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House of Chains.

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Posted 01/29/2017 by in Fantasia

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Nota:
 
 
 
 
 

4/ 5

Sumário

Genero:
 
Autor:
 
Editora:
 
Idioma Original:
 
Título: House of Chains.
 
Título Original: House of Chains.
 
Tradução: Lido no original.
 
Edição: 2007.
 
Páginas: 1037.
 
Capa: Steve Stone.
 
Resumo:

segue o padrão ambicioso da série de fantasia escrita por Steven Erikson sofrendo com apenas alguns percalços, sem jamais deixar de aprofundar com eficiência o estudo de diversos personagens e temas complexos. Dessa forma, ele ser o volume mais fraco até o momento não o impede de ainda se configurar um ótimo livro.

by Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo
Full Article

O quarto volume da série O Livro Malazano dos Caídos, escrita por Steven Erikson, House of Chains / Casa de Correntes revela-se o livro mais problemático até então. Embora permaneça impressionando o leitor com a complexidade temática da história, sua estrutura frágil acaba sabotando a força da narrativa.

A história do romance volta para o deserto das Sete Cidades, no momento em que a Adjunta Tavore do Império Malazano chega com seu exército para por fim à rebelião de Sha’ik. A inevitável batalha entre as duas forças acaba gerando uma confluência de poderes, fazendo muitos outros personagens interessarem-se pelo resultado do evento.

O primeiro ato do livro, entretanto, nada tem a ver com Tavore e a rebelião, preferindo mergulhar o leitor no ponto de vista de um bárbaro chamado Karsa Orlong. Trata-se de uma mudança na estrutura típica da série, que costuma alternar entre várias perspectivas em um só capítulo. Em House of Chains, contudo, o leitor segue somente Karsa por mais de 200 páginas.

Erikson aproveita tal mudança para retomar alguns elementos narrativos presentes no início da série, especialmente fazer da história um grande quebra-cabeça. Karsa é um guerreiro Teblor, que vive em uma planície distante, isolado da sociedade, e sua visão de mundo naturalmente é limitada. O autor, então, acorrenta o leitor na perspectiva do personagem, mantendo nas descrições a mesma linguagem empregada pelo bárbaro, que lança mão de termos próprios para se referir a coisas que o leitor já conhece por outros nomes. Com relação aos acontecimentos dos outros livros, o leitor sequer é situado no tempo ou no espaço, sabendo apenas o que Karsa sabe.

Erikson, aliás, realiza um trabalho linguístico bem interessante com essa ideia. O protagonista, por exemplo, refere-se a seres místicos (“Forkassal“) e objetos (“Blood Oil”) com outros nomes, levando o leitor a um jogo de dedução sobre seu significado, e o personagem volta e meia ainda se encontra em situações em que não possui uma palavra para descrever o que está ocorrendo e, por esse motivo, falha em compreender os totalmente eventos.

Além disso, Erikson aproveita a caracterização comum de personagens bárbaros no gênero fantasia para discutir a relativização de ações cruéis devido a sua aceitação na cultura de origem. A vila de Karsa aplaude atos de brutalidade – sua despedida estilo “Vai com Deus” é “May you slay a thousand children” –, encorajando uma mentalidade animalesca, que não enxerga valor na vida humana e estimula atos de violência. Dessa forma, quando Karsa estupra, assassina e mutila, moralidade não é um fator presente em seu raciocínio, pois tais atos não são reprováveis na sociedade onde cresceu, conferindo-lhe, pelo contrário, fama e glória. A questão que Erikson impõe ao leitor é: a matança do protagonista ser um feito admirável para seu povo redime o personagem? Ele não saber que tais ações são abjetas, torna-as menos repreensíveis? O autor do crime precisa saber que está cometendo um crime para ser julgado moralmente?  Erikson trabalha essa questão provocando o leitor por meio das ações do personagem e da terminologia específica que usa – “children”, por exemplo, choca em sua subversão –, e na evolução do arco narrativo do personagem, cujo engrandecimento não é apenas cultural, mas moral: Karsa começa a pincelar o entendimento de que há valores universais que deveriam resistir às diferenças pontuais de comportamento.

Dessa forma, o fato de ele começar a compreender essas nuances e continuar agindo como um maníaco violento torna-o um indivíduo fascinante. Afinal, Karsa, apesar de ser um bárbaro, é tudo menos um personagem plano, surpreendendo constantemente aqueles a sua volta e o leitor. Por um lado, ele apresenta pensamentos simples que ignoram escala e revelam sua visão simplista de mundo, como, por exemplo, a ideia de capturar a cidade de Darujhistan sozinho. Por outro, essas ideias são frequentemente contrapostas a insights certeiros: em determinado momento, o guerreiro enxerga a verdadeira natureza da rebelião de Sha’ik, percebendo que o povo jamais lucrará com ela independentemente do resultado, uma vez que estão lutando não pelo fim das desigualdades, mas para decidir quem vai explorá-las (“What matter the colour of the colar around a man’s neck if the chains linked to them were identical”, o personagem aponta).

A grande luta de Karsa é justamente livrar as pessoas de qualquer tipo de aprisionamento. Sua jornada em House of Chains leva-o a entender que uma prisão não ocorre somente no plano físico, mas também no espiritual. Sua relação com os deuses de sua vila, por exemplo, progride com o tempo, com o protagonista questionando se a influência deles realmente é positiva: Karsa constata que a função da religião é dar conforto para as pessoas, oferecendo compaixão, e que, se ela também almeja controlar o modo de viver delas, a fé acaba somente colocando mais um par de correntes no indivíduo.

