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Caixa de Pássaros.

7
Posted 10/21/2016 by in Terror

Rating

Nota:
 
 
 
 
 

1/ 5

Sumário

Genero:
 
Autor:
 
Editora:
 
Idioma Original:
 
Título: Caixa de Pássaros.
 
Título Original: Bird Box.
 
Tradução: Carolina Selvatici.
 
Edição: 2015.
 
Páginas: 272.
 
Capa: Julio Calvo / Millennium Images.
 
Resumo:

Em suma, Caixa de Pássaros é um romance de terror profundamente problemático, que contém uma prosa precária e uma narrativa sem rumo, sentido, propósito ou qualquer elemento minimamente interessante.

by Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo
Full Article

Caixa de Pássaros, escrito por Josh Malerman, é um romance de terror pós-apocalíptico que traz um universo onde as pessoas não podem abrir os olhos ao saírem na rua. O livro, entretanto, não consegue aproveitar o potencial simbólico de sua premissa, falhando tanto em apresentar personagens cativantes quanto em construir cenas de tensão.

A protagonista chama-se Malorie, uma garota que se descobre grávida justamente no dia em que algumas pessoas começam a enlouquecer após enxergarem um misterioso monstro. Com os olhos fechados, Malorie parte desesperada para uma casa que está sendo anunciada como refúgio, deparando-se com outros sobreviventes. Contudo, anos depois, ela se vê tendo que criar duas crianças sozinha e decide fugir com elas para um lugar mais seguro, viajando às cegas por um rio.

Grande parte da narrativa foca no grupo que a protagonista conhece no refúgio, liderado pelo carismático professor Tom. Trabalhando com a dinâmica entre esses indivíduos – que estão basicamente presos em uma câmara fechada – Malerman traz um estudo de caso, mostrando como a mente humana é suscetível à paranoia em situações de estresse e como isso invariavelmente leva a ações imprudentes. No entanto, o autor peca gravemente no ponto mais importante de sua proposta: tornar tais personagens interessantes. Afinal, Malerman apresenta ao leitor uma gama de seres que, na melhor das hipóteses, podem ser descritos como unidimensionais, resumindo-se a repetir seus bordões e a agir como o esperado.

Olympia, por exemplo, é a outra mulher grávida do grupo e o fato de sua personalidade limitar-se a essa característica torna seu desenvolvimento bem similar a da própria protagonista. Jules, por sua vez, é um cara que gosta de cachorros, porque tem um; Cheryl tem pavio curto; Tom é o “homem” do grupo, transmitindo a todos uma sensação de segurança ao tomar para si a responsabilidade de resolver os principais problemas que surgirem; Don é o sujeito insuportável sem traços redimíveis; e Felix até se destaca, mas por conseguir a proeza de ser mais simples que os anteriores, sequer possuindo uma única característica marcante: Felix é apenas um nome na página.

Malorie é uma personagem igualmente simples, trazendo apenas duas linhas de pensamento: ou ela está preocupada com a saúde de seus filhos ou está lamentando que Tom não se encontra lá para ajudá-la. Ela, aliás, dificilmente pode ser considerada uma personagem feminina forte, visto que cria uma dependência emocional forte com relação ao professor.

Como Caixa de Pássaros é cheio de personagens planos confinados em um espaço pequeno, o resultado não podia ser outro que não desastroso: o leitor fica preso à perspectiva de indivíduos muito repetitivos e que jamais surpreendem.

O elemento de horror do livro é tão mal trabalhado quanto os personagens, com seus acontecimentos sempre surgindo mais bobos e tolos do que aterrorizantes. Logo no início, por exemplo, o autor já peca pelo exagero das situações: mal começam os boatos de que o acesso de loucura é causado por se ver alguma coisa incerta e, em vez de existir uma recusa inicial a tal ideia absurda, Malorie já encontra um sujeito colocando curativos em seus olhos quando visita uma farmácia. Sem contar que, até aquele momento, a televisão não narrara mais do que cinco casos ocorrendo ao redor do mundo.

O monstro em si não se sai muito melhor, pois suas características vão sendo mantidas em segredo, uma vez que aqueles que olham para ele acabam morrendo. Inicialmente, tal estratégia narrativa funciona ao manter um suspense sobre a identidade da criatura, além de trabalhar com um dos fundamentos principais do gênero (o ser humano teme o que não conhece). Todavia, tal mistério alonga-se para todo o sempre, tornando a estratégia mais irritante do que eficiente.

