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Garota Exemplar.

16
Posted 05/28/2015 by in Suspense

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Nota:
 
 
 
 
 

5/ 5

Sumário

Genero:
 
Autor:
 
Editora:
 
Idioma Original:
 
Título: Garota Exemplar.
 
Título Original: Gone Girl.
 
Tradução: Alexandre Martins.
 
Edição: 2013.
 
Páginas: 448.
 
Capa: Darren Haggar.
 
Resumo:

Apesar de alguns deslizes, Garota Exemplar configura-se um excelente suspense policial, com um mistério bem desenvolvido, personagens memoráveis e um tema relevante.

by Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo
Full Article

“E ainda dizem que casamento dá muito trabalho”, reflete a protagonista em determinado ponto de Garota Exemplar. Em seu romance, a autora Gillian Flynn utiliza uma estrutura típica de suspense policial para desconstruir a instituição do casamento. Seu objetivo é expor as dificuldades de manter uma relação duradoura e, por intermédio dos conflitos entre os personagens principais, levar o leitor a refletir sobre o assunto.

Em seu quinto aniversário de casamento, Nick Dunne recebe a notícia de que sua esposa, Amy Dunne, desapareceu. Sua sala está completamente revirada, a porta da rua está escancarada e o gato o espera sozinho nas escadas. Nick não possui um álibi convincente e o depoimento dos vizinhos à polícia que o casal havia discutido aos berros na noite anterior faz dele o principal suspeito.

Garota Exemplar é narrado em primeira pessoa. Dado a natureza do livro, a autora abusa do conceito de “narrador não confiável” – um artifício comum dessa perspectiva – para criar um clima de paranoia e tensão. Em um momento emblemático, Nick afirma “Sou um grande fã da mentira por omissão” e o alerta ao leitor não poderia ficar mais claro.

Flynn, no entanto, mostra cuidado em justamente não mentir durante a narrativa. Vários autores, ao construir histórias do gênero, acabam cometendo o mesmo erro: com o único intuito de despistar o leitor, eles fazem os personagens inocentes pensarem em algo suspeito e os culpados jamais refletirem sobre seus crimes e motivações sem qualquer motivo. Essa tática é frágil e desonesta, pois, embora sirva seu propósito no momento, basta uma análise retrospectiva para revelar sua artificialidade e fazer com que a história deixe de produzir um efeito duradouro. Para contornar esse problema, Flynn lança mão de situações ambíguas para construir o suspense e manter o mistério sem, com isso, enganar o leitor.

Em determinado momento, Nick repreende-se por parecer calmo demais e ainda reflete que já havia mentido nove vezes para a polícia durante seu interrogatório, o que levanta a suspeita do leitor. Só que o personagem é sempre caracterizado por sua boa aparência, sua falta de empatia e sua insistência em causar a impressão de bom moço. Ou seja, seu comportamento poderia muito bem ser devido a sua personalidade e não a sua possível culpa. Logo depois de revelar essa informação, ele também reflete sobre o dia que sua irmã lhe disse “Você literalmente mentiria, enganaria e roubaria – caramba, você até mataria – para convencer as pessoas de que é um bom sujeito”. É importante compreender como a dupla função dessa sentença sustenta o mistério: de um lado ela poderia estar simplesmente justificando as mentiras, mas do outro poderia estar também revelando sua motivação para o assassinato da esposa.

A primeira metade de Garota Exemplar é construída dessa forma, com inúmeros diálogos e reflexões assumindo diversos papéis na narrativa. Em outro instante, por exemplo, Nick pensa “A Amy de hoje era agressiva o suficiente para você às vezes querer machucá-la”. Ao mesmo tempo em que essa sentença faz o leitor novamente suspeitar do personagem, ela revela bastante sobre a dinâmica disfuncional da relação do casal.

Afinal, o tema do livro é a crítica ao comportamento autodestrutivo dos cônjuges em seu casamento. A história põe em pauta a costumeira falta de comunicação, as agressivas disputas internas sobre quem está certo e quem não está (quando o melhor momento do dia é provar ao seu parceiro que ele está errado e que você avisou) e o fato de muitos se casarem com uma ideia em vez de com uma pessoa, amando somente os melhores aspectos do parceiro, idealizando-o.

