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A Passagem.

2
Posted 08/11/2016 by in Terror

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Nota:
 
 
 
 
 

2/ 5

Sumário

Genero:
 
 
Editora:
 
Idioma Original:
 
Título Original: The Passage.
 
Tradução: Ivanir Calado.
 
Edição: 2010.
 
Páginas: 815.
 
Capa: David et Myrtille / Trevillion Images,
 
Resumo:

A Passagem configura-se um livro altamente problemático, cuja história é arruinada por um prólogo desnecessário e extenso, que revela muito mais do que deveria, estragando a maior parte das surpresas que aguardam o leitor. Quem dera existisse um aviso na capa, alertando-o a pular as primeiras 240 páginas: ele encontraria uma história, se ainda com sua parcela de defeitos, muito mais interessante.

by Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo
Full Article

Existem livros que sofrem por serem pequenos demais, não dando espaço para suas ideias e personagens se desenvolverem. E há aqueles que são o oposto, com suas intermináveis páginas dispondo da única função de esticar o máximo possível a história até entediar o leitor. A Passagem, romance de Justin Cronin, certamente adere aos títulos do segundo grupo, enchendo o leitor constantemente com dados repetidos ou inúteis. Todavia, esse excesso de exposição também constitui a origem de um problema ainda mais fundamental na narrativa: ele entrega informações demais ao leitor, arruinando tanto os mistérios quanto o suspense do livro.

A trama de A Passagem é situada em um universo pós-apocalíptico onde um vírus dizimou boa parte da população e transformou quase todos os que sobraram em criaturas sedentas de sangue. Em um refúgio nas montanhas da Califórnia, protegido por enormes muros e holofotes, um grupo de sobreviventes forma uma nova sociedade, com suas próprias leis, profissões e costumes. A rotina da colônia, porém, é abalada quando uma menina desconhecida é subitamente encontrada do lado de fora dos portões.

Cronin estabelece o universo do livro sem pressa alguma, apresentando o leitor às características daquele grupo com uma narrativa inicialmente epistolar – baseada em cartas e e-mails –, descrevendo em detalhes como aquele refúgio foi formado e quais são as regras que o regem. Como a maior parte dessas correspondências não é endereçada a ninguém em particular, o leitor assume o papel do destinatário, como se aqueles personagens estivessem conversando diretamente com ele.

No entanto, Cronin tende ao excesso em sua narrativa, explicando em trinta páginas o que poderia, sem prejuízo qualquer, ser resumido em apenas uma linha. O leitor, por exemplo, já aprenderia, devido às ações de um dos personagens, que a penalidade maior daquela sociedade é ser jogado do lado de fora dos muros, mas Cronin faz questão de posicionar antes na narrativa essa norma exposta na íntegra, ocupando diversas páginas, e estragando o que poderia ser uma revelação interessante. Com isso, ele retira do leitor o prazer da descoberta das características daquele mundo – uma falha grave e recorrente do livro.

Não que o refúgio e seus habitantes não sejam fascinantes. A presença de um abrigo especial para crianças, onde elas crescem até os oito anos sem poder sair e conhecer o lugar onde vivem – dessa forma sendo mantidas afastadas da existência de todos os horrores que acometeram a humanidade – é excelente em refletir uma das principais características daquelas pessoas, que se agarram a qualquer chance de fingir que nada aconteceu e que tudo está bem: uma rotina essencial para que tenham alguma esperança de que irão continuar sobrevivendo ali.

Na colônia, eles sofrem ataques das criaturas – basicamente vampiros bestiais – quase todas as noites e precisam usar holofotes para afugentá-las ou bestas para atingir seu único ponto fraco na região do coração. A ferocidade dos monstros, que têm grande agilidade e força, é habilmente transmitida pelo autor quando faz os personagens se lembrarem de uma frase repetida diversas vezes durante seu treinamento: “Vocês só terão uma chance”.

Por esse motivo, esperança é um sentimento fundamental para entender as motivações de vários personagens do livro e é justamente esse o presente que a misteriosa garota, chamada Amy, traz para os habitantes do refúgio. A ideia de que existem outras pessoas do lado fora, de que a humanidade ainda resiste em algum lugar, inspira alguns indivíduos a lutar. O principal deles é Peter, um jovem cujo pai, responsável pela segurança da colônia, cavalgou para muito além dos limites conhecidos por eles, em busca de algum sobrevivente, e nunca mais voltou.

Consequentemente, Peter enxerga em Amy a prova de que seu pai não era insano. Seu irmão Theo, por outro lado, representa seu oposto, mostrando-se extremamente pessimista em relação às chances de seus colegas, especialmente a partir do momento em que lhe dizem que as baterias que mantém as luzes acesas durante a noite estão com os dias contados. Nesse primeiro ponto de virada, o autor insere urgência na narrativa, estabelecendo um prazo para que os personagens arranjem uma solução para as baterias, ao mesmo tempo em que constrói um conflito entre os irmãos para representar um dos principais temas da história.

A dinâmica entre os colonos é igualmente bem trabalhada. Cronin faz questão de elaborar diversas desavenças entre eles que, apesar de ajudar o leitor a identificá-los na história por traços característicos, não os definem por completo – impedindo, assim, que a maioria dos refugiados seja formada por personagens planos. Gale, por exemplo, poderia facilmente ter tido suas características pessoais limitadas aos ciúmes que sente de sua mulher, Maus. Contudo, o autor usa o ponto de vista do personagem para mostrar também sua coragem – ou tolice – em aceitar algumas missões mesmo sabendo que sua visão debilitada poderia levá-lo a morte, ao entender não haver mais ninguém hábil para a tarefa. O amor que ele sente por sua mulher, por sua vez, é essencial para torná-lo trágico, visto que seus ciúmes são justificados.

A parte inicial da história, formada pela rotina do refúgio, caminha gradativamente para um clímax por intermédio de estranhos sonhos que geram súbitas mudanças na personalidade de vários personagens. O autor é hábil em posicionar tais momentos na narrativa de forma que sua presença cresça com o desenrolar dos eventos, aumentando a tensão. Se no início o leitor acompanha surtos de violência por parte de determinados colonos, que logo depois se acalmam sem entender exatamente o que falaram ou fizeram, já no meio do primeiro ato ele segue o líder do refúgio se dirigindo inconscientemente para a usina de força e quase desligando a energia, enquanto repete o nome “Babcock”. Adicionando isso aos relatos de organização por parte das criaturas, que começam a se revelar muito mais inteligentes do que se acreditava, sendo capazes até de bolar estratégias de assalto e caça, a sensação de que os personagens principais estão correndo perigo ainda maior do que imaginam cresce paulatinamente na narrativa, prendendo a atenção do leitor.

Um feito e tanto, considerando que esse primeiro ato da história apenas começa por volta da página 240 do livro. Pois o início de A Passagem não trata de Peter, Theo ou qualquer outro colono: eles só surgem no que o autor chama de Parte IV. Não, elaborando uma estrutura narrativa absurda e profundamente problemática, Cronin faz seu prólogo contar, nos mínimos detalhes, como a epidemia foi deflagrada, revelar praticamente todos seus segredos e ainda durar muito, muito, muito mais do que deveria. O resultado, obviamente, não poderia ser menos que desastroso.

Antes de tudo, é importante conhecer o conceito de ironia dramática: é o momento em que o leitor tem mais conhecimento sobre determinada cena do que o personagem que participa dela. Ironia dramática pode gerar vários efeitos positivos em uma narrativa, principalmente em um suspense ao, por exemplo, revelar a localização de um assassino no cenário e descrever o protagonista ingenuamente se aproximando dele. Em A Passagem, em contrapartida, a ironia dramática gerada pelo extenso prólogo só prejudica a narrativa.

Em primeiro lugar, todos os mistérios da história são resolvidos antes dos mesmos serem suscitados. Os sonhos que os personagens da colônia começam a ter são os mesmos que os militares responsáveis pela instalação que guardava os vampiros apresentavam no prólogo – e sim, o fim da humanidade foi causado por um experimento científico malsucedido. Ou seja, o leitor já sabe que os vampiros são capazes de influenciar pessoas. Ele também já sabe que os vampiros são inteligentes e que apresentam certa consciência coletiva. Ele sabe praticamente o passado inteiro de Amy e porque ela conseguiu sobreviver fora do refúgio. Basicamente todas as descobertas feitas pelos personagens da Colônia ao longo do livro já são do conhecimento do leitor. O clímax final de A Passagem, por exemplo, é composto por Peter descobrindo que os primeiros vampiros foram um dia condenados à pena de morte e que serviram como cobaias pois a sociedade certamente não sentiria sua falta se algo desse errado: algo que não constitui spoiler pois o leitor já tem essa informação antes da página 50, além do fato de que ela se encontra na contracapa.

Em A Passagem, a ironia dramática não funciona nem para aumentar o suspense. O momento em que o líder do refúgio diz “Babcock” no meio da usina de força serve com um bom exemplo: o leitor já conhece esse nome como o pertencente ao mais violento dos condenados que se transformou, mas a violência do mesmo pouco importa uma vez que a criatura não está fisicamente lá. Por outro lado, é importante frisar o efeito negativo da ironia nessa cena: caso o prólogo não existisse, a compreensão de que os vampiros podem influenciar seres humanos à distância seria uma descoberta nesse momento e não uma mera repetição.

Além disso, como a duração do prólogo é enorme, Cronin acaba apresentando e desenvolvendo personagens que não servem propósito algum na história principal. O autor gasta páginas ora narrando a vida de um dos condenados, chamado Carter – que nunca mais volta a aparecer – ora o drama familiar do agente especial que sequestrou Amy, chamado Wolgast, ora as aspirações de uma guarda aleatório da instalação que prende os vampiros, chamado Gary, sabendo que seja pela passagem do tempo, doença ou ataque das criaturas, esses dois últimos estarão mortos quando a história do livro de fato começar: ela transcorre cem anos após a epidemia.

Não satisfeito, Cronin ainda elabora um segundo prólogo narrando como o refúgio foi construído e como as primeiras pessoas foram parar lá e – pasmem – uma espécie de interlúdio entre prólogos, acompanhado Wolgast cuidando de Amy em uma cabana nas montanhas, com direito a flashback dele conhecendo sua ex-mulher.

O intuito do autor com essa estrutura narrativa é possivelmente firmar a posição de Amy como protagonista – algo evidenciado na primeira sentença do livro (“Antes de se tornar a Garota de Lugar Nenhum – Aquela que Surgiu, A Primeira, Última e Única, a que viveu mil anos – ela era apenas uma menininha de Iowa chamada Amy”) – tornando-a o elo entre o prólogo e a história principal, além do motor das ações de Peter. Caso contrário, seria certamente o jovem que ocuparia o posto.

