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Deadhouse Gates.

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Posted 08/01/2016 by in Fantasia

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Nota:
 
 
 
 
 

5/ 5

Sumário

Genero:
 
Autor:
 
Editora:
 
Idioma Original:
 
Título: Deadhouse Gates.
 
Tradução: Lido no original.
 
Edição: 2005.
 
Páginas: 604.
 
Capa: Steve Stone.
 
Resumo:

Se Gardens of the Moon foi um ótimo início, Deadhouse Gates é um livro brilhante que reafirma Steven Erikson como um dos maiores autores do gênero fantasia.

by Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo
Full Article

Deadhouse Gates, o segundo volume da série de fantasia The Malazan Book of the Fallen escrita por Steven Erikson, é um livro ainda melhor que o primeiro. Belamente estruturado e escrito, o romance revela-se incrivelmente pessimista, apresentando uma série de personagens trágicos, cujos arcos narrativos sempre voltam para a mesma questão: como encarar a violência?

A história em Deadhouse Gates transcorre em um continente diferente do apresentado em Gardens of the Moon, introduzindo personagens e cenários novos. O foco é as Setes Cidades, uma região cercada por deserto, cuja mitologia é toda sustentada em cima da noção de rebelião. Tendo sido conquistadas pelo Império Malazan anos atrás, as cidades encontram-se em ponto de ebulição quando o velho historiador Duiker é designado a trabalhar para o general Coltaine na tentativa de conter uma guerra civil.

Além de Duiker, vários são os pontos de vista seguidos no livro: Felisin Paran é uma jovem da nobreza que precisa lidar com o choque de ser enviada pela própria irmã para uma mina, onde passa a trabalhar como escrava; Mappo e Icarium são criaturas extremamente poderosas que enfrentam um dilema capaz de por em cheque sua antiga amizade; e o assassino Kalam viaja com seus colegas, Fiddler, Crokus e Apsalar com o intuito de assassinar a imperatriz de Malaz, Laseen.

O prólogo do livro mostra-se eficaz em estabelecer o tom da história, os temas tratados e parte dos artifícios narrativos empregados por Erikson. Nele,  leitor acompanha a perspectiva de uma Felisin desnorteada durante o expurgo de sua cidade pelo Império: nobres estão sendo julgados por um júri de mendigos e juízes bêbados para, em seguida, serem despejados em uma espécie de arena para a catarse violenta dos pobres, que os puxam, pisam e matam. A comandante Malazan encarregada pelo evento é justamente a irmã de Felisin, Tavore Paran, que pretende castigá-la para limpar o nome de sua família. Seguindo em fila, a garota conversa com um monge sem mãos, chamado Herboric, e um assassino, Baudin, sobre suas chances de sobrevivência. A resposta de Baudin vem com a execução repentina, mas demorada, de uma nobre, cuja cabeça é jogada para a multidão numa tentativa de ganhar algum tempo com a distração.

Deadhouse Gates é um romance pautado pela violência, cujos personagens e povos são propensos a surtos de raiva, discursos de ódio e atos que causam a mais profunda repulsa. Gore, portanto, é um elemento constante na narrativa, que sempre surpreende o leitor com os horrores que um ser humano pode infringir no outro. O clímax do prólogo é uma execução aterrorizante, mas os eventos que se seguem são ainda mais chocantes.

Erikson trabalha com violência gráfica de várias formas. Primeiramente, o autor faz seus personagens parecerem presos eternamente em um último instante de agonia, incapazes de morrer e, por isso, enxergando a morte como uma salvação. Logo na primeira página, por exemplo, ouvem-se os uivos desesperados de um cachorro próximo da morte, “mas não próximo o suficiente”.

Em seguida, ele intensifica o nível da brutalidade e cria metáforas visuais para marcá-la na mente do leitor. Uma das muitas atrocidades com que o assassino Kalam se depara é um menino crucificado. O desenvolvimento da cena acompanha essa diretriz: ele observa o buraco sangrento no lugar de um dos olhos do garoto, seu nariz destruído, e assusta-se ao avistar várias outras crianças nas mesmas condições atrás daquela. Seu olhar bate nas mariposas devorando a carne do menino – tantas que seus braços pareciam asas – para, então, notar que a criança ainda vivia.

Para finalizar, Erikson faz questão de ressaltar o elemento humano por trás das tragédias: não basta descrever que centenas de mulheres foram estupradas enquanto eram enforcados pelas tripas dos homens que jaziam ao seu redor. O autor insere uma pausa, assinalada por travessões, para indicar que tais homens eram seus maridos, irmãos, pais e filhos.

Além disso, o autor merece aplausos por trabalhar a questão da raiva e da agressividade não somente na visceralidade das descrições, como também na escolha do vocabulário. Os personagens em Deadhouse Gates não falam e conversam, mas gritam e grunhem suas palavras. Os verbos mais utilizados são “grunt”, “growl”, “groan”, “grimace”, “grin”. Todos iniciados com “gr”,  produzindo na narrativa o ruído constante de um rosnado: um excelente uso de aliteração que complementa a atmosfera sufocante da história.

Diante de tanta violência, os personagens acabam desesperançosos, assumindo uma posição cínica diante do futuro da humanidade. Nesse sentido, o protagonista, Duiker, encontra-se em uma situação especial por ser historiador. Seu objetivo é registrar os eventos que transpassam na retirada do exército de Coltaine das Sete Cidades, quando a deflagração da guerra civil os obriga a percorrer o deserto com mais de cinquenta mil refugiados.