Embora o leitor comece acompanhando o ponto de vista de Nick, é Amy a protagonista do livro, uma vez que seu arco narrativo está intrinsecamente ligado a esse estigma. Seus pais, por exemplo, a idealizam ao escrever uma série de romances em sua homenagem, chamados de “Amy Exemplar”, em que a personagem título realiza todos os sonhos deles para forçar Amy, de forma passivo-agressiva, a se esforçar para dar seu melhor também: “Ainda assim, não posso deixar de notar que sempre que faço algo de um jeito errado, Amy faz direito: quando finalmente desisti do violino, aos doze anos, Amy se revelou um prodígio no livro seguinte. (Puxa vida, violino dá trabalho, mas trabalhar duro é a única forma de melhorar!)“.

A estratégia dos pais, como é de se esperar, surte um efeito terrível em Amy. A personagem acaba incorporando o significado do título de seu livro em sua filosofia de vida. Ela adquire um distúrbio comportamental intenso que a faz se divertir ao assumir uma postura que corresponde à visão idealizada que as outras pessoas têm dela ao mesmo tempo em que se considera absolutamente perfeita e superior a elas – levando a uma postura intensamente arrogante com o mundo que a cerca.

O que inevitavelmente se reflete na visão que ela tem do casamento. Amy quer mais que tudo provar a si mesma que sua relação é melhor que a das outras pessoas – que ela denomina de “macacos amestrados” – sem perceber que suas ações a rebaixam ao mesmo patamar que elas: sua última decisão no livro, por exemplo, é excelente por resumi-la ao clichê da mulher desesperada para manter a relação, embora a protagonista não se conscientize disso e continue acreditando ser especial.

A autora acerta ao montar a estrutura narrativa alternando entre os pontos de vista de Amy em seu diário e de Nick durante a investigação. Desse modo, um paralelo é construído entre o passado e o presente da relação, contrapondo as visões distintas que os personagens têm. Isso pode ser observado na contradição entre o diálogo de Nick em seu capítulo (“Amy, não entendo por que tenho que provar meu amor por você me lembrando exatamente das mesmas coisas que você, exatamente da mesma forma que você. Isso não significa que não amo nossa vida juntos”) e a passagem no diário dela (“Gosto de pensar que sou confiante, segura e madura o suficiente para saber que Nick me ama sem que tenha de provar isso constantemente”). Flynn faz questão de trabalhar com a desilusão tanto no nível pessoal quanto sobre o parceiro, quando, com o convívio diário, acaba-se descobrindo dificuldades de compreensão mútua antes ignoradas.

A autora também é brilhante ao acentuar em ambas as partes do livro o desacordo entre os personagens. Nos capítulo de Nick, seus sentimentos em relação à esposa começam melancólicos (“Ela disse essas últimas palavras com o ritmo infantil que algum dia eu já achei encantador”), mas eventualmente avançam para a construção de imagens bem mais agressivas e intensas (“Minha esposa não era mais minha esposa, mas um nó de arame farpado me intimando a desfazê-lo”). Enquanto isso, na visão de Amy, a passividade e indiferença de seu marido evoluem para um comportamento errático e violento.

Mas o mistério no início de Garota Exemplar não está centrado apenas em Nick. Ele é o principal suspeito pelo desaparecimento da esposa, mas várias pistas são posicionadas para indicar outro resultado: seu pai insano, que odeia mulheres, havia fugido do asilo no mesmo dia; sua irmã Margo apresenta uma relação íntima demais com ele, sugerindo o crime por ciúmes; um ex-namorado possessivo de Amy aparece durante as investigações e levanta suspeitas; até mesmo a própria Amy poderia ter orquestrado tudo, visto que ela é recorrentemente descrita como inteligente, disciplinada e capaz de planejar grandes atos com antecedência. A autora abre muitas possibilidades para o leitor conduzir sua própria investigação e utiliza a ambiguidade das sentenças para tornar esse trabalho mais complexo e gratificante.

A construção do suspense também pode ser observada na descrição dos ambientes e na apresentação das cenas. A atmosfera sombria da história, por exemplo, está presente na descrição da vizinhança de Nick: “Entrar em nosso condomínio me dava arrepios algumas vezes, o número de casas escuras e vazias – casas que nunca conheceram moradores, ou que haviam tido donos e os viram ser expulsos, a casa se erguendo triunfantemente esvaziada, desumana”.  Enquanto no início do livro, quando Amy narra seu primeiro encontro com Nick, já é possível notar o personagem aparecendo de forma ameaçadora: “Estou caminhando pela Sétima Avenida, aproveitando a hora do almoço para contemplar a bancada das mercearias – intermináveis recipientes plásticos com melões, verdes e amarelos, colocados sobre o gelo como se fossem a pesca do dia –, e posso sentir um homem grudado em mim enquanto avanço, então olho o intruso com o canto do olho e me dou conta de quem é”.

