consegue resolvê-los, seja por meio de respostas, seja por oferecer conforto diante da ausência das mesmas.

O arco narrativo de Neil, por exemplo, toca nas mais profundas dores de um ser humano: a de perder um parceiro. A religião de seu universo, no entanto, parece mais eficiente em oprimi-lo do que auxiliá-lo em seu luto, uma vez que além de Neil não poder responsabilizar o culpado pelo ocorrido, ele ainda se vê impelido por todos a amá-Lo sob a pena de não ir para o céu. Assim, na visão de Neil, tornar-se devoto seria como ceder à chantagem de um sequestrador que mantém a alma de sua mulher como refém.

É verdade que conto traz alguns traços satíricos em sua narrativa, principalmente em elementos humorísticos de sua construção de mundo (há, por exemplo, “grupos de apoio dedicados àqueles que haviam perdido um ente querido durante uma aparição e estavam com raiva de Deus por causa disso”), que podem sugerir que uma posição contrária a religiões está sendo estabelecida na história. No entanto, o conto funciona muito mais como um debate do que com um ataque. O que Neil e os outros personagens fazem é colocar em pauta o que eles acreditam serem contradições das premissas de sua religião. Como esses elementos teológicos são mais palpáveis no universo de Neil do que no nosso, pula-se a fase do “se” e parte-se logo para análise das consequências das premissas religiosas.

Sim, o protagonista enxerga sua religião como masoquismo espiritual em diversos instantes e o sadismo presente na reviravolta final reforça a crítica, mas a conclusão do conto, que termina com a frase  “Essa é a natureza da verdadeira devoção”, é acertadamente deixada em aberto, levando o leitor a complementá-la com sua própria perspectiva sobre o assunto.

O último conto da coletânea é de qualidade similar, também oferecendo um espaço para reflexão de ideias. Em Gostando do que vê: um documentário, Chiang traz um universo em que é possível, por meio de uma cirurgia, inibir o julgamento estético de rostos: continua sendo possível reconhecer qualquer traço deles, mas fica impossível afirmar se são bonitos ou feios.

A história segue os preparativos para uma votação em uma universidade, cuja parte do corpo estudantil quer tornar obrigatória essa cirurgia. Simulando o formato de um documentário, trazendo vários depoimentos tanto de alunos quanto de pesquisadores da área, sociólogos e professores da faculdade, o conto propõe uma discussão sobre os valores e as consequências negativas da estética.

Os argumentos começam em nível geral, com os favoráveis pregando a eliminação do preconceito e da opressão social quanto ao próprio corpo, enquanto o restante critica a obrigatoriedade da cirurgia, afirmando que “a turma do politicamente correto” está, ironicamente, oprimindo aqueles que se beneficiam de sua beleza facial e reprimindo aqueles que gostam de ver rostos bonitos. Todavia, a discussão logo extrapola para diversas outras áreas, como a influência no marketing de produtos, e, ainda mais importante, deixam de ser unidimensionais: uma das pessoas contrárias à cirurgia, por exemplo, defende que “Maturidade significa ver as diferenças, mas perceber que elas não importam. Não há atalho tecnológico para isso”.

Trazendo uma protagonista cujo arco narrativo complementa as discussões suscitadas, – uma garota que cresceu sob os efeitos da cirurgia, mas decidiu revertê-los quando atingiu a maioridade legal –, o conto fecha a coletânea com chave de ouro.

A história de sua vida e outros contos oferece várias perspectivas para o leitor refletir sobre sua posição no mundo e sobre algumas características que regem o mesmo. Apesar de conter explicações científicas exacerbadas, o foco permanece sempre no ser humano, com objetivo de tentar descobrir o que move suas dores e anseios e o que o faz ser o que é.

por Rodrigo Lopes C. O. de  Azevedo.

07 de abril de 2017.


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Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo


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