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Leviathan Wakes / Leviatã Desperta.

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Posted 11/04/2016 by in F. Científica

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Nota:
 
 
 
 
 

4/ 5

Sumário

Genero:
 
Autor:
 
Editora: ,
 
Idioma Original:
 
Título: Leviathan Wakes.
 
Título Original: Leviathan Wakes.
 
Tradução: Lido no original.
 
Edição: 2012.
 
Páginas: 561.
 
Capa: Daniel Dociu.
 
Resumo:

Leviathan Wakes é um romance de ficção científica ciente de que não precisa sacrificar seus personagens para construir uma narrativa empolgante, mostrando-se capaz de amarrar cenas de ação em uma história memorável e relevante.

by Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo
Full Article

Parte noir, parte space opera, Leviathan Wakes / Leviatã Desperta é um romance de ficção científica eficiente: escrito por James S. A. Corey, o primeiro volume da série The Expanse consegue equilibrar celeridade narrativa com o desenvolvimento de personagens e ideias.

Leviatã Desperta acompanha inicialmente uma jovem piloto chamada Juliette Mao, que se vê presa após sua espaçonave, Scopuli, ser abordada por piratas. Quando consegue escapar do confinamento, porém, Mao depara-se com seu capitão sendo engolido por uma substância misteriosa e percebe que seus problemas são ainda maiores do que imaginava. Enquanto isso, no Cinturão de Asteroides perto de Júpiter, o detetive Miller recebe a missão de sequestrar justamente Mao e devolvê-la a seus pais, que estão preocupados com sua segurança. Já James Holden, o oficial executivo de uma mineradora de gelo espacial, recebe o sinal de socorro de Scopuli e decide formar uma equipe de resgate para averiguar o que está acontecendo.

Apesar de abrir a narrativa com Mao, Leviatã Desperta passa a alternar somente entre as perspectivas de Miller e Holden, colocando a piloto como o objetivo maior do detetive. A narrativa do livro é ágil, graças a capítulos que raramente ultrapassam quatro páginas e sempre finalizam com um gancho.

O ponto de vista de Miller flerta fartamente com o noir, uma vez que o personagem – que usa até um chapéu característico do gênero – reflete de forma pessimista sobre os elementos de seu cotidiano, como a imundice do mundo e a inevitabilidade da violência. Mao é sua femme fatale, seduzindo-o a partir do sentido que entrega a sua vida: a missão de Miller não demora em ter caráter pessoal, finalmente lhe entregando um propósito, uma última e derradeira chance de fazer alguma diferença.

Corey (pseudônimo dos escritores Daniel Abraham e Ty Franck) trabalha bem com a perspectiva limitada do detetive, posicionando algumas descrições de natureza suspeita para fazer o leitor questionar se a visão que o personagem tem de si e dos outros realmente corresponde à verdade: Miller, por exemplo, surge mais tolo do que experiente ao considerar-se trágico apenas por já ter segurado o braço de uma mulher enquanto a mesma morria.

Já com Holden, o livro assume suas características de space opera, trazendo conflitos políticos de larga escala, envolvendo batalhas espaciais entre planetas e facções, além de fazer o personagem participar delas quase como que em uma aventura. Seus capítulos são responsáveis por boa parte da tensão inicial da história, uma vez que Corey choca o leitor com mortes súbitas e, principalmente, com a desproporcionalidade das consequências de alguns gestos.

O gênero space opera, que é caracterizado por uma carga de melodrama, também ganha ressonância na jornada de Miller, cujo arco narrativo chega a eclipsar o de Holden. O detetive vai paulatinamente se tornando o personagem trágico que acredita ser, tomando certas decisões por saber que, se de um lado elas realmente são o correto a se fazer, do outro, elas o pintarão com essa imagem, provocando a tristeza e pena de seus colegas. Assim, o personagem torna-se mais complexo devido a essa busca por pathos: acreditando que a felicidade sempre lhe será negada, Miller decide que a única forma de despertar alguma empatia é sendo trágico e, por isso, faz de sua missão o meio para alcançar esse objetivo.

É a partir do momento em que Miller e Holden se encontram que o livro ganha vida. Corey constrói os dois opostos ideologicamente e, evitando soluções fáceis, torna seus embates fascinantes de se acompanhar. Holden é um idealista, que defende que a informação é um direito de todos e deve ser espalhada indiscriminadamente. Já Miller aponta para o caos a sua volta como prova de que as pessoas não param suas vidas para analisar criticamente uma notícia, ponderando suas implicações e refletindo antes de chegar a uma conclusão. No máximo, fingem. O detetive acredita, com base em sua experiência, que as pessoas apenas consomem as notícias, usando-as para reafirmar sua visão de mundo e justificar seus preconceitos: se detestam um determinado grupo de pessoas, qualquer acusação contra ele torna-se imediatamente uma condenação, qualquer indício transforma-se em prova incontestável e qualquer testemunho é uma verdade inabalável. Miller acusa Holden de irresponsabilidade, pois transmitir uma informação incompleta ou de forma desorganizada somente alimenta essas pessoas e acende o pavio do ódio.

É nesse sentido que Corey constrói seu universo futurista, trabalhando com a ideia de que diferenças geram sensações de injustiça e inveja e que elas, inevitavelmente, dão lugar ao ódio. Desse modo, o avanço da exploração pelo espaço cria ainda mais conflitos: com uma população estabelecendo-se em Marte e outra trabalhando no Cinturão, passando toda sua vida no espaço, são formados grupos com interesses distintos. Enquanto os marcianos querem revitalizar seu planeta, os cinturões lutam incessantemente pelo fim da exploração de sua força de trabalho. Aliás, é interessante notar como é um sindicato que se posiciona como instituição máxima no Cinturão e como ele é tratado basicamente como uma célula terrorista por Terra e Marte.

Hábil também na construção de algumas cenas de terror, que envolvem a estranha substância que abre a narrativa, Corey cria imagens que parecem ter saído da mente do artista H. R. Giger, interconectando tecnologia e carne de forma assustadora, como a descrição do indivíduo com que Miller conversa no clímax do livro.

A prosa do autor, porém, não é a das mais complexas, trazendo as discussões na superfície do texto. Além disso, a construção das sentenças também peca volta e meia pela repetição de termos bem próximos uns dos outros, travando o ritmo da leitura. No entanto, Corey merece créditos por trabalhar com uma linguagem de gueto por intermédio dos habitantes do Cinturão, que falam com inúmeras expressões idiomáticas e gírias, além de pegarem emprestado traços do espanhol, resultando em uma mistura linguística curiosa.

Leviatã Desperta é um romance de ficção científica ciente de que não precisa sacrificar seus personagens para construir uma narrativa empolgante, mostrando-se capaz de amarrar cenas de ação em uma história memorável e relevante.

por Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo.

04 de novembro de 2016.


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Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo


2 Comments


  1.  

    Muito boa crítica Rodrigo! Acabei de assistir a primeira temporada de The Expanse, no Netflix, e agora pretendo ler o livro! Obrigado!




    •  
      Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo

      Agradecemos os elogios! Você terá algumas boas surpresas lendo: a série só vai até a metade do livro.





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