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Mago: Aprendiz.

4
Posted 05/17/2016 by in Fantasia

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Nota:
 
 
 
 
 

2/ 5

Sumário

Genero:
 
Autor:
 
Editora: ,
 
Idioma Original:
 
Título Original: Magician: apprentice.
 
Tradução: Cristina Correia, Gabriel Olivia Brum, Ana Cristina Rodrigues (BR).
 
Edição: 2013.
 
Páginas: 432.
 
Capa: Martin Deschambault.
 
Resumo:

Mago: Aprendiz traz um universo povoado por seres clássicos do gênero e uma história com potencial. No entanto, ele sofre com graves problemas de exposição, além de não apresentar um clímax apropriado e falhar em concluir qualquer uma de suas tramas.

by Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo
Full Article

Mago: Aprendiz, romance de fantasia escrito por Raymond E. Feist, traz um universo povoado por seres clássicos do gênero e uma história com potencial. No entanto, ele sofre com graves problemas de exposição, além de não apresentar um clímax apropriado e ainda falhar em concluir qualquer uma de suas tramas.

O livro acompanha um jovem órfão chamado Pug e seu melhor amigo, Tomas, que veem suas vidas mudarem drasticamente no instante em que encontram uma estranha embarcação naufragada na costa da cidade de Crydee, onde moram. Dos destroços, sai um indivíduo com vestimentas esquisitas que fala uma língua nunca antes ouvida, levando o duque de Crydee a imaginar que ele veio de outro mundo. No meio dos preparativos para uma possível invasão, os garotos – Pug, um aprendiz de mago, e Tomas, um soldado em treinamento – são obrigados a partir em uma longa viagem, acompanhando o duque, para avisar os reinos vizinhos dos últimos acontecimentos.

Mago: Aprendiz é um livro de fantasia típico, cujo universo é claramente inspirado no trabalho de J. R. R. Tolkien. Desde o prefixo do nome de seu principal continente, Midkemia, até à caracterização das raças que o habitam, com direito a elfos altivos e frios que vivem em florestas e goblins sorrateiros e malignos que se escondem em montanhas, o mundo criado por Feist é familiar a qualquer leitor do gênero: os anões, por exemplo, são descritos como um povo resistente que excele no ofício de cavar túneis em minas profundas e que fala com uma “entonação gutural e grave”.

O principal pecado do autor na construção de seu universo é se esquecer de recheá-lo com rivalidades e disputas internas. Em sua viagem por Midkemia, Pug não terá dificuldade alguma em receber a ajuda dos mais diversos povos, que prontamente a oferecem sem arranjar qualquer empecilho para os heróis. Se Midkemia se difere de algum modo da Terra-Média de Tolkien é por não apresentar discórdia entre seus habitantes, que, salvo as óbvias lutas contra povos irremediavelmente malignos como os goblins e os elfos da Irmandade da Senda das Trevas, parecem se amar sem ressalvas – não é toa que a guerra precisou se deflagrada por invasores de outro mundo. Essa ausência de divergências, além de tornar a relação entre anões, elfos e humanos desinteressante, também afeta negativamente a narrativa, visto que limita a variedade de seus conflitos e, com isso, sua complexidade. Até mesmo na capital dos humanos, o único lugar em que intrigas políticas e traições são mencionadas, elas não chegam a influenciar a jornada do protagonista, deixando o leitor, no mínimo, pasmo com a facilidade da missão.

Além disso, o autor também apresenta seu universo com um altíssimo grau de exposição, transmitindo as informações ao leitor por intermédio de diálogos excessivamente longos e banais. Trata-se de um artifício consideravelmente pobre e bastante recorrente no livro, sendo especialmente notável nos diversos questionamentos que os jovens fazem a respeito de elementos do mundo que ainda desconhecem, questionamentos que quase sempre rendem respostas extensas e didáticas, como exemplifica o seguinte diálogo entre Pug e um príncipe élfico:

“- Poderia me contar mais sobre a magia dos elfos?

