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Bioshock: Rapture.

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Posted 07/11/2016 by in F. Científica

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Nota:
 
 
 
 
 

2/ 5

Sumário

Genero:
 
Autor:
 
Editora:
 
Idioma Original:
 
Título: Bioshock: Rapture.
 
Título Original: Bioshock: Rapture.
 
Tradução: Caio Pereira.
 
Edição: 2013.
 
Páginas: 405.
 
Capa: Craig Mullins.
 
Resumo:

Bioshock: Rapture é um romance consideravelmente redundante, não oferecendo nada para os fãs e pouquíssimo para aqueles que estão conhecendo esse universo pela primeira vez.

by Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo
Full Article

Bioshock: Rapture, escrito por John Shirley, é um romance de ficção científica inspirado no jogo de videogame Bioshock que se propõe a contar uma história complementar à original. Seu foco é o cenário do jogo, a cidade subaquática de Rapture, e a filosofia por detrás dela. Todavia, além de oferecer pouquíssimos conflitos, informações e personagens novos, o autor também deixa de desenvolvê-los adequadamente, tornando seu livro simplesmente enfadonho no processo.

A história segue inicialmente dois personagens: o encanador Bill Mcdonagh e o golpista Frank Gorland. Mcdonagh, cujo sonho de vida é tornar-se engenheiro, um dia recebe a oferta de um excêntrico magnata, para o qual foi consertar a tubulação do banheiro. O encanador tem seu valor reconhecido, sendo colocado como um dos responsáveis pela manutenção das fundações da cidade no fundo do mar, para onde parte imediatamente com sua família. Já Gorland enxerga na propaganda de Rapture (que encontra no livre comércio seu dogma basilar) uma perfeita oportunidade de negócios.

Ao apresentar os dois personagens, Shirley estabelece visões opostas funcionando dentro do mesmo cenário: a de um trabalhador sério e honesto e a de um aproveitador que não perde uma oportunidade para explorar o próximo. O autor trata Mcdonagh e Gorland como ratos em um experimento: põe os dois em uma sociedade com regulamentação mínima, que preza pela livre concorrência, para observar quem se torna mais bem sucedido no final.

O universo do livro é fascinante: uma sociedade isolada no fundo do oceano que tem como princípio a crença de que a humanidade, quando não regulada e limitada pelo Estado, prospera. No entanto, a cidade apresentada no jogo é um cenário típico de uma história de terror, onde as pessoas perderam qualquer traço de civilidade, transformando-se em criaturas animalescas que agem somente com instinto de sobrevivência. Assim, a tese que o fracasso de Rapture representa é clara: os seres humanos, quando não controlados, matam uns aos outros.

Dessa forma, é importante notar o papel da tecnologia na construção desse universo. Andrew Ryan, o fundador da cidade, acredita que a ciência é limitada pela moralidade e remove esta dos valores que governam sua sociedade: em Rapture, cientistas podem fazer as experiências que quiserem, sem medo de retaliação. A tecnologia, consequentemente, avança absurdamente ao ponto de enquadrar o cenário no campo da ficção científica. No entanto, a visão pessimista que atravessa a história enxerga no avanço científico um estímulo ao suicídio da humanidade: se as pessoas já apresentam uma forte tendência à violência, a tecnologia só facilita que ela seja efetuada. No livro, os seres humanos são descritos como indivíduos ao ponto de ebulição, faltando apenas um empurrão para que o caos reine.

Portanto, não é difícil imaginar qual dos dois personagens principais Shirley já põe como vencedor logo no início. McDonagh não tem qualquer chance com sua honestidade, sendo rapidamente engolido pela hostilidade daquele universo. Já Gorland lucra com a violência, a qual ele ainda estimula para aumentar seus ganhos. Todavia, se Gorland é visto como um sobrevivente, também é tratado como o vilão da história: é por pessoas como ele, que só visam o poder e o lucro, que Rapture cai em desgraça.

Trata-se de uma proposta interessante, mas que Shirley, infelizmente, não consegue aproveitar. Todas essas ideias são desperdiçadas, uma vez que o autor revela-se incapaz de apresentar qualquer resquício de originalidade ou de desenvolver seus personagens de forma coerente.

É compreensível que o autor reutilize alguns dos personagens e cenas do jogo. Porém, mesmo se tratando de um prólogo, Shirley consegue a proeza de copiar até mesmo diálogos. Em Bioshock, o jogador encontra gravações de diários que servem para pintar como Rapture era antes de sua queda. O que o leitor encontra no livro é justamente as cenas em que os mesmos personagens gravam essas mesmas reflexões e confissões.

As tentativas de mostrar a origem de certas características da cidade também são absurdamente redundantes. As explicações são rasas e, em sua maioria, inconsequentes. Por que Ryan colocou a musica La Mer no farol de entrada a Rapture? Porque achou pertinente. Por que mandou fixar a faixa NEM DEUSES NEM REIS. SOMENTE HOMENS no mesmo farol? Porque achou quer seria uma boa ideia e daria “voz” à estátua que a seguraria. Shirley pega questões óbvias e oferece respostas tão pobres, tão desnecessárias, tão bestas, que geram somente suspiros de cansaço no leitor.

