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Boneco de Neve.

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Posted 09/16/2017 by in Detetive

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Nota:
 
 
 
 
 

3/ 5

Sumário

Genero: ,
 
Autor:
 
Editora:
 
Idioma Original:
 
Título: Boneco de Neve
 
Título Original: Snømannen
 
Tradução: Grete Skevik
 
Edição: 2013
 
Páginas: 420
 
Resumo:

No fim, embora possa funcionar como apresentação ao universo da série da qual faz parte, Boneco de Neve passa longe de ser uma carta de introdução memorável.

by Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo
Full Article

Escrito por Jo Nesbø, Boneco de Neve é um suspense norueguês que constrói um clima de mistério eficiente, enquanto apresenta críticas sociais sobre a posição da mulher na sociedade. Entretanto, a trama formulaica, o suspense artificial, e uma reviravolta final decepcionante acabam enfraquecendo a discussão proposta.

Apesar de ser o sétimo volume de uma série policial, iniciada com Flaggermusmannen, ainda não traduzido para o português, Boneco de Neve pode ser lido individualmente sem qualquer prejuízo, usando sua bagagem narrativa apenas para referências pontuais. Na história, Harry Hole é um detetive amargurado que subitamente se vê desafiado por um caso inusitado: vários desaparecimentos na fria cidade de Oslo são precedidos pelo surgimento de um boneco de neve nas proximidades, geralmente construído com alguma vestimenta ou – ainda pior – parte do corpo das vítimas. Para auxiliar no caso, Hole conta com a ajuda de uma nova integrante em sua equipe: a fria e enigmática Katrine Bratt.

A apresentação de Bratt revela logo o jogo subversivo que será típico da personagem: em uma de suas primeiras interações com o protagonista, ela se coloca claramente como objeto de Hole (“Parece que pertenço a você”) para, entretanto, reverter a ideia logo em seguida (“Ou você a mim”). As discussões em torno da imagem de Bratt são frequentemente associadas à ideia de sexo e sucedidas pela imediata postura de não submissão da personagem. Enfrentando os frequentes comentários inapropriados dos colegas de trabalho e as eventuais investidas dos mesmos (“Só estou me oferecendo para ensinar uma coisa ou outra a você, sua vadia” – um deles destila seu machismo ao ser rejeitado), a personagem encontra-se imersa em uma cultura opressiva, contra a qual assume uma postura ora agressiva, com respostas duras e diretas, ora manipulativa, tirando proveito da reação dos homens ao seu redor.  

Assim como o sueco Os homens que não amavam as mulheres, Boneco de Neve traz uma narrativa preocupada com a questão da mulher, mostrando alguns dos discursos cruéis cujo único objetivo é delimitar seu lugar, controlando-a. Um personagem relevante, chamado Arve Stop, por exemplo, ao mesmo tempo em que elogia a inteligência e a superioridade da direita em seu país, também se posiciona como um porta-voz de ideias machistas, afirmando, por exemplo, que ter filhos é a função máxima de uma mulher, pois “através da procriação as mulheres aprendem a se sujeitar à natureza” – submissão essa que a figura masculina nunca precisa sentir na pele.

A narrativa chega a apontar que, quando o machismo em uma sociedade é crônico, os sintomas inevitavelmente aparecem na mídia. Em um programa de rádio, por exemplo, um locutor defende que a ausência de mulheres em conselhos administrativos no país não são de forma alguma devido a preconceito e a falta de oportunidade, mas certamente ao fato de elas terem demonstrado “uma resistência crônica em relação a cargos em que estivessem sujeitas a críticas e desafios profissionais, sem poder se esconder atrás de ninguém”.

No romance, aliás, a rádio é utilizada como uma ferramenta para preparar o tema da história no pano de fundo: em uma cena anterior, por exemplo, Harry, durante seus afazeres, escuta uma discussão sobre a vida sexual das focas, enquanto os locutores narram como o macho tenta matar a fêmea após ter filhos, com o intuito de impedir que ela acasale com outros – ato ainda tratado nos termos de “darwinismo biológico” pelos dois.

