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Midnight Tides / Marés da Meia-noite.

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Posted 03/20/2017 by in Fantasia

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5/ 5

Sumário

Genero:
 
Autor:
 
Editora:
 
Idioma Original:
 
Título: Midnight Tides / Marés da Meia-Noite
 
Título Original: Midnight Tides.
 
Tradução: Lido no original.
 
Edição: 2006.
 
Páginas: 624.
 
Capa: Todd Lockwood.
 
Resumo:

Trazendo uma história divertida, complexa e socialmente relevante, Midnight Tides / Marés da Meia-noite eleva o nível da série escrita por Steven Erikson, posicionando-se como um de seus melhores volumes.

by Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo
Full Article

Expandindo o universo da série, o quinto volume de O Livro Malazano dos Caídos, Midnight Tides / Marés da Meia-noite revela-se um épico sobre a ruína da cultura capitalista, sobre fanatismo, sofrimento e falta de compaixão. Steven Erikson continua apresentando sociedades complexas e personagens trágicos, habilmente mesclando humor, drama e ação com críticas sociais em uma narrativa tão intrincada quanto  empolgante.

A história de Midnight Tides transcorre antes dos eventos do primeiro livro, Jardins da Lua. O protagonista é Trull Sengar, um Tiste Edur que subitamente vê sua tribo a um passo da guerra quando presencia navios da cidade humana de Letheras caçando focas em um local proibido por um tratado entre os dois povos. Para conseguir uma vantagem contra o poderio militar dos Letherii, Trull é mandado junto com seus três irmãos, Fear, Rhulad e Binadas, para o norte. O objetivo deles é adquirir um artefato misterioso que seu líder enxergou em sonho. Já em Letheras, Tehol Beddict, um homem falido que dorme no próprio telhado, é contratado por três mulheres de tribos conquistadas pelos humanos para destruir a economia da cidade, enquanto seu irmão Brys é promovido para o posto de Campeão do Rei e seu outro irmão, Hull, viaja para avisar os Edur dos planos dos Letherii.

Os temas do livro são construídos pela oposição entre a cultura dos dois povos, com críticas tanto ao imperialismo dos Letherii quanto ao tribalismo dos Edur. Enquanto os humanos utilizam o dinheiro como uma armadura em vida, com a riqueza simbolizando poder, traduzindo-se em muros, fortalezas e exércitos, os Edur usam moedas em um ritual religioso para cobrir o corpo de seus mortos. Ou seja, se a ganância é a ruína dos humanos, a religião acaba distorcendo permanentemente os Edur, como prova o resultado do ritual em um dos personagens.

A sociedade Letherii é construída com base na noção de dívida. Expondo um capitalismo violento e consciente da própria natureza, Erikson apresenta uma sátira, devidamente exagerada e ácida, do mundo moderno, em que obras e projetos políticos são realizados em prol unicamente dos grandes comerciantes; em que a fortuna de uns poucos significa a miséria de muitos outros; em que dívidas escravizam o sujeito da classe baixa até o fim de sua vida; e, ironicamente, em que o bem mais precioso tem um valor de natureza imaginária, existindo enquanto se acredita nele e em sua força, exatamente como um deus.

Erikson usa Letheras para expor diversas visões sobre o capitalismo. Na cidade, o culto ao dinheiro é indireto. Não se engrandece o ouro, mas os atributos que facilitam sua aquisição:  trabalho duro, diligência,  ambição e disciplina. O autor não deixa dúvidas sobre a natureza alegórica da cidade, inserindo no mesmo capítulo noções como “destino manifesto” e críticas quanto a ilegitimidade de invadir outros povos em defesa da liberdade quando se apoia tiranias se financeiramente proveitoso.

Vários detalhes do funcionamento da cidade de Letheras funcionam como representações fantásticas de elementos de nossa sociedade. As penas aplicadas aos criminosos, por exemplo, servem como uma metáfora de um sistema penitenciário que faz melhor ser rico do que inocente: a sentença é sempre em moedas de ouro e a quantia que não for paga é amarrada nas costas do criminoso, que precisa nadar com ela até a margem de um rio para conseguir sobreviver. Não suficiente, ainda ocorre apostas públicas sobre quem vai morrer ou não, uma vez que nunca se pode perder uma oportunidade de lucrar.

O personagem mais importante na cidade é Tehol Beddict, um homem que perdeu sua fortuna de forma misteriosa após adquiri-la de forma mais misteriosa ainda. Tehol é um sujeito excêntrico e arrogante – típico personagem interpretado por Benedict Cumberbatch ou qualquer ator principal de Doctor Who – que ganha um novo propósito quando é abordado por membros de tribos assimiladas pelos Letherii. Sua missão torna-se quebrar a bolsa de valores da cidade, o que o leva a requisitar a ajuda de seu ainda mais excêntrico servo, Bugg.

A dinâmica entre os dois personagens é hilária, sendo construída na base de diálogos espirituosos que cumprem diversas funções: avançam a trama, desenvolvem os dois personagens, revelam aos poucos os segredos de cada um e, por fim, esconde-os novamente embaixo de uma superfície textual simplesmente ilógica. A graça advém do fato de a loucura dos dois não somente ser usada como um embuste – com o intuito de confundir tanto os outros personagens quanto o leitor e levar todo mundo a subestimar os dois – como também de ela ter se tornado um elemento intrínseco de suas personalidades, que os impede de agir de outra forma.

Não demora, aliás, para Tehol e Bugg encontrarem outros personagens igualmente insanos e o leitor perceber que Letheras está sendo retratada como um sanatório. Surgindo como um Império em ruínas, desfalecendo-se por dentro, embora demonstre prosperidade em sua face exterior, a cidade cada vez mais surpreende com o estado calamitoso em que suas fundações na verdade se encