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A rainha do castelo de ar.

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Posted 11/25/2016 by in Suspense

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Nota:
 
 
 
 
 

3/ 5

Sumário

Genero:
 
Autor:
 
Editora:
 
Idioma Original:
 
Título: A rainha do castelo de ar.
 
Título Original: Luftslottett som sprängdes.
 
Tradução: Dorotheé de Bruchard.
 
Edição: 2011.
 
Páginas: 685.
 
Capa: Retina 78.
 
Resumo:

Tematicamente, A rainha do castelo de ar fecha de forma perfeita a trilogia. Narrativamente, entretanto, o livro comete vários erros similares a aqueles observados em A menina que brincava com fogo, mantendo-se anos-luz atrás do volume que iniciou a série.

by Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo
Full Article

A rainha do castelo de ar é uma eficiente, embora problemática, conclusão para a Trilogia Millenium, escrita pelo jornalista sueco Stieg Larsson e iniciada com o título Os homens que não amavam as mulheres. O livro reúne várias das melhores características do autor, sendo repleto de denúncias relativas à violência contra a mulher e de críticas ao preconceito da sociedade, mas também muitas de suas piores, como o excesso de tramas paralelas inúteis e diálogos altamente expositivos.

A história começa imediatamente após o fim do volume anterior, com a protagonista Lisbeth Salander sendo levada para o hospital depois de seu encontro com o criminoso Alexander Zalachenko, um espião russo foragido que buscou e conseguiu asilo na Suécia. Como o jornalista Mikael Blomkvist está ameaçando publicar a história de Zalachenko, alguns dirigentes da Sapo, o Serviço de Segurança Sueco, percebem o perigo que sua instituição está correndo e bolam um plano para controlar a situação.

Em A rainha do castelo de ar, Stieg Larsson abandona praticamente todos os elementos de uma história de detetive e policial – os gêneros dos volumes anteriores – e faz o livro assumir as características de um suspense de espionagem, seguindo o ponto de vista dos agentes da Sapo.

A mudança casa bem com o estilo jornalístico típico de Larsson, que não hesita em decompor minuciosamente a Sapo, revelando seus trâmites burocráticos, sua história após a Segunda Guerra Mundial, seus diversos departamentos e sua importância para a Suécia.

Larsson é um autor que se orgulha de seu conhecimento técnico, não se contentando, por exemplo, em dizer que Lisbeth e seus colegas hackers “não tiveram dificuldade” em rastrear certas ligações ou em invadir determinado computador. Ele faz questão de explicar em detalhes os métodos empregados, conferindo mais realismo às ações dos personagens, além de fazer as informações funcionarem como um alerta sobre a existência de algumas tecnologias, como pode ser observado no seguinte trecho: “Trinity e Bob the Dog utilizaram uma técnica chamada Random Frequency Tracking System, a RFTS. Era uma técnica conhecida, desenvolvida pela americana National Security Agency, a NSA, e integrada a um número indeterminado de satélites que vigiavam, de modo pontual, focos de crise particularmente interessantes e capitais que ocorriam no mundo todo”.

A narrativa em A rainha do castelo de ar divide-se em várias partes inicialmente. De um lado, o leitor acompanha as investigações sobre o paradeiro de Ronald Niedermann, braço direito de Zalachenko, que, ainda foragido, começa a deixar um rastro de sangue durante sua fuga pela Suécia. De outro, vê Mikael sendo perseguido por agentes secretos enquanto tenta produzir o material para sua revista. Enquanto isso, Lisbeth é internada em um quarto poucos metros de distância de seu maior inimigo e, ao mesmo tempo em que se sente ameaçada, pretende descobrir um jeito de matá-lo ainda no hospital.

