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Filhos do Fim do Mundo.

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Posted 08/05/2016 by in Nacional

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1/ 5

Sumário

Genero: ,
 
Autor:
 
Editora: ,
 
Idioma Original:
 
Título: Filhos do Fim do Mundo.
 
Título Original: Filhos do Fim do Mundo.
 
Tradução: Livro Nacional.
 
Edição: 2013.
 
Páginas: 288.
 
Capa: Istock Photo / Rico Bacellar
 
Resumo:

Os Filhos do Fim do Mundo até contém uma proposta interessante, mas esta é constantemente sabotada pelos mais variados problemas da escrita de Barreto.

by Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo
Full Article

Filhos do Fim do Mundo, romance de terror escrito pelo brasileiro Fábio M. Barreto, traz um cenário apocalíptico horripilante: a morte súbita e inexplicável de todos os bebês ao redor do mundo. Acompanhando o drama dos habitantes de uma cidade durante os primeiros dias da tragédia, a narrativa é permeada por uma atmosfera pesada, construída pela dor e a incompreensão dos personagens diante do ocorrido. A prosa do autor, todavia, não faz jus a essa premissa – muito similar a do filme Filhos da Esperança –, contendo inúmeros problemas graves.

O protagonista da história chama-se apenas Repórter, uma vez que Barreto prefere nomear seus personagens a partir de suas profissões ou posições na sociedade. Quando o evento ocorre, a mulher do jornalista encontra-se nas últimas semanas de gestação, levando-o a uma luta contra o tempo: ele precisa solucionar o mistério das mortes antes da hora do parto de seu filho. 

A narrativa acompanha as tentativas do personagem de investigar o que ocorreu em lugares protegidos (como bunkers) e culmina em um clímax de pura ação. Além de seguir o Repórter, o romance oferece o ponto de vista de outros habitantes da cidade.

De imediato, porém, Barreto já não consegue justificar sua escolha inusitada de como nomear os personagens. A estratégia remete a autores consagrados, como José Saramago e Cormac Mccarthy, mas ao contrário da obra destes, Filhos do Fim do Mundo não traz uma história que funciona como alegoria. Sim, a ausência de nomes confere um caráter geral aos personagens, mas a caracterização de alguns deles trai essa proposta.

O protagonista, por exemplo, tem um arco dramático muito mais condizente com sua condição de pai do que de repórter, uma vez que todas suas ações possuem o único intuito de salvar a vida do filho que está para nascer. Suas atividades como jornalista, aliás, são até questionáveis, devido à completa falta de noção do personagem, que não hesita em colocar outras vidas em risco para obter informações e ainda parece sofrer com graves problemas de autoridade. Dessa forma, o Repórter não traz em si a função de significar algo ou representar um grupo, mas é um personagem com características próprias, não havendo razão, portanto para ele não ter um nome próprio.

Não obstante, Barreto sequer se mantém consistente ao nomear seus personagens. O chefe do Repórter, por exemplo, é tanto se referido como Diretor quanto como Chefe, causando uma confusão inicial: é como se o chamassem de Pedro e João ao mesmo tempo.

Além disso, a história ainda se mostra falha por apresentar uma gama enorme de caricaturas e estereótipos que se aproximam do ofensivo. As adolescentes que idolatram uma popstar, por exemplo, são irremediavelmente estúpidas, incapazes de demonstrar qualquer resquício de empatia ou de agir de forma racional. Elas surgem como jovens manipuladas e ignorantes, cegas pela sua “diva” da internet. Na mesma cena, uma beata surge pregando aos berros “OS FIÉIS SERÃO ARREBATADOS! O SENHOR NÃO NOS ABANDONOU!”. E, não muito depois, o leitor é apresentado a um blogueiro vil, irredimível, que mente, causa intrigas, é paranoico e incita o pânico apenas para se manter sob os holofotes. Se o Repórter é um personagem próprio, a maior parte dos coadjuvantes de fato não é – mas seus nomes gerais tornam-se problemáticos devido ao exagero de suas caracterizações.

É visível também o caráter machista que permeia a história, em que as personagens femininas são a Esposa, a Secretária e a Primeira Dama: mulheres que, ou são definidas a partir de seu relacionamento com um homem, ou assumem posições secundárias na narrativa. Não é o caso, porém, de uma crítica a um modo de organização social machista, pois além das mulheres não rejeitarem seu papel secundário, são descritas dentro dos estereótipos mais clichês: a Esposa sofre porque o marido está trabalhando em vez de lhe fazer companhia em casa, enquanto a Secretária surge com um agasalho de ginástica que “valoriza suas curvas”.