Assim, não é difícil perceber qual vai ser a motivação do vilão para assassinar as mulheres que escolhe. A narrativa, porém, tenta esconder essa motivação por quase toda a sua totalidade, podendo deixar o leitor impaciente: se o elemento que liga as vítimas é tão óbvio, o que a narrativa tem a ganhar em fazer o protagonista demorar uma eternidade para percebê-lo?

Harry é descrito como um detetive eficiente e é até possível perceber isso pela suas conclusões incidentais – ele deduz qual lado da cama um personagem dorme pela ausência de fotos do filho na mesa de cabeceira correspondente, indicando que já entendeu a natureza da relação dos dois –, mas em relação ao mistério principal ele demonstra uma lentidão de raciocínio alarmante.

A estrutura repetitiva da trama – suspeita-se pesadamente de alguém, descobre-se que esse alguém é inocente, então se suspeita de outra pessoa, e assim por diante – agrava ainda mais esse ponto, fazendo o protagonista investigar a fundo indivíduos desprovidos de motivações convincentes ou capacidade para orquestrar tudo. Uma determinada cena envolvendo sedução e asfixia surge excessivamente forçada tanto por exigir que um personagem principal aja de forma absurda, exagerada, colocando-se em risco impulsivamente, quanto por fazer Harry não questionar nada que está ocorrendo, aceitando as conclusões chegadas como verdade absoluta.

Além disso, o timing de algumas das ações, como o envio de uma mensagem enigmática, faz ainda menos sentido retrospectivamente, sugerindo uma capacidade de previsão do futuro que o personagem em questão não poderia ter. Ou seja, alguns dos momentos chaves de suspense do livro simplesmente não funcionam por terem sua base em ações inverossímeis.

O que é uma pena, pois a construção isolada das cenas de suspense mostra-se eficaz. O autor adota um estilo audiovisual, frequentemente construindo a tensão com elementos sonoros do cenário, que sonegam informações importantes do leitor, mantendo-o no suspense: no primeiro capítulo, por exemplo, a resposta decisiva de uma criança é abafada pelo barulho do motor de um carro, quando a mãe finalmente consegue ligá-lo. No mesmo sentido, posteriormente, ao perceber um boneco de neve curioso em seu quintal, a indagação de um garoto é cortada pela voz do pai e jamais volta a ser formulada.

Harry, como protagonista, é pouco fascinante, descambando para o clichê. A perda de companheiros antigos o atormenta, enquanto sua busca incessante por um caso que se revele desafiador adiciona um toque egocêntrico: uma boa notícia para Harry é ele estar certo e o caso ser grande, não o caso já estar resolvido. Entretanto, o detetive não passa muito disso. Ele mantém uma relação saudável com o filho e a ex-mulher, mas ambos são mais elementos narrativos para construir tensão do que personagens propriamente ditos.

O vilão, por fim, mostra-se tão unidimensional quanto Harry e a eventual revelação de sua identidade, apesar de representar um perigo imediato, não contribui em nada para o tema da história: as discussões podem até encontrar resultado em suas ações, mas não são complementadas por sua identidade, apenas seu gênero. Dessa forma, o clímax, construído em cima dessa revelação, torna-se vazio tematicamente, limitando-se a ser mais um momento de tensão entre tantos outros.

Boneco de Neve é um romance policial com seus altos e baixos. Traz uma personagem secundária fascinante, mas também um protagonista clichê e um vilão unidimensional. Seu suspense ora funciona, ora deixa muito evidente os artifícios por trás de sua construção. Até suas discussões, apesar de pertinentes, não são concluídas adequadamente. No fim, embora possa funcionar como apresentação ao universo da série da qual faz parte, Boneco de Neve passa longe de ser uma carta de introdução memorável.

por Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo.

16 de setembro de 2017.


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Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo


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