O ódio entre Lisbeth e Zalachenko – ponto de suspense principal no início – é um elemento bem trabalhado pelo autor: tanto um quanto o outro personagem ficam refletindo como eles poderiam acabar com seu nêmesis usando os poucos recursos que têm a disposição, obviamente ignorando o estado crítico de saúde em que se encontram. Em determinado instante, por exemplo, o espião se esforça para caminhar vagarosamente até a frente do quarto de Salander só para observá-la por poucos segundos, quando, suado e sem energias, se vê obrigado a voltar para o seu próprio quarto para descansar. A tensão na cena é palpável: o leitor entende que, como nem uma dor insuportável é capaz de parar os personagens, o confronto físico entre eles, apesar das circunstâncias, é inevitável.

Larsson também acerta ao introduzir o ponto de vista dos agentes da Sapo logo no começo do livro. O autor toma cuidado para não vilanizar a instituição sueca, expondo que os personagens fazem parte de uma seção especial dentro dela, conhecida apenas por seus membros e batizada simplesmente de “Seção”. O enorme capítulo em que eles refletem sobre suas histórias e motivações é fundamental para a narrativa porque são eles e não Zalachenko e Niedermann os verdadeiros antagonistas. Além disso, seguir o ponto de vista do aposentado agente Gullberg se mostra imprescindível para o primeiro ponto de virada da história ser surpreendente e impactante: o autor contrapõe a natureza calculista e reflexiva do personagem com a violência de seu atos.

Em Os homens que não amavam as mulheres, Lisbeth Salader era o personagem feminino que Larsson usava para “dar o troco”, fazendo-a punir todos aqueles que ameaçavam e feriam mulheres. Aqui, ele transforma essa ideia na matriz da narrativa, colocando como vilões os personagens que a maltrataram durante sua vida inteira e fazendo o leitor acompanhar todo o processo de investigação que pretende castigá-los e levá-los à prisão.

Não há tons de cinza nos personagens do livro. Mikael Blomkvist, por exemplo, não têm qualquer desvio de caráter digno de nota; ele é íntegro ao extremo e o representante do jornalismo utópico. Já os agentes da Sapo são completos psicopatas que só sabem mentir, manipular e resolver seus problemas na base do assassinato. Larsson separa os personagens em três grupos facilmente identificáveis: os bons, os maus e os estúpidos – os primeiros sendo recompensados e os dois últimos sendo punidos severamente. A partir da metade do livro, o leitor já tem plena consciência de que os vilões não têm qualquer chance e se resigna a assistir ao longo abate proporcionado pelos bonzinhos.

O clímax, constituído por um julgamento em tribunal, é emblemático. Larsson faz questão de que a maioria das técnicas utilizadas pelos personagens para prender os vilões seja legal. Ele deseja fazer o sistema jurídico compensar Lisbeth por todos os maus-tratos que ela recebeu, mesmo que exagere um bocado em vários momentos: o próprio julgamento é digno do jogo de videogame Phoenix Wright, com direito a provas surpresas, reviravoltas intensas e testemunhas sendo presas.

Além disso, ele se constrói um grupo de personagens bons que não é predominantemente masculino, colocando a irmã de Mikael (uma advogada de direitos da mulher) para defender Lisbeth no tribunal, uma policial para descobrir o paradeiro de Niedermann e uma agente da Sapo fora da Seção para investigar a própria instituição. O autor enquadra todos os personagens femininos no lado dos bonzinhos, o que, apesar de forçado, não deixa de ser uma estratégia condizente com o tema da história.

Larsson, no entanto, falha em justificar a presença constante de alguns personagens. A trama inteira envolvendo a colega de Mikael, Erika Berger, é o melhor exemplo para ilustrar esse problema. Na história, Erika abandona a revista Millenium e vai trabalhar em um dos grandes jornais do país. Contudo, não demora muito até ela começar a receber diversos e-mails de uma fonte anônima contendo montagens sexuais que usam sua imagem, além de ataques diretos que a chamam de “puta” e “vadia”. Larsson usa a personagem para expor a questão do assédio no lugar de trabalho, discutindo o assunto com profundidade, jamais se esquecendo de apontar que a segurança particular que ela contrata para resolver o assunto é um privilégio resultante de sua confortável posição financeira – com isso, revelando uma perspectiva aterradora sobre o que acontece com aquelas que não desfrutam do mesmo patrimônio. Trata-se, sem dúvidas, de uma trama tematicamente relevante. Contudo, por ser completamente isolada da história principal, torna-se inconsequente e supérflua: se essa parte fosse cortada o leitor jamais perceberia sua falta.