Não somente isso, como a prosa do autor também é bem precária. Em uma estratégia contrária ao tom sombrio e pesado do livro, Shirley utiliza comparações e metáforas envolvendo água que, por servir apenas para fazer referência à localização de Rapture, acabam levando o leitor ao riso em vez da reflexão: “Bill McDonagh subia no elevador para o alto da Torre Andrew Ryan, mas sentia-se como se estivesse afundando no oceano”, “Vou mergulhar de cabeça até o fim, sr. Ryan”.

Os diálogos são ainda piores. Muitos, por exemplo, sofrem da mesma redundância do restante da narrativa, como o “Bêbados!” que Ryan resmunga após observar um grupo de jovens… bêbados. Outros são simplesmente estúpidos: um cientista, por exemplo, chega a dizer ter inventado uma arma que “projeta frio”, cometendo um erro básico do qual nem alunos do ensino médio são capazes. Sem contar as diversas frases de efeito bobas, como a que encerra um capítulo com um personagem perguntando: “O que poderia dar errado?”. Sem dúvidas, a narrativa.

A falta de sutileza nas descrições dos personagens é tamanha que até  Mcdonagh  decide resumir a própria personalidade em certo momento: “Sou totalmente leal. Assim é Mcdonagh, nu e cru”. No entanto, não há personagem mais mal caracterizado que Andrew Ryan, o que constitui um problema grave, uma vez que é ele o centro ideológico da história, mostrando-se sempre presente nela de uma forma ou de outra: não é por acaso, por exemplo, que seu nome é repetido mais de novecentas vezes durante a narrativa.

É com sua fala que o livro abre:

“Eu sou Andrew Ryan e estou aqui para lhe fazer uma pergunta: o homem não merece aquilo que conquista com seu próprio suor? ‘Não’, diz o homem de Washington, ‘quem merece são os pobres’. ‘Não’, diz o homem do Vaticano, ‘quem merece é Deus. ‘Não’, diz o homem em Moscou, ‘quem merece são todos’. Eu rejetei essas respostas. Pelo contrário, escolho outra coisa. Escolho o impossível. Escolho… Rapture. Uma cidade onde o artista não temeria a censura. Onde o cientista não seria limitado por mera moralidade. Onde o grandioso não seria restringido pelo ínfimo. E, com seu próprio suor, Rapture pode se tornar a sua cidade também”.

Não é difícil perceber que o discurso acima tem propósito propagandista. Seu tom exaltado e afetado funciona em seduzir o público e em fazê-lo compartilhar o sonho do personagem. Shirley, entretanto, em vez de perceber que, no jogo, essas características são encontradas nas gravações e nos cartazes de Ryan porque esses objetos têm o propósito de vender a ideia da cidade, aplica-as diretamente no próprio personagem. Em outras palavras, em vez do leitor encontrar no livro um personagem multifacetado, depara-se com uma caricatura que se resume a falar como sua propaganda: “Olhe para ela, avultando-se como num clímax orquestrado! Rapture é um milagre, Bill. O único tipo de milagre que importa! O tipo que um homem de verdade cria com suas próprias mãos”.

Além disso, o autor também consegue se contradizer com a descrição e apresentação de Ryan. É repetido algumas vezes, por exemplo, que ele escolhe a dedo quem convida para Rapture. Todavia, há uma cena em que o personagem surge entrevistando uma pesquisadora sem ter, ao menos, conhecimento sobre o tema de sua tese.

A tradução, realizada por Caio Pereira, ainda completa o processo de descaracterização de Ryan. Em determinado momento no original, por exemplo, o personagem percebe que sua mulher está lhe escondendo algo, mas decide fazer nada a respeito. Na tradução, entretanto, é removida a frase que aponta que ele nota o fato. Enquanto no original Ryan é sagaz, mas conivente, na versão brasileira ele é simplesmente ingênuo. 

O trabalho de tradução, aliás, apresenta vários problemas. De um lado, os traços de vulgaridade na linguagem são constantemente cortados (“It’s fucking amazing” vira “É incrível demais”). De outro, alguns termos são traduzidos de forma incrivelmente bizarra, como, por exemplo, “suit jacket” ser posto como “costume” em vez de “paletó” em “His arms were too long for the suit jacket”“Seus braços eram longos demais para o costume”.

Bioshock: Rapture configura-se um livro com uma premissa interessante arruinada por um autor incompetente. A cidade é sem dúvidas o ponto forte do romance, mas, sua construção é mérito dos desenvolvedores do jogo e não de John Shirley. Com isso, seu romance revela-se consideravelmente redundante, não oferecendo nada para os fãs e pouquíssimo para aqueles que estão conhecendo esse universo pela primeira vez.

por Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo.

11 de julho de 2017.


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Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo


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