É igualmente fundamental perceber que os dois personagens principais jamais são classificados pela autora de forma maniqueísta. Ambos conseguem ser pessoas terríveis e maravilhosas em momentos diversos, o que torna a dinâmica deles com o leitor mais complexa: Flynn não quer que o leitor torça para um deles, seu intuito é fazer com que o leitor sinta empatia por características de ambos, mas também odeie traços dos dois. O resultado é uma análise mais profunda sobre a relação, onde o certo e o errado tão buscados pelas partes se tornam conceitos turvos e de difícil identificação.

A partir da metade da história – onde ocorre o principal ponto de virada – a narrativa modifica-se, resolvendo o mistério de “o que aconteceu?” e passando para as consequências da revelação. Essa grande reviravolta é importantíssima para o livro por intensificar o desenvolvimento de seu tema: se antes o leitor acompanhava o contraponto de ideias entre Nick e Amy, agora ele recebe uma terceira visão sobre os acontecimentos. Extremamente agressiva e perversa, ela é responsável por tirar o leitor da zona de conforto e forçá-lo a analisar os eventos de forma sufocante.

Garota Exemplar só peca levemente em seu terceiro ato, que pode surgir um pouco anticlimático devido a alguns personagens simplesmente “desistirem” da situação. Além disso, existem alguns furos na história, como a incongruência de Nick, em meio de sérios problemas financeiros, conseguir contratar um advogado famoso, cuja comissão chega a cem mil dólares.

Apesar desses pequenos deslizes, Garota Exemplar  configura-se um excelente suspense policial com um mistério bem desenvolvido, personagens memoráveis e um tema relevante. A autora constrói uma crítica contundente que, explorada admiravelmente ao longo da narrativa, faz o leitor refletir diversas vezes durante a leitura – e, talvez, também se divertir imaginando as expressões que o marido de Flynn fez enquanto lia os rascunhos da história.

por Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo.

Publicado originalmente em 30 de setembro de 2014.


About the Author

Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo


16 Comments


  1.  
    tamara Padilha

    Oie. Nossa, que crítica super bem feita. Também gosto muito desse lado reflexivo do livro, onde analisamos quem somos em um casamento e a verdade que você falou de muitas vezes casarmos com uma ideia. Já li há bastante tempo por isso não lembro tão bem desses deslises como Nick estar quase falido e contratar um advogado que cobrava caro. Não gosto tanto do desfecho desse livro, mas levando em consideração tudo ele foi apropriado e surpreendente. Parabéns pela escrita e por todas as ideias expostas, gostei muito.




  2.  

    Não sei como ainda não li esse livro, apesar de já ter assistido o filme e adorado tudo. Já li muitos comentários positivos sobre o enredo, o que só me motiva ainda mais a querer lê-lo. Sem contar que amo um bom suspense policial, na verdade é um dos meus gêneros favoritos também. Adorei a parte que você refletiu sobre o casamento rs
    Beijos, Fer ♡♡♡




  3.  

    Olá,tudo bem?
    Eu me encantei por essa história ao ver a adaptação, que achei incrível, e até tentei ler o livro em seguida, mas na época não consegui. Agora,depois da sua crítica extremamente bem construída, sinto que devo dar mais uma chance ao livro que parece ser ainda mais excelente do que o filme.
    Amei sua resenha e seu blog.
    Bjs!




  4.  

    Na época do lançamento deste livro aqui no Brasil, comprei mega empolgada, mas ficou na estante e eu nunca li. Acabei assistindo o filme e não achei a história tão incrivelmente interessante como todos falara. Lendo a sia resenha com elogios consistentes, penso que a leitura seroa muito mais apropriada que o filme. Acho que vou dar mais uma chance!




  5.  

    Oie!
    Nunca senti vontade de ler esse livro, só vejo boas críticas até mesmo com relação ao filme e apesar de amar suspenses policiais a ponto de ser louca por CSI e Criminal Minds, e outros do gênero não desejo pegar essa leitura… vá entender. Porém sua resenha foi muito bem escrita e me fez repensar meus motivos, devo dizer que ainda não sei, mas agora penso que deveria pelo menos ver o filme, esse suspense todo e personagens não confiáveis vão me deixar louca, assim como as reflexões a cerca do casamento, é incrível a quantidade de casais que conseguem desconstruir o amor que eles possuíam no início.
    Parabéns e bjokas




  6.  