Larsson tem um problema sério em contextualizar algumas de suas críticas. Ele perde um bom tempo reclamando de várias esferas da sociedade sueca – como a valorização absurda do mercado imobiliário – sem se preocupar em conectar esses pontos com a história principal. Dessa forma, ele enche seu livro de gordura desnecessária, com páginas e páginas discorrendo sobre temas que em nada influenciam a trama principal: “O que é mais ou menos uma novidade é que a construção civil está anos-luz atrás de todas as demais indústrias suecas quando se trata de concorrência e eficiência. Se a Volvo fabricasse automóveis do mesmo jeito, um carro último modelo estaria custando um ou dois milhões. Qualquer indústria normal só pensa em baixar os preços. Na construção civil é oposto. Eles não estão nem aí para os preços, o custo do metro quadrado aumenta o tempo todo e o Estado tem de oferecer subsídio com o dinheiro do contribuinte para que o negócio simplesmente não se inviabilize”.

É igualmente visível no trecho anterior o grau de exposição que costuma existir nos diálogos do livro. Larsson parece pouco se importar com sutileza: ele quer mais é que o leitor entenda direitinho o assunto que ele está criticando. Todavia, em diversas ocasiões tal exposição não é sequer contextualizada – naquele trecho, pelo menos, era um jornalista explicando sua matéria para o chefe –, resultando em diálogos pobres e forçados. Em determinado instante, por exemplo, o autor faz um policial explicar para outro como o próprio sistema legal deles funciona: “Isso poderia provocar nada menos que uma crise constitucional. Nos Estados Unidos, membros do governo podem ser convocados para um interrogatório diante de um tribunal comum. Na Suécia, têm que passar pela Comissão Constitucional”.

O autor também peca consideravelmente pela repetição, mesmo que em menor escala que em A menina que brincava com fogo. Há, por exemplo, uma cena em que Zalachenko recebe visitas no hospital, com um narrador onisciente descrevendo os eventos. Já no capítulo seguinte, o próprio vilão reflete sobre as mesmas visitas que recebeu, repetindo tudo. Ambos poderiam ter constituído o mesmo capítulo, mas Larsson os separa e alonga sem necessidade o livro. O mesmo ocorre com determinadas frases que mais parecem mantras de tanto que são repetidas pelos personagens: a que ganha o prêmio é certamente “Salander foi vítima de abusos judiciais seguidos desde os doze anos”.

A estupidez policial, tão abundante no livro anterior, também continua presente aqui. Os detetives Bublanski e Sonja, por exemplo, após discutir em detalhes o envolvimento de Zalachenko com o Serviço Secreto Sueco, refletem que alguém está por de trás dos panos atrapalhando as investigações, mas não conseguem imaginar quem é. Já um mal menor, inédito na trilogia, é o apreço injustificável do autor por comida, visto que ele frequentemente interrompe a narrativa para descrever seus personagens se alimentando: “Ela se serviu de meio copo de café preto e comeu um sanduíche de queijo e salada. Depois descascou uma laranja e chupou demoradamente seus gomos”.

Tematicamente, A rainha do castelo de ar fecha de forma perfeita a trilogia. Narrativamente, entretanto, o livro comete vários erros similares a aqueles observados em A menina que brincava com fogo, mantendo-se anos-luz atrás do volume que iniciou a série. Apesar disso, com a trilogia Millenium, Stieg Larsson construiu uma obra, ainda que com sua parcela de defeitos, muito relevante não somente para a sociedade sueca como também para o restante do mundo moderno.

por Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo.

25 de novembro de 2016.


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Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo


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