Além disso, Malerman não parece entender (como Shyamalan em Fim dos Tempos) que sua premissa cria situações visualmente ridículas, como, por exemplo, pessoas dirigindo com os olhos tampados pelas próprias mãos ou saindo para explorar a vizinhança fingindo serem cegas; cenas que, dependendo do tom, poderiam estar presentes até mesmo em uma comédia escrachada. O autor, porém, trata essas cenas como sendo naturalmente tensas, jamais tentando reconstruí-las na mente do leitor.

Não que ele fosse se sair muito melhor caso tentasse, uma vez que sua escrita revela-se incrivelmente problemática. A prosa de Malerman é basicamente constituída por frases curtas e períodos simples. Os poucos períodos compostos são quase todos por coordenação, com poucas orações adverbiais aqui e ali. Em termos menos técnicos, o autor de A Caixa de Pássaros escreve um texto no nível de crianças do primário.

Isso leva a uma quebra constante no ritmo de leitura, devido às inúmeras pausas causadas pela frequência das frases curtas:

“Apesar do ar frio do porão, ela está suando. Os passos inquietos dos moradores da casa ressoam. O teto range. Afastando o cabelo da testa, Malorie apoia as costas nas prateleiras. Ela conta as latas. Suas pálpebras pesam. É bom descansar.”

Sem contar que essa característica também causa efeitos negativos na construção da tensão: normalmente, autores inserem orações simples e curtas de forma súbita na narrativa para criar momentos de impacto. Elas funcionam justamente devido ao contraste com as longas descrições anteriores. Em Caixa de Pássaros, como o autor escreve sempre em pequenos blocos, os instantes em que tal técnica de escrita faria sentido não se destacam, com as frases perdendo-se no meio de tantas outras similares.

O autor também perde a oportunidade óbvia de trabalhar com tempos verbais, já que coloca uma narrativa ocorrendo cronologicamente após a outra: a de Malorie fugindo no rio poderia estar no presente, enquanto ela vivendo na casa com Tom e seus colegas poderia ter verbos no passado, ajudando a situar o leitor. No entanto, Malerman escreve as duas no presente, sem fazer qualquer distinção.

Outra estratégia narrativa sem sentido é a de não nomear as crianças que a protagonista cuida, chamando-as apenas de Menina e Garoto. Não funciona em caráter geral, pois os dois simbolizam nenhum grupo, e muito menos como comentário sobre o desespero de Malorie: não é o caso de ela querer se distanciar das crianças com essa forma de nomeação, visto que elas são basicamente o único objetivo de vida da mulher. A ideia de que não lhes dar nomes próprios comuns serviria para ela não sentir tanta dor no caso da eventual morte delas também não faz sentido, uma vez que o ato não diminuiu o vínculo afetivo dela com as crianças e nem daria razões para tal.

A condução de algumas cenas ainda peca pela falta de lógica: em determinado momento, por exemplo, a protagonista sai da casa com um cachorro justamente para ele permitir que ela consiga voltar para seu automóvel em segurança, guiando-a pelo caminho. Todavia, ela volta sem a ajuda do cachorro com extrema facilidade, jamais notando a inutilidade de seu plano inicial.

Como não poderia deixar de ser, Malerman ainda apela volta e meia para frases de efeito, numa tentativa de dar algum propósito para sua história, embora isso só a faça guardar semelhanças com livros de autoajuda fraudulentos: “Saímos de lá porque algumas pessoas decidem esperar as notícias chegarem e outras correm atrás delas”.

Em suma, Caixa de Pássaros é um romance de terror profundamente problemático, que contém uma prosa precária e uma narrativa sem rumo, sentido, propósito ou qualquer elemento minimamente interessante.

por Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo.

21 de outubro de 2016.


About the Author

Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo


7 Comments


  1.  
    Hoxton Hoxworth

    A falta de lógica é sempre um fato que transforma livros razoáveis em livros péssimos, pelo menos pra mim. O livro, pelo que foi descrito, não possuí nenhuma pessoa cética, o que é absurdo, principalmente se tratando de uma obra que teoricamente trata sobre psique humana, estresse e tudo mais. A parte onde eles dirigem carros enquanto tapam os olhos me fez rir bastante. Eu até entendo um livro onde a personagem principal, seja homem ou mulher, não é forte ou decidida. As vezes um protagonista covarde e cheio de medos é interessante, mas tem que ser muito bem trabalho, caso contrário fica raso e insuportável. O mais surpreendente de tudo é que o Malerman é comparado ao King, e isso é absurdo no meu ponto de vista. Se a pessoa falha escrevendo horror ela não deveria ser comparada a alguém que é reverenciado como como um gênio do mesmo estilo. Boa análise, como sempre.