– A nossa magia é antiga. Faz parte de quem somos e encontra-se naquilo que criamos. As botas dos elfos conseguem tornar até um humano silencioso ao caminhar, e os arcos élficos têm mais capacidade de atingir os alvos, pois essa é a natureza de nossa magia. Está impregnada em nós, nas nossas florestas, nas nossas criações. Por vezes, pode ser controlada sutilmente por aqueles que a entendem por completo… Conjuradores de feitiços, como Tathar. Mas isso não ocorre com facilidade, pois a nossa magia resiste à manipulação. Parece-se com o ar, que nos cerca sempre, ainda que não o vejamos. Porém, assim como o ar, que podemos sentir quando sopra o vento, ela possui substância. Os homens dizem que as nossas florestas são encantadas, pois as habitamos há tanto tempo que a nossa magia criou o mistério de Elvandar…”

O parágrafo ainda prossegue por mais linhas, pelo que parece a eternidade, narrando inúmeras informações desnecessárias que podiam muito bem ter sido deixadas subentendidas. Com isso, Feist, ao invés de atiçar a curiosidade do leitor, o entendia com a exposição exacerbada.

Por outro lado, quando está discorrendo sobre os personagens, o autor já se sai um pouco melhor em sua prosa. O núcleo dramático de Mago: Aprendiz está ancorado no processo de amadurecimento de Pug e as reflexões sobre seu amor pela princesa de Crydee, Carline, marcam as transformações iniciais de sua personalidade: ele começa a suspeitar que está apaixonado por uma ideia e não pela Carline de verdade justamente quando suas responsabilidades aumentam, refletindo seu crescimento: “Sentia-se encantado pela Princesa, mas o fascínio era atenuado por um estranho desconforto que o dominava sempre que ela estava por perto. Por mais bela que a achasse – as madeixas pretas e os olhos azuis ascendiam algumas chamas inquietantes em sua imaginação – as imagens eram sempre, de certa forma, irreais, descoloridas no fundo, faltando o brilho âmbar e cor-de-rosa que tais devaneios possuíam quando Carline não passava de uma figura distante, inatingível e desconhecida”.

O amor do protagonista pela princesa assume papel fundamental em Mago: Aprendiz, representando perfeitamente a evolução do personagem. No instante em que Pug reflete mal-humorado que Carline “estava mostrando ser complicada demais para caber em simples fantasias” é possível notar que, por mais que ele esteja demonstrando um avanço na sua capacidade de autoanálise, inquietação e raiva ainda estão dominando suas conclusões.

Sua escalada pela hierarquia social de Crydee define o primeiro ato do livro. Escolhido pelo mago Kulgan a ser seu aprendiz e, assim, indo trabalhar na torre do castelo, Pug passa a se relacionar com a nobreza e a descobrir um mundo com costumes diferentes do seu. Não que isso acarrete qualquer desavença entre eles, afinal até os ricos de Midkemia parecem respeitar os pobres e tratá-los bem. Desse modo, não demora para seus poderes começarem a chamar a atenção do duque e para ele se ver subindo cada vez mais de posição social no castelo.

Mago: Aprendiz traz, a princípio, uma estrutura correta, mesmo que pouco inspirada. O autor usa a ascensão de Pug em Crydee para apresentar os principais personagens ao leitor e rapidamente introduz o naufrágio que leva a descoberta dos seres de outro universo, os Tsurani. A jornada por Midkemia que se sucede respeita a cartilha do gênero, tendo seus pontos de conflito gerados basicamente por “encontros aleatórios”, em que os heróis enfrentam os mais variados monstros e são, no fim obrigados, a se separar. Entretanto, é fácil perceber que as semelhanças com a trilogia de Tolkien são inúmeras e que podem cansar um leitor habituado com o gênero (spoilers):após falharem em atravessar uma montanha em meio a uma nevasca, por exemplo, o grupo segue para uma antiga mina dos anões, onde perdem um de seus companheiros.

