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As batalhas do castelo.

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Posted 05/09/2016 by in Infantojuvenil

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Nota:
 
 
 
 
 

4/ 5

Sumário

Genero: ,
 
Autor:
 
Editora:
 
Idioma Original:
 
Título: As batalhas do castelo.
 
Edição: 2013.
 
Páginas: 222.
 
Capa: Carlos Fonseca.
 
Resumo:

As batalhas do castelo é um livro construído a base de otimismo, principalmente em relação à natureza humana. Sua mensagem é simples: todos são capazes de ser representantes do melhor da humanidade, basta apenas prosseguir sem ser conivente com qualquer tipo de discurso de ódio.

by Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo
Full Article

As batalhas do castelo, romance infantojuvenil escrito por Domingos Pellegrini, conta uma história profundamente otimista, trazendo um protagonista que faz o possível para construir uma sociedade anárquica desprovida de qualquer tipo de injustiça. Belamente construído, o livro surpreende em suas pretensões de discutir a natureza humana, das religiões e dos modos de organização social, divertindo o leitor com suas alegorias, além de desafiá-lo com sua utopia.  

O protagonista da história é um bobo da corte que, após a morte de seu rei, recebe terras e o título de duque. Menosprezado pelos príncipes, ele é mandado para uma longínqua e infértil região, o Castelo do Canto, junto com todos aqueles que os nobres julgaram ser indivíduos improdutivos: mendigos, ladrões, pobres e aleijados. Ao chegar lá, entretanto, Bobuque (como decide ser chamado) estabelece uma anarquia onde todos são obrigados a contribuir para conseguir sobreviver.

O livro abre como um conto de fadas, substituindo o típico “Era uma vez…” por “Mais ou menos lá pelo meio da Idade Média…”.  A proposta de Pellegrini é utilizar um cenário turbulento, caracterizado por intolerância, guerra e peste para testar as ideias de companheirismo, trabalho e solidariedade de seu protagonista: como alguém cercado por fome e morte, por pessoas que pregam somente o ódio, pode ainda acreditar na capacidade da humanidade de fazer o bem?

Bobuque é a personificação do otimismo, com diálogos característicos como “Mas pior não pode ficar”. Consistente ao renegar seu título, o personagem convence em seus ideais, abominando qualquer tipo de privilégio e discriminação. Ele assume a função de um guru, um homem sábio e humilde capaz de oferecer lições e de ver sempre uma saída para os problemas independentemente da gravidade dos acontecimentos. Ele parte a pé para o Castelo do Canto apenas com velhos e crianças, manetas e pernetas, presos e aleijados,  músicos surdos e pintores cegos. Volta e meia o grupo olha para si mesmo e lamenta seu estado e destino, volta e meia Bobuque os anima, amarrando galhos em capim e fazendo vassouras, provando que é possível produzir a partir de pouco, que nenhuma limitação é absoluta. Bobuque surge praticamente como o Jesus da Idade Média.

O livro é estruturado de forma a testar as convicções do personagem. As batalhas que o Castelo do Canto enfrenta são, em sua maioria, ideológicas em vez de físicas. Como conter a o ódio das pessoas? Como fazer um mendigo não ficar ressentido da sociedade ou um inocente que foi preso não temer a justiça? As lições de Bobuque convencem aqueles que as presenciam, pois partem do princípio que o ser humano é naturalmente bom: que foi o tratamento reservado a eles pela sociedade que os corrompeu, levando-os à miséria ou ao crime. O protagonista promete, portanto, que no Castelo do Canto será diferente.

Pellegrini não se acovarda diante do tema proposto, utilizando sua história como uma alegoria para a apresentação de uma sociedade ideal: uma utopia baseada mais no espírito das pessoas do que em sua forma de organização. No Castelo do Canto, não há líderes e todos trabalham para o bem de todos. Trata-se, basicamente, de uma anarquia funcional.

Nesse ponto, o livro guarda semelhanças com um romance de José Saramago, Ensaio sobre a Lucidez, quase servindo como sua versão infantojuvenil.  Como Saramago, Pellegrini não dá nomes normais a seus personagens, que ora são chamados por suas profissões (o Poeta), ora por títulos (o Príncipe), ora por nomes de natureza mais poética (Fruta e Sábado, por exemplo). Essa ausência de nomes próprios usuais aponta para o caráter alegórico da história: os personagens não são pessoas, mas representações de uma ideia.