Barreto não mostra um cuidado maior na composição de seus diálogos. Quando o Diretor/Chefe dá uma bronca em seus funcionários, ele diz “Não tem nenhuma criança aqui” e absolutamente ninguém no ambiente repara, diante daquelas circunstâncias, no incrível mal gosto na escolha de palavras do sujeito.

O autor também chega a lembrar o pior de Raphael Draccon, devido a sua prosa repetitiva. Em determinado momento, o Repórter se depara com uma mãe que morreu abraçando a filha e reflete que “Se houvesse romantismo na morte, teria encontrado algum consolo na cena”. O tempo verbal utilizado já é suficiente para o leitor entender que o personagem concluiu que não havia romantismo na morte, mas, mesmo assim, numa tentativa de chocar, Barreto completa logo em seguida com “Não havia”. Quando o protagonista faz uma piada, o narrador assinala que apenas dois dos soldados que o acompanhavam riram. Não satisfeito, o autor completa em seguida com “O resto não”. A narrativa em Filhos do Fim do Mundo é repleta de sentenças similares.

Mais grave que a redundância, porém, é a falta de lógica de algumas frases. A reflexão do Repórter “Num combate, havia uma história a ser contada, alguém ficava feliz com a carnificina. Ninguém ganhou e, pela lógica natural da vida, só ele perdeu, pois carregaria as imagens para sempre” gera vários questionamentos: a existência de uma história depende da felicidade de um vencedor? Os vitoriosos sempre saem felizes de um combate? E, mais importante, como só o protagonista perdeu naquele evento, se ele estava acompanhado por outra pessoa que também carregaria aquelas imagens específicas?

Já a lição “Desejo é a palavra. Um milagre pressupõe a existência de alguém, ou de alguma força, capaz de realizá-lo. Um desejo é mais abstrato, na maioria das vezes, mais inacessível. Talvez só por isso os gênios, e não os deuses, concedam desejos” não faz o menor sentido e revela que filosofar não é o forte do autor. Nesse trecho, Barreto contrapõe desejo a milagre. Primeiro, ele afirma que milagres necessitam de um agente ou de uma força para serem realizados, enquanto desejos, sabe-se lá por qual razão, não precisam disso. Alega ainda que desejos aparentemente são realizados por gênios que, pela comparação, são seres mais poderosos que deuses. Por fim, defende que isso tudo significa que um desejo é normalmente mais inacessível que um milagre. Pobre do Repórter que só queria ver seu filho nascer vivo, então: mais sorte teria se tentasse caminhar sobre as águas. Ou seja, essa conclusão, evidentemente, não condiz com a realidade: um milagre, por definição, ocorre quando algo impossível ocorre, enquanto um desejo é apenas a manifestação da vontade de alguém. Assim, milagres, por tratarem do impossível, são bem mais inacessíveis que um desejo, que pode variar de querer ser rico e saudável ao imprescindível “Fora Temer”.

Não obstante, a história ainda culmina numa cena de ação completamente bizarra que transforma o Repórter em uma mistura de Legolas e 007 no clímax de Skyfall. Um episódio absurdo por natureza,  que destoa tanto do tom pesado da história quanto a provocação proferida pelo protagonista ao Blogueiro na cena: “Hora de apagar seu perfil!”.

Os Filhos do Fim do Mundo até contém uma proposta interessante, mas esta é constantemente sabotada pelos mais variados problemas da escrita de Barreto. No fim, um das poucas coisas positivas que o leitor conseguirá tirar do livro será, na verdade, a vontade de rever, ou a oportunidade de conhecer o ótimo Filhos da Esperança.

por Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo.

05 de agosto de 2016.


About the Author

Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo


2 Comments


  1.  

    Achei este site casualmente… o melhor que conheço no requisito de critica literária. digo isso por que outros sites, na maioria, são sites de resenha. Rodrigo Vai fundo na sua critica bem elaborada. Cara Ameio o site e as criticas do Rodrigo.




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      Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo

      Agradecemos muito seu comentário! Mostre o site para seus colegas e acesse mais vezes: atualizamos semanalmente com críticas novas. Abraços!





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