O autor também prepara de forma eficiente o terreno para a batalha contra os Tsurani, fomentando o interesse do leitor por narrar detalhadamente todos os esforços de Crydee para conseguir um exército. Além disso, Feist constrói subtramas interessantes, fazendo determinado personagem encontrar um dragão e adquirir um artefato mágico que começa a lhe causar sonhos estranhos e o grupo principal conhecer um misterioso feiticeiro que promete ajudá-los antes do fim da aventura: ambos os casos prometem um desfecho especial em algum momento.

É no terceiro e último ato que Mago: Aprendiz desaponta profundamente. Nenhum arco narrativo é concluído, nenhuma trama é finalizada e nenhum personagem tem seu desenvolvimento completado. A história narrada em Mago: Aprendiz não termina (o livro foi originalmente publicado com sua sequência, Mago: Mestre, em volume único) e isso faz toda a tensão construída pelo autor ao longo da aventura de Pug se esvair em nada no final.

A pior consequência dessa divisão está no clímax do livro, constituído por uma grande batalha contra os Tsurani, mas protagonizado por personagens até então completamente irrelevantes e secundários. A batalha não conta nem com Pug, Tomas ou até mesmo com o duque e seu exército, posicionando seu filho, o príncipe Arutha, sob os holofotes. Desse modo, não há razões para qualquer investimento emocional por parte do leitor durante o tão esperado confronto, com a exceção da presença da princesa Carline no castelo que está sendo defendido.

Trazendo um universo pouco fascinante e ainda parando de acompanhar os personagens principais durante sua conclusão, Mago: Aprendiz, acaba por se configurar uma medíocre introdução ao trabalho do autor.

por Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo.

17 de maio de 2016.


About the Author

Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo


4 Comments


  1.  
    Vinícius Rosa SIlveira

    O livro é ótimo quando colocado ao lado de outras obras. Me refiro até mesmo ao Nome do Vento. A imersão que o livro lhe dá é impressionante, temos sim uma história q mostra a progressão dos personagens vagarosa, afinal estamos falando de uma narrativa dividida em 4 volumes. Ao meu ver uma crítica que foca apena no primeiro volume, sem refletir nos próximos, demonstra-se rasa. Esperava mais conteúdo visto os parágrafos usados por Rodrigo Lopes.




  2.  
    Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo

    Agradeço o comentário, Vinícius. No entanto, acredito que uma obra tem que se sustentar sozinha. E, no caso de sequências suprirem as carências de um primeiro volume, isso é mérito delas, em nada anulando os problemas do livro inicial. Afinal, seria até injusto com aqueles muitos que conseguem abrir uma série sem deixar de desenvolver seu universo e personagens satisfatoriamente. De qualquer forma, sugiro a leitura da nossa crítica de Mago: Mestre também.

    Abraços!




  3.  
    WALTER CAMPOS

    Se estamos falando da crítica de uma primeira obra, como considerá-la “rasa” porque ela se atém apenas à essa obra ???????……Quanto a mim, acabei de ler o primeiro e concordo com a crítica. Tem altos e baixos e o final nunca te prende a atenção, sem te causar anseios pelo segundo livro, ao contrário de ” O Nome doVento”, por exemplo, e, muito menos, à obra de Tolkien que, obviamente, inspirou “O Mago” . Não sei nem se vou continuar a leitura, até mesmo por saber que os principais personagens do primeiro quase desaparecem no segundo….




    •  
      Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo

      Agradeço o comentário, Walter!

      No entanto, tenho que discordar: não acredito que uma obra possa ser desculpada de ser rasa porque é apenas o primeiro volume de uma série. Há vários primeiros volumes que fecham seus arcos narrativos e tramas e ainda assim dão só o primeiro passo na história principal. Veja, por exemplo, só no gênero fantasia, A Sociedade do Anel, Harry Potter e a Pedra Filosofal, Jardins da Lua, As Mentiras de Locke Lamora e O Último Desejo. São obras exemplares que iniciam suas respectivas séries e nem por isso deixam de finalizar, mesmo que só momentaneamente, vários de seus arcos narrativos.

      Sobre o segundo, também há a crítica no site (ele continua problemático, mas por outras razões), mas os personagens principais permanecem os mesmos: Pug e Tomas. Eles só mudam de identidade, mas são os mesmos personagens.

      Abraços!





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