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Deuses Americanos.

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Posted 12/23/2016 by in Fantasia Urbana

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Nota:
 
 
 
 
 

4/ 5

Sumário

Genero:
 
Autor:
 
 
Idioma Original:
 
Título: Deuses Americanos.
 
Título Original: American Gods.
 
Tradução: Leonardo Alves.
 
Edição: 2016.
 
Páginas: 574.
 
Capa: Houston Trueblood.
 
Resumo:

Deuses Americanos é, além de divertido e bem construído, importante para o cenário político atual. Considerando que a arte tem a capacidade de reanimar a empatia das pessoas, o presente romance tem o potencial de fazer maravilhas com aqueles que apoiam discursos como o de Donald Trump.

by Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo
Full Article

Em tempos em que o futuro presidente dos Estados Unidos faz declarações xenofóbicas e perigosas, uma obra como Deuses Americanos torna-se ainda mais relevante: ao apresentar uma América essencialmente pluralista, o romance de fantasia urbana de Neil Gaiman desvela a hipocrisia e o mau-caratismo desses posicionamentos, traçando um panorama da multiplicidade de povos e crenças que forma os Estados Unidos da América.

O protagonista da história chama-se Shadow, um homem taciturno, de poucas palavras, que recebe uma proposta inusitada assim que termina de cumprir sua pena na prisão: trabalhar como segurança para um enigmático sujeito que se autodenomina Sr. Wednesday. Viajando com seu novo empregador pelos Estados Unidos, Shadow acaba se vendo imerso em um mundo em que deuses antigos e criaturas fantásticas vivem esquecidos em meio às pessoas comuns.

Gaiman trabalha com essa premissa de forma admirável. Em Deuses Americanos, as deidades são seres complexos e paradoxais: surgem em carne e osso, mas vivem na mente do povo; atuam no campo da realidade ao mesmo tempo em que estão presos a sua essência simbólica; arruínam a vida das pessoas, embora dependam da crença delas para existir.

O grande conflito da história envolve a disputa de poder entre os deuses antigos, de mitologias e folclores mais diversos, com os novos, das ferrovias, da mídia, da informática e do capital. Os primeiros estão enfraquecidos por seus crentes não mais realizarem as mesmas oferendas, os mesmos rituais e orações de outrora. Vivem na sarjeta, tendo que aplicar pequenos golpes ou se prostituir para sobreviver. Os novos, percebendo a efemeridade da natureza de seus antecessores, e temendo sofrer o mesmo destino, decidem eliminá-los de uma vez por todas.

É frequentemente repetidana narrativa a declaração de que a América é uma terra ruim para deuses, mas as razões são deixadas para a reflexão do leitor. Seria ela uma terra em frequente mudança, incapaz de manter o foco em um único ponto por muito tempo, tornando  ultrapassadas as religiões que não conseguem se atualizar? Ou uma terra com olhos cada vez mais individuais, virados para dentro, que dispensa a função dos deuses?

Gaiman acerta ao não tornar seu romance moralista, apresentando um panorama complexo da situação. Os deuses antigos são caracterizados com a brutalidade condizente com suas histórias de origem, demandando sacrifícios de sangue e sempre colocando a si mesmos como prioridade. Da mesma forma, o autor não nega o conforto que eles proporcionam a seus adoradores. O questionamento resultante é se a ausência maior de crenças religiosas hoje, comparada à antiguidade, não é, na verdade, algo bom, um sintoma do progresso civilizatório: os seres humanos ao se tornarem menos dependentes dos caprichos da natureza, passam a necessitar menos de símbolos para explicá-los ou aliviar a dor causada por eles. Além disso, o livro põe em destaque, em diversas passagens, como a barbárie, muitas vezes protegida sob um véu cultural, foi e ainda é realizada em nome das religiões e suas entidades.

Lendo nesse sentido, a escolha da identidade dos deuses novos é ainda mais acertada, pois não há como negar que o século XXI está sendo marcado por inúmeros atos de imensa violência cometidos em nome do capital, do poderio tecnológico e do monopólio da informação, e como a mídia, ideológica e cruel, não estimula esses mesmos atos, vendendo-os como produtos para seu consumidor. Media, como a mídia aparece mitificada na narrativa, surge sempre preocupada com a visão e a personalidade de seu interlocutor, ocultando seu objetivo de manipulá-lo, de moldar a opinião dele para atender às suas necessidades. Ela é tratada abertamente como uma vilã e, quando chega a intimidar Shadow, o faz ameaçando mudar o conceito da sociedade sobre ele, alertando sobre seu poder.

O que leva a uma fraqueza do livro. Gaiman contrapõe os deuses antigos, esquecidos, aos novos, temporários, mas se esquece de trazer para a discussão instituições religiosas antigas que permanecem com poder na modernidade. A Igreja Católica e o Protestantismo, por exemplo, apesar de ainda exercerem influência na cultura ocidental e americana, estão curiosamente ausentes no romance, sendo mencionados breve e indiretamente – quase como um adendo humorístico – apenas nos apêndices –, o que torna a discussão proposta tematicamente incompleta.

Quanto à forma, Deuses Americanos é estruturado como um road movie, episodicamente: Shadow faz um longo tour pelos Estados Unidos, encontrando um grupo de deuses por vez. Trata-se de um romance mais repleto de ideias do que de acontecimentos importantes.

O tema central reside na tentativa de apontar como o povo da América é eminentemente composto por imigrantes: até os índios não são exatamente nativos, pois vieram para os Estados Unidos da Ásia há mais de 15.000 anos durante o último período glacial – evento que chega a ser ilustrado em certo capítulo. Quando Shadow pergunta para Sr. Wednesday se ele é americano, a resposta não poderia ser mais contundente: “Ninguém é. Não de origem”.