O que não traria qualquer prejuízo à narrativa, uma vez que a história do rapaz é muito bem trabalhada, refletindo, no fim, a jornada de seu pai. Já a de Amy é adequadamente similar ao drama das criaturas: Amy se diferencia dos outros personagens por passar o livro inteiro levemente perdida, tentando descobrir qual é sua função no mundo, enquanto Peter e os outros que a acompanham já têm seus objetivos definidos desde o início. Os vampiros – que Amy escuta e compartilha as dores – estão igualmente desnorteados, tentando lembrar quem foram um dia. Com isso, Cronin, estabelece uma ligação temática entre a menina e as criaturas, conseguindo a proeza de fazer o leitor ainda sentir empatia por elas, mesmo sendo descritas como bestiais. A cena em que Peter se defende de uma com uma frigideira, usando o reflexo dela para atordoá-la, é particularmente interessante nesse aspecto, por mostrá-la em transe, triste, encarando aquilo em que havia se transformado – ao mesmo tempo em que o autor subverte umas das características típicas de vampiros. Porém, Justin Cronin é Justin Cronin e sua tendência para o exagero contamina a narrativa inteira, como prova o trecho seguinte a essa cena, que revela o que Amy escuta as criaturas pensando em determinado momento: “quem sou seu quem sou eu quem sou eu quem sou eu quem sou eu quem sou eu quem sou eu quem sou eu quem sou eu quem sou eu quem sou quem sou eu quem sou eu quem sou eu quem sou eu quem sou eu quem sou eu quem sou eu quem sou eu quem sou eu quem sou eu quem sou eu quem sou eu quem sou eu quem sou quem sou eu quem sou eu quem sou eu quem sou eu quem sou eu quem sou eu”.

Outro exemplo em que o autor pesa a mão é nas referências religiosas, especialmente no final. Além de haver um maniqueísmo forte – enquanto é um cientista que causa o apocalipse, é uma freira virtuosa que tenta impedi-lo – muitas expressões típicas da bíblia são utilizadas quando Peter houve a explicação da epidemia, fazendo um paralelo com a Criação. Sem contar que o número de personagens que baseia suas ações na fé cresce exponencialmente, chegando ao ponto de um deles, sem qualquer razão, tratar uma cabana aleatória que encontra no deserto praticamente como se fosse a ilha de Lost, acreditando que ela é senciente, que quer o seu bem e que ainda fará de tudo para protegê-lo – e em nenhum momento o sujeito é tratado como louco.

No entanto, é visível que a história de A Passagem teria funcionado se não existisse o prólogo, pois a tensão cresce durante a narrativa, há pequenas pistas que não chamam atenção para si e mais tarde produzem efeitos inesperados – como a relação de um dos personagens com o pai –, o clímax final é apropriadamente construído – por usar o principal antagonista do livro –, e o livro ainda teria apresentado mistérios instigantes e revelações impactantes.

 Não é a toa que o segundo ato da jornada de Peter, o único livre das amarras do prólogo, surge como o mais fascinante. Quando ele parte com Amy e alguns de seus amigos em busca da instalação militar em que tudo começou, o grupo se depara com uma pequena e pacífica vila perto de Las Vegas sem qualquer proteção, embora seus habitantes não pareçam se preocupar com ataques noturnos. A comunidade constitui um dos únicos mistérios não arruinados pelo prólogo, o que faz o leitor prestar atenção nos afazeres daquelas pessoas e tentar deduzir suas intenções. A conclusão dessa parte também é satisfatória por amarrar as subtramas que até então estavam sendo elaboradas e estabelecer a identidade do principal antagonista da história.

Não obstante, ainda que o livro estivesse livre de seu prólogo, ele sofreria com alguns problemas. Cronin, por exemplo, tem uma péssima mania de ressuscitar personagens, o que, após um tempo, acaba dirimindo o suspense: o leitor inevitavelmente aprende que os mais importantes não estão correndo perigo de verdade. Além disso, a história contada é, apesar de bem construída, repleta de clichês, como o propósito da misteriosa vila perto de Las Vegas.

No fim, A Passagem configura-se um livro altamente problemático, cuja história é arruinada por um prólogo desnecessário e extenso, que revela muito mais do que deveria, estragando a maior parte das surpresas que aguardam o leitor. Quem dera existisse um aviso na capa, alertando-o a pular as primeiras 240 páginas: ele encontraria uma história, se ainda com sua parcela de defeitos, muito mais interessante.

por Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo.

11 de agosto de 2016.


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Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo


2 Comments


  1.  

    Sendo assim, se eu pular essas 240 páginas, poderei ler o livro tranquilamente?




  2.  
    Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo

    Como explicado, ele continua problemático, mas fica bem melhor =D





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