Já sobre a trama da rebelião de Sha’ik, é importante ressaltar algumas das estratégias narrativas de Erikson. A construção da personalidade de Tavore, por exemplo, é feita de longe, sem um ponto de vista próprio. Como a personagem é descrita como sendo fria e distante, seu desenvolvimento ocorrer por meio das reflexões de outros personagens reforça essa característica da personagem. No entanto, o autor preocupa-se em fugir do estereótipo, entregando a Tavore algumas cenas que a tornam mais humana e complexa, principalmente por meio de sua relação com o capitão Gamet.

Contrapondo-se a ela está sua irmã, Felisin. Uma das grandes mensagens da série Malazan é a condenação da ausência de sentimentos. No entanto, a jornada de Felisin em House of Chains a posiciona como um dos pilares da indiferença na narrativa. Seu arco dramático é trágico, pois a garota deseja nunca ter tido que assumir a função que tem, não vendo, porém, uma alternativa para conseguir confrontar Tavore.

A forma como Erikson decide construir o clímax do livro, portanto, é apropriada: em termos bem gerais, na cena em questão, o autor insere o leitor em um ponto de vista fatalista, que não enxerga salvação para seu dilema. A intenção é justamente reforçar o elemento da tragédia, pois deixa o leitor ciente do quão indefeso se encontra o personagem que acompanha, cujo destino terrível é claro e inescapável.

Um dos temas de House of Chains importante para o sucesso do clímax é o da multiplicidade de identidades. Vários personagens no livro adotam um segundo nome que revela uma mudança em sua personalidade e, na cena em questão, Erikson abandona um dos nomes de um personagem para reforçar o drama pessoal da situação.

O autor também merece elogios pela rigidez com que relaciona certas palavras a temas e personagens. Se alguém é descrito como quebrado, partido ou defeituoso, por exemplo, as chances são altas de tal figura ser eventualmente associada ao antagonista principal da série, cujo nome faz parte do mesmo campo semântico. Em vista disso, tal rigor acaba recompensando um leitor mais atento.

Outra estratégia de que o autor lança mão é o uso de aliterações. Elas não chegam a assumir um papel tão fundamental quanto em Deadhouse Gates, mas sempre reforçam algum elemento das cenas em que aparecem: a repetição dos sons consonantais das letras ‘f’ e ‘b’, por exemplo, reflete os movimentos e as batidas repetidas de Karsa enquanto este forja sua arma: “Smaller flakes removed from the twin edges, fist one side, then flipping the blade between blows, back and forth, all the way up the length”.

Aqui, Erikson também continua seu padrão de criar personagens cômicos pela construção de uma voz única que brinca com as características da linguagem. Neste romance, surge Greyfrog, um demônio que, por se comunicar telepaticamente, tem o costume de dizer expressamente a entonação de suas frases: “What comes cannot be chained. Warning. Caution. Remain here, lovely child. My brother can come to no further harm, but my path is made clear. Glee. I shall eat humans this night”.

Com relação a sua conexão com os livros anteriores, House of Chains, retoma alguns temas principais da série, como a reprovabilidade da traição (“Betrayal was a mystery. Inexplicable to Lostara. She only knew that it delivered the deepest wounds of all”) e da indiferença, e ainda cria um rima temática eficiente com uma das frases mais marcantes de Deadhouse Gates (“Children are dying…”), quando justamente um dos antagonistas expõe uma das consequências de seu plano (“Children will die”).

Todavia, apesar de deter todas essas qualidades, o romance traz falhas em diversos pontos de sua estrutura. De início, já é perceptível a dificuldade de Erikson em retomar alguns pontos de vista do segundo volume: Kalam e Crokus saem da inércia de forma artificial, pelo impulso de um deus que age basicamente como um daqueles NPCs iniciais de uma partida de RPG.

Além disso, alguns eventos da metade do livro mostram-se bem inconsequentes para a história, como o confronto aleatório de Kalam com um demônio antigo. Se o resultado de tal luta é retomado posteriormente em outros volumes – um hábito do autor –, não justifica o fato de ele ser tão irrelevante aqui.   

Assim, é inegável que o romance contém sua parcela de cenas supérfluas e desnecessárias: a luta de Karsa contra um tubarão perto do final do primeiro ato também não avança a trama e nem desenvolve o personagem, uma vez que a força do sujeito já foi muito bem estabelecida quando o evento ocorre. Ou seja, ela é apenas repetitiva em seu propósito.

Erikson também peca em apelar mais de uma vez para uma cena de morte “falsa”, proporcionando uma emoção um tanto quanto vazia. Igualmente repreensíveis são os instantes em que um ponto de vista é cortado justamente quando uma informação valiosa vai ser revelada: o gancho até funciona em prender a atenção, mas é um recurso bem pobre quando comparado ao padrão estabelecido para a série.

Inferior também é a amizade entre os personagens de Onrack e Trull quando posta diante do par de criaturas fantásticas de Deadhouse Gates: se o relacionamento de Mappo e Icarium surgia de uma tragédia que também se estendia para o futuro dos dois, o de Onrack e Trull nasce do acaso e ainda demora para tomar algum rumo e conseguir um objetivo. Pior ainda é atestar que os dois ficam sem um clímax, uma vez que sua trama é interrompida justamente quando o mesmo vai ocorrer.

Por fim, Erikson comete o erro de continuar introduzindo personagens novos mesmo quando a narrativa se aproxima do fim, dando pouco ou quase nenhum espaço para que eles sejam desenvolvidos, além de retardar o ritmo da narrativa.

House of Chains / Casa de Correntes segue o padrão ambicioso da série de fantasia escrita por Steven Erikson sofrendo com apenas alguns percalços, sem jamais deixar de aprofundar com eficiência o estudo de diversos personagens e temas complexos. Dessa forma, ele ser o volume mais fraco até o momento não o impede de ainda se configurar um ótimo livro.

por Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo.

29 de janeiro de 2017.


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Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo


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