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Leviatã: A missão secreta.

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Posted 08/28/2016 by in Infantojuvenil

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Nota:
 
 
 
 
 

3/ 5

Sumário

Genero: ,
 
Autor:
 
Editora:
 
Idioma Original:
 
Título Original: Leviathan.
 
Tradução: André Gordirro.
 
Edição: 2012.
 
Páginas: 365.
 
Capa: Sammy Yuen Jr.
 
Resumo:

Leviatã é um livro empolgante que traz uma dupla de personagens principais cativante e divertida. Scott Westerfeld, entretanto, parece se distrair com as cenas de ação, esquecendo-se de explorar ao máximo os conflitos de sua história.

by Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo
Full Article

Leviatã: A missão secreta, escrito por Scott Westerfeld, é um romance infantojuvenil com estética steampunk que prende a atenção do leitor com sua narrativa empolgante e universo alternativo único. No entanto, o autor falha em não aproveitar o potencial de sua história, deixando de explorar alguns de seus elementos.

O livro segue dois personagens principais. O protagonista é o jovem príncipe da Áustria, Aleksandar, que precisa escapar rapidamente do país, fugindo de perseguidores alemães, logo após o estopim da Primeira Guerra Mundial. Já Deryn Sharp é uma menina escocesa que decide fingir ser um garoto para realizar o sonho de ser aceita na Força Aérea Inglesa.

O autor alterna entre os dois personagens a cada dois capítulos e eventualmente conecta suas jornadas. O príncipe Alek, entretanto, é quem ganha maior destaque. Seus conflitos são os mais impactantes: durante sua incansável fuga, o menino, que inicia a narrativa brincando de batalha com seus bonecos, se vê subitamente no meio de uma guerra real com a obrigação de aceitar uma responsabilidade gigantesca, enquanto sofre com a solidão de ter sido afastado de sua casa e família. Há vários instantes em que o personagem sente-se desolado, esmagado por seus deveres. Embora seja inteligente, Alek ainda se revela ingênuo, por ter vivido em isolamento, e distante de seu povo, mostrando dificuldade em compreender os problemas que os afligem. 

Enquanto Alek tem um objetivo claro – fugir dos alemães –, Deryn é movida por incidentes. Trata-se daquele típico personagem aventureiro que não perde tempo em se meter em problemas: já em sua primeira experiência na Força Aérea, ela é levada por uma tempestade, precisando ser resgatada por uma imensa aeronave chamada Leviatã. Sua jornada, porém, não tem uma meta definida. A garota está apenas se divertindo e vivendo aventuras.

Alguns dos personagens secundários merecem destaque por estabelecerem relações complexas com os dois. O conde Volger, por exemplo, é um homem de poucas palavras que volta e meia menospreza Alek para logo em seguida reforçar o quão importante o garoto é para seu povo: o personagem ressente a existência do príncipe, mas compreende a relevância política do menino. Já, viajando com Deryn, a cientista Nora Barlow parece estar sempre por um triz de descobrir o segredo da menina, embora a tenha colocado como sua “protegida” – o que faz Nora assumir, ao mesmo tempo, o papel de guardiã e possível delatora de Deryn. Outros coadjuvantes, entretanto, como o mecânico Klopp e o aspirante Newkirk, são unidimensionais e funcionam apenas como suporte para a narrativa.

A história do livro transcorre no início da Primeira Guerra Mundial, mas em um universo alternativo, onde a humanidade dividiu-se belicamente em darwinistas e mekanistas. Os primeiros, trabalhando com DNA após descobertas feitas por Charles Darwin, conseguem montar criaturas modificadas geneticamente com fim armamentista ou de transporte. O próprio Leviatã que salva Deryn é uma gigantesca baleia voadora, composta por diversos outros animais, que contém uma tripulação inteira movimentando-se por ela e controlando-a por suas entranhas. Leviatã, porém, não é apenas um organismo, mas um ecossistema com diversas criaturas lutando em equilíbrio para mantê-lo voando. Já os mekanistas abominam o uso de animais na guerra, embora se inspirem neles para construir suas imensas máquinas movidas a vapor com inúmeros membros.

Todos esses monstros ajudam a estabelecer o livro no campo do fantástico. No momento em que Deryn está conhecendo o Leviatã, observando suas fendas e os morcegos pousados nelas, a narrativa é a de uma típica história de fantasia, repleta de criaturas exóticas, situações absurdas e nomenclatura própria. O tom da aventura também é leve – principalmente considerando a época em que transcorre – e o narrador indireto livre é frequentemente empregado com o objetivo de pegar emprestado a voz das crianças e captar sua energia e visão de mundo.  Isso é refletido em algumas descrições que, brincalhonas, mostram-se adequadas ao gênero infantojuvenil: “As correias de couro estavam ensopadas com a chuva, tão apertadas que não passava nem pensamento”.

Westerfeld também merece créditos pela construção de seu texto, criando imagens que contribuem para o tema de determinadas cenas. Após um dos personagens descobrir que seus pais haviam morrido, por exemplo, há a seguinte passagem que simboliza seus sentimentos no momento:  Um trecho do terreno irregular fez a cabine tremer como se o mundo estivesse fora do eixo.

Logo no primeiro capítulo já é possível observar o exímio trabalho na condução narrativa por parte do autor. O livro abre com uma guerra que eventualmente se revela uma brincadeira de criança. A partir desse ponto, porém, ocorre um exercício de treinamento que, na verdade, se mostra um sequestro disfarçado. Ou seja, o autor subverte as expectativas do leitor ao inverter a relação perigo/realidade.

Do mesmo modo, Westerfeld merece créditos por manter sua estrutura narrativa de dois capítulos por personagem mesmo quando as tramas são conectadas: apesar de Alek e Deryn estarem juntos, é fácil identificar qual ponto de vista está presente pela mudança no linguajar e na escolha de nomes utilizados: como Alek não sabe o nome do médico do Leviatã, por exemplo, o personagem é apenas referido em seu capítulo como “cientista”, pois é a única imagem que o garoto tem dele.

Westerfeld, todavia, tem um ponto fraco evidente: suas descrições são superficiais e breves, não entregando ao leitor informações necessárias para imaginar as criaturas detalhadamente. O livro, porém, contém ótimas ilustrações feitas por Keith Thompson que ajudam a visualizar esse universo de forma mais rica.

Além disso, o autor também deixa de aproveitar algumas das possibilidades narrativas de sua história. Seu erro mais grave é não dar finalidade ao fato de Deryn fingir ser um menino: tirando algumas passagens bem humoradas, a situação não culmina em nada, apenas gerando a tensão proveniente da possibilidade de ela ser descoberta. Com isso, Deryn acaba ficando sem um clímax apropriado, já que o final do livro não conclui de modo algum sua jornada até então.

Aliás, o clímax desaponta justamente por se limitar a uma sequência de ação.  Na cena, não há qualquer conflito dramático ocorrendo entre os personagens; há somente o perigo de eles todos morrerem – prospecto o qual o leitor nunca acredita de fato por se tratar de um romance infantojuvenil.

Leviatã é um livro empolgante que traz uma dupla de personagens principais cativante e divertida. Scott Westerfeld, entretanto, parece se distrair com as cenas de ação, esquecendo-se de explorar ao máximo os conflitos de sua história.

por Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo.

28 de agosto de 2016.


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Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo


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