    •  
      Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo

      Muito boa observação: um personagem pode ser covarde ou fraco, mas isso tem que ser trabalhado na narrativa, relacionando-se ao tema e compondo um arco narrativo. Além disso, não é porque o personagem é fraco que ele tem que ser superficial, como é o caso da protagonista de Caixa de Pássaros.

      Agradeço muito os elogios e sua participação no site, que está expandindo a discussão. Abraços!




  2.  
    Núbia Alcântara

    Acabei de ler Caixa de Pássaros agora e vim buscar no google críticas sobre o livro, especialmente para ver se muitos compartilham da minha opinião. E lendo seus comentários percebo o que realmente não me agradou no livro. A narrativa em alguns momentos fica enfadonha devido à forma como o livro foi escrito (com frases curtas, como vc disse). Só percebi isso após ler seus comentários. Em alguns momentos, eu só passava o olho em algum trecho, pois tudo era bem repetitivo. A ideia central do livro eu gostei bastante, achei interessante, e talvez façam melhor no filme que no livro (o que quase nunca acontece, mas nesse vejo grande possibilidade). Acredito tb que mais características desses seres misteriosos cairiam bem… Eles sempre passavam a vassoura nos cômodos, mas nunca encontravam nada. Nos momentos em que a criatura estava por perto, nunca a acertavam! E terminar o livro sem nem sombra de entender o que seriam essas criaturas foi bem frustrante. Poderiam ter colocado um romance entre o Tom e a Malorie, o que tb adicionaria algo mais dramático ao livro com a morte do Tom. Assim como mais detalhes do dia do massacre na casa e sobre o tal do Gary não ser suscetível à loucura causada pelos seres. Tudo muito sem lógica. Concordo com você que o livro poderia ser bem, beeem melhor. 😀
    Valeu muito pelos comentários!




    •  
      Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo

      Agradeço os comentários e os elogios, Nubia!

      De fato, as frases curtas em excesso tornam a leitura cansativa, prejudicando muito o livro.

      No entanto, acredito que a adaptação para o cinema vai incorrer em outros problemas. Por ser uma mídia audiovisual, filmar as inúmeras cenas de tensão escondendo a presença de monstros no quadro vai ser bem difícil, possivelmente levando o espectador à frustração muito rápido. O filme provavelmente teria que admitir a existência deles para funcionar.

      Mas aguardo curioso a adaptação.

      Abraços!




  3.  
    Vrau

    Olha…. n querendo ser grossa mais já sendo ….. você não leu o livro como uma pessoa q ama livros ….caixa de pássaros é um livro de suspense q n é confuso , que não é mal explicado por suas frases curtas , se você n entendeu oq ele quis passar , releia , e sobre as criaturas….. elas n são descritas pois É uma criatura q ninguém nunca conseguiu contar como era pois ela entrava em “colapso” ……
    Me desculpe se te ofendi ou algo do tipo…mas só dei minha opiniao ….
    Abraço




    •  
      Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo

      Olá, Vrau! Agradecemos o comentário!

      De fato, dos inúmeros erros de Caixa de Pássaros, ser confuso não é um deles. O problema das frases curtas não é tornar as coisas mal explicadas – o livro é bem simples, seria um feito e tanto ele ser confuso -, mas travar o ritmo da leitura. Afinal, a narrativa inteira é formada por frases curtas, que, por serem curtas, criam várias pausas.

      O problema das mensagens do livro não é elas serem inexistentes, mas simplórias, feitas de bordões. Dessa forma, o livro não explora de forma madura as questões que suscita.

      Quando digo na conclusão que o livro não tem sentido e propósito é justamente isso que quero dizer: como ele é tolo em sua construção, ele acaba se auto sabotando e se tornando dispensável. Além de conter ações de personagens e situações realmente ilógicas.

      Quanto ao monstro, eu mesmo apontei que essa era a razão para inicialmente ninguém saber como ele é formado. Mas isso se estender para todo o sempre, no meio de uma narrativa fraca, é frustrante por negar uma resolução empolgante ao mesmo tempo em que falha em seu simbolismo.

      Espero que visite o site mais vezes! Abraços!




  4.  
    Alex

    Gostei muito da sua resenha. Logo no início notei também a escrita do autor, utilizando muitos períodos curtos. Achei bem cansativo ler em várias partes do livro. As personagens também não me cativaram de forma alguma. Suas personalidades e dramas pessoais não foram bem desenvolvidos. A mudança repentina do Don, a aparência das criaturas e a imunidade do Gary são exemplos de perguntas que ficaram sem resposta.
    Muito boa a crítica!





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