Não é a toa que uma das seções mais repetidas no livro chama-se “Vinda à América”. Gaiman enxerga a sociedade americana como uma construída pela imigração, com cada povo trazendo consigo suas crenças, tradições e deuses. Esses episódios, que focam em personagens diferentes, entrecortam os da narrativa principal – e são discutivelmente bem superiores a ela –, delineando algumas dessas histórias imigratórias.

O livro não fecha os olhos para os preconceitos americanos atuais e para os pontos mais condenáveis de sua História. Por um lado, por exemplo, ele ilustra a intolerância contra árabes, acompanhando um vendedor chamado Salim, que, repetidamente rejeitado, descobre que até  as criaturas de sua mitologia estão precisando viver como taxistas. Por outro, relembra as brutalidades da escravidão imposta aos africanos pela trama da garota Mututu, que, após abusos físicos, psicológicos e sexuais, ainda precisa assistir às suas crenças se corrompendo nas mãos de outros: em vez de praticar rituais de adoração, sua pupila comercializa sua crença, prometendo efeitos práticos, mas falsos.

Um dos melhores episódios conta como a colonização se deu como punição: uma das penas aplicadas na Inglaterra era o transporte à América, onde os condenados acabavam entrando em um esquema de escravidão servil por dívida. Tal episódio ainda ganha importância ao ter reflexo na própria estrutura do livro, visto que Shadow passa a conhecer a verdadeira América após sair da prisão.

Como é de se esperar pelo tema, a narrativa de Deuses Americanos é enriquecida por referências mitológicas, volta e meia resultantes de brincadeiras com as possíveis versões mundanas dos deuses: Anúbis, por exemplo, surge trabalhando numa funerária como um tanatólogo que retira um pedaço de cada órgão e come.

Gaiman também se diverte em revelar as diversas influencias estrangeiras que já estão tão mescladas na cultura americana que sua proveniência é ignorada, escondida à vista de todos. A origem dos nomes em inglês dos dias da semana, por exemplo, é alvo de uma piada justamente de Wednesday no início do livro. Mais tarde, o próprio ainda questiona uma garçonete se ela conhece as origens da Páscoa, com a deusa Eostra sentada a sua frente.

A narrativa do romance é bem construída, repleta de pistas e recompensas sutis: os deuses, por exemplo, sempre demonstram um gosto por contar histórias – responsáveis por sua propagação e consequente força na antiguidade –, o que acaba servindo como um alerta velado para o leitor sobre determinados personagens. Já as músicas escolhidas não somente estabelecem a atmosfera das cenas, para aqueles que a conhecem, como ainda preparam certos eventos que estão para acontecer: Walkin’ After Midnight,  que toca em um bar no início, ilustra a função narrativa que a esposa de Shadow, Laura, eventualmente assume.

O ponto em que Deuses Americanos peca inegavelmente é o desenvolvimento de seu protagonista, Shadow. Ele é descrito como um sujeito reservado e quieto, acusado de não possuir energia pela própria mulher. Porém, há uma diferença grande entre ser introspectivo e ser vazio: enquanto este último não pensa nada, o primeiro reflete sobre coisas fascinantes e incríveis, mas escolhe não dizê-las. Shadow, em diversos momentos, é muito mais vazio que introspectivo, como o seguinte trecho ilustra: “Shadow se perguntou como todos haviam chegado à House on the Rock sem meios próprios de transporte e como eles iriam embora, mas falou a coisa mais certa em que pensou: nada”.

Esse é o principal problema de Shadow. Ele não acrescenta muitos aos eventos da história com sua personalidade, aceitando tanto os elementos fantásticos quanto o que acontece a ele com uma passividade maçante. Se o protagonista de Lugar Nenhum irritava com sua resistência ao fantástico, o de Deuses Americanos está no outro lado do espectro, entediando com sua falta de reação.

Por outro lado, Shadow não ter uma etnia definida de fato reflete a visão do livro sobre a América, principalmente levando em conta que uma cena específica estabelece uma relação íntima entre o personagem e a terra, colocando-o como sua representante. Porém, se ele funciona como símbolo, o mesmo não pode ser dito quanto a sua posição de protagonista.: “Só estou seguindo fluxo, sabe”, Shadow afirma em certo ponto, gerando apenas bocejos no leitor.

Além disso, ao longo do livro, as muitas cenas de sonho e pesadelo com Shadow passam a ser repetitivas em seu propósito. Mesmo que sejam contextualizadas graças às conexões com a mitologia nórdica, tais cenas não deixam de se tornar narrativamente pobres com o passar do tempo.

Por fim, é curioso notar na prosa de Gaiman como os personagens Sr. Wood e Sr. Stone servem basicamente como protótipos para o Sr. Croup e Sr. Vandemar de Lugar Nenhum. As semelhanças vão além da apresentação de seus nomes (sempre em dupla com o pronome de tratamento), passando pela personalidade doentia (ambos contam piadas em momentos de violência, banalizando-a), pela sua função narrativa de torturadores (e o contraste dessa função com suas boas vestimentas) e, finalmente, pela sua própria descrição inicial que faz questão de diferi-los por elementos mundanos (“Um tinha maxilar quadrado, ombros largos, cabelo incrível, parecia ter sido jogador americano na escola, tinha unhas muito ruídas; o outro tinha entradas no cabelo, óculos de armação redonda prateada e unhas bem cuidadas”).

Deuses Americanos é, além de divertido e bem construído, importante para o cenário político atual. Considerando que a arte tem a capacidade de reanimar a empatia das pessoas – como até aponta o capítulo sobre a escrava Mututu – o presente romance tem o potencial de fazer maravilhas com aqueles que apoiam discursos como o de Donald Trump.

por Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo.

23 de dezembro de 2016.


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Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo


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