Como Saramago, Pellegrini também não perde oportunidades para criticar a Igreja Católica – ainda mais considerando a importância da instituição na época em que a história transcorre. Em determinada cena, por exemplo, membros do clero demonstram insatisfação com a doação excessiva de alimentos e roupas aos pobres pelo povo de Bobuque e um deles alerta o protagonista: “Não dê a eles o que não podem ter”.  Em outro capítulo, um padre expulso do Castelo do Canto tenta convencer um bispo a atacar o lugar, revelando que está mais preocupado com seu ego, em estabelecer seu poder e autoridade, do que em seguir os princípios de sua religião.

Os oponentes de Bobuque sempre questionam por qual razãp, com tanto frio e tanta miséria, seu povo ainda se diverte e ri. Eles são indivíduos, em grande parte, movidos por inveja e raiva: enquanto algumas pessoas não compreendem e, por isso mesmo, temem a felicidade no Castelo do Canto, outros já veem o sucesso da empreitada como uma ameaça à manutenção de seus privilégios. O autor não poupa críticas sociais em seu livro, inserindo-as nos conflitos da história e, principalmente, nos diálogos do protagonista (“Em todos os reinos onde estive, quanto mais escravo é o povo, mais são felizes os animais dos nobres”).

Pellegrini é hábil na construção do tom de sua história. As batalhas do castelo é um livro infantojuvenil, contendo um tom leve e passagem muitas vezes rimadas. O autor chega até a flertar com o fabulesco em certo instante, ao mostrar um animal falando, embora se trate apenas de uma piada que subverte as expectativas do leitor: “É verdade – repetia saltando em duas patas o cachorro de Bobuque, chamado Nominado e desde pequeno ensinado em artimanhas de ventríloquo“.

O autor também acerta na descrição dos cenários. O Castelo do Canto, por exemplo, é exposto como uma terra seca, deserta e montanhosa, habitada somente por cobras e lagartos – o que estabelece sua inospitalidade.  Mas, por outro lado, é um lugar envolto por histórias de terror fundamentalmente bobas (os personagens comentam sobre o fantasma de um ladrão de cavalos que faz apenas o pelo dos animais se arrepiar e sobre um esqueleto em armadura de cavaleiro que está a pescar pela eternidade) que revelam que os perigos que o lugar reserva não necessitam de muito para serem superados.

Já os personagens, embora nem de perto complexos, são corretamente desenvolvidos. Na seguinte passagem, por exemplo, Pellegrini aponta para o interesse romântico de cada membro de um grupo, enquanto expõe que um deles está, na verdade, mais interessado na vida fora do castelo, e ainda faz o leitor rir com a quebra do padrão: “o Poeta, que agora tinha fios brancos também nos cabelos, olhava Fruta com olhos de quem nada via além dela. Mas Fruta só olhava para Sábado; Flor era quem olhava para o poeta, e para Flor é que Sábado olhava, enquanto Primavera não tirava os olhos de Sexto, que olhava longe pela janela”.

O livro só peca em seus poemas, que se mostram consideravelmente simples e desprovidos justamente de carga poética.  Eles vão muito direto ao ponto e, apesar de conterem rimas, carecem de metáforas, sinestesias e outras figuras de linguagem que poderiam entregar a eles alguma sofisticação maior. Essa simplicidade acaba limitando as interpretações possíveis e oferecendo ideias muito pobres em forma, como pode ser observado naquele que fecha o primeiro capítulo:

A vida é boa se a gente

em vez de coçar ferida

reclama menos da vida

e então a vida nos ama

e a viver alegremente

o coração nos convida

As batalhas do castelo é um livro construído a base de otimismo, principalmente em relação à natureza humana. Sua mensagem é simples: todos são capazes de representar o que há de melhor na humanidade, bastando apenas prosseguir sem ser conivente com qualquer tipo de discurso de ódio.

por Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo.

09 de maio de 2016.


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Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo


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