    Oi, esse livro é conhecido por todos, mas ainda não li, só vi o filme e já achei a relação dos dois bem perturbadora e achei a Amy bem desequilibrada e perturbadora, mas o Nick não fica para trás já que achei ele bem indiferente ao sumiço de sua esposa e percebe-se que eles vivem um casamento perfeito de fachada, já que parecem que não se suportam e não conhecem realmente um ao outro. Em breve lerei o livro para formar melhor uma opinião e conhecer mais dessas mentes perturbadoras.
    bjus




  7.  

    Oii!!

    Nossa que critica mais completa e bem escrita! Eu ganhei esse livro há muito tempo, tentei ler e não consegui, achei muito detalhado e cansativo no início, não consegui me envolver de jeito nenhum.
    O que foi uma pena pois o enredo é incrível.
    A obra tem uma história ótima. Adorei sua crítica. Parabéns.

    Beijinhos




  8.  

    Olá!
    Ainda não li nada da autora e tenho muita curiosidade.
    Acho que esse livro é um pouco perturbador, mas instigante. Concordo contigo que, sim, muitos autores nos traem ao nos fazer ficar duvidando de todos e tudo. Achei legal a autora não ter feito isso, pois parece ter tornado a história ainda melhor.
    É uma temática bastante complexa, mas acho que, mesmo os deslizes, ela fez isso muito bem.
    Gostei da sua resenha e da sua sinceridade.
    Beijos,
    Um Oceano de Histórias




  9.  

    Olá, desde que esse livro foi lançado eu morro de curiosidade para ler. Eu acho a história meio perturbadora e totalmente instigante. O enredo desse livro me parece ser muito complexo mas que me faria ficar grudada nas páginas até terminar de ler tudo. Achei a sua resenha bem sincera, mostrando todos os pontos do livro e isso é bem legal

    http://vocedebemcomaleitura.blogspot.com.br/




  10.  
    Roberta Ferreira

    Olá, tudo bom?
    Morro de curiosidade em ler esse livro, apesar de várias resenhas negativas. Me parece ser uma história perturbadora e ao mesmo tempo super instigante. O tipo de livro que enquanto não descobrir o que está acontecendo, não irei soltar. Parabéns pela resenha, mostrou todos os pontos interessantes do livro de um jeito bastante sincero! Adorei.
    Beijos




  11.  

    Olá, tudo bom?
    Já vi o filme, mas sempre quis ler o livro. Gostei bastante do filme, que tem uma história meio perturbadora. Parabéns pela resenha, mostrou todos os pontos do livro, de um jeito bastante critico!
    Beijos.




  12.  

    Para ser bem sincera, não sou muito chegada a suspenses policiais, por isso não me interessei nem pelo livro nem pelo filme. Mas achei interessante essa questão dos protagonistas serem terríveis ou maravilhosos em momentos diversos, acho que isso os torna bem mais complexos sim e, portanto, mais interessantes. Que bom que mesmo com os pequenos deslizes você gostou tanto do livro, mas acho que não leria.

    Beijo!

    Ju – Entre Palcos e Livros




  13.  
    Gaby Marques

    Amo esse livro!
    Adoro a forma como a autora descreve os dramas dos personagens, suas mentes perturbadas e os suspenses que cria… Principalmente como ela cria os personagens em si; sempre tão reais que assusta. Adorei a Amy e, em certo ponto, gostei muito do Nick. Apesar dos pesares, ambos foram incríveis. O final meio que explodiu minha cabeça, pois fiquei horas e horas pensando naquilo. Só posso dizer que Flynn é incrível em tudo que escreve (ou quase).
    Sua crítica ficou ótima! Adorei os pontos que ressaltou sobre a trama e saber que também gostou da obra.
    Beijos




  14.  
    Profissão: Leitora

    Eu tenho esse livro, e já perdi a conta de quantas vezes o peguei pra ler, mas sempre deixo pra depois. Eu amo suspense e desde a primeira vez que ouvi falar dessa história fiquei curiosa pra ler. A sua opinião só aguçou mais ainda a minha curiosidade. Mesmo você falando que existem alguns deslizes, ainda assim pretendo lê-lo.

    ;D
    Nelmaliana Oliveira




  15.  
    Manoel Alves

    Olá
    Eu simplesmente amo de mais essa mulher, tanto a escritora quanto essa protagonista . O Filme baseando na obra aê ficou muito bem feito, tipo assisti milhares de vezes, só fiquei chateado por não ter levado o Oscar na Única indicação. A obra gera toda a.curiosidade e para saber o final e o final chega e surpreende todo mundo. AChei bem bacana a sua crítica
    Abçs




  16.  
    Lucas Gabriel

    Uau, excelente resenha! Adorei!





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