A jornada de Coltaine guarda muitas semelhanças com a dos 300 de Esparta: seu exército encontra-se em um número muito inferior a de seus inimigos, mas resiste devido à disciplina, união e ferocidade de seus integrantes. Cada batalha ocorre em uma situação mais desvantajosa que a outra, mas em cada uma Coltaine sai vitorioso e com um número de sobreviventes ainda menor.

Duiker assiste às vitórias com assombro, chocado com a carga de selvageria testemunhada em ambos os lados do campo de batalha. O historiador percebe que na hora de matar, de assassinar e dilacerar o inimigo não há mais discriminação de gênero, raça ou classe; que o discurso de ódio “nós ou eles” é tóxico e leva somente a atos de brutalidade; que a História e a razão são abandonadas no meio da carnificina, condenando todos a um fim trágico. Quando Duiker atesta – como Kalam – que até as crianças não estão sendo poupadas durante a revolução, ele enuncia, sem acreditar, “Children are dying” – frase que é imediatamente complementada por um soldado que põe em perspectiva a função do colega: “That’s a succinct summary of humankind, I’d say. Who needs tomes and volumes of history? Children are dying. The injustices of the world hide in those three words. Quote me, Duiker, and your work’s done”.

Felisin não lida melhor com os horrores que presencia. Desde o prólogo, sua reação é a de se afastar da realidade, encontrando força de vontade apenas no desejo de se vingar da irmã. Numbness é um termo constantemente relacionado à personagem enquanto ela trabalha nas minas: Felisin fica entorpecida por seu ódio a Tavore, não sendo mais capaz de sentir qualquer outra coisa. Em determinado momento, Erikson – que adora trabalhar com simbolismos – constrói uma metáfora visual intensa ao cegar a garota temporariamente para a ação que transpassa a seu redor. Trata-se de uma cena pesada, pois os insetos que a debilitam momentaneamente tentam entrar em seus ouvidos, boca, olhos e por entre suas pernas, enquanto ela se defende com lama, até estar completamente imersa nela, desprovida de todos seus sentidos: o arco narrativo da garota é ainda mais trágico que o de Duiker, pois se este nunca deixa de se chocar com a violência, condenando-a, Felisin luta justamente para abraçá-la, tomando-a para si.

A história finalmente ganha um clima mais leve nas jornadas entrelaçadas de Kalam, Fiddler, Crokus, Apsalar, Mappo e Icarium, uma vez que eles, pelo menos, demonstram ter ou encontrar pessoas com algum senso de humor. A trama do assassino é a mais séria do grupo, do qual ele se separa logo no início, tomando um caminho próprio até chegar a Laseen. Sua viagem pelo deserto é pautada por cenas de ação e perseguição, sendo responsável por vários eventos importantes da história. Trata-se de um personagem dividido por suas alianças – nasceu nas Sete Cidades, mas trabalha para o Império –, que enxerga na morte da Imperatriz a solução para a guerra. Kalam, portanto, deseja acabar com a violência com um gesto de violência – embora cirúrgico –, o que torna o anticlímax de seu final apropriado por fechar o arco narrativo do personagem trabalhando com essa ironia.

Erikson constrói muito bem várias cenas que envolvem o assassino: uma simples frase sobre a motivação de Kalam em revelar sua identidade para os guardas de um forte aleatório, por exemplo, torna o momento em que um grupo de mercenários adentra o lugar mais interessante, devido à ironia dos eventos resultantes. Além disso, o próprio episódio serve para aumentar a tensão sobre a possibilidade de o personagem falhar em sua missão, pois o mostra cometendo erros tanto de observação quanto de julgamento.

Já  restante do grupo encontra Iskaral Pust, um sacerdote das Sombras que segue o padrão iniciado por Kruppe em Gardens of the Moon: funcionar como um alívio cômico misterioso devido ao contraste entre suas falas aparentemente ilógicas e o imenso poder que elas deixam transparecer. Pust, porém, traz trejeitos próprios, como o hábito de falar seus pensamentos de forma aparentemente involuntária, levando a situações hilárias em que acaba expondo para os outros justamente seu desejo de trai-los ou manipulá-los.

Por fim, Mappo e Icarium são responsáveis pela carga emotiva do livro. Sua amizade, nascida de uma tragédia, parece destinada a terminar da mesma forma. Icarium sofre de amnésia devido a seus surtos de fúria, um tormento que seu companheiro entende como sendo, na verdade, uma benção: um modo de esquecer toda a violência que ele perpetra. Assim, a amizade comove o leitor pela contraposição de ser verdadeira e mesmo assim caminhar para uma inevitável fatalidade.

Se Gardens of the Moon foi um ótimo início, Deadhouse Gates é um livro brilhante que reafirma Steven Erikson como um dos maiores autores do gênero fantasia. Trabalhando com o conceito de violência, o romance oferece várias possíveis respostas para a origem de tanto ódio, mas uma é especialmente triste em sua simplicidade: “Difference in kind is the first recognition, the only needed, in fact. Land, domination, pre-emptive attacks – all just excuses, mundane justifications that do nothing but disguise the simple distinction. They are not us. We are not them”.

por Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo.

01 de agosto de 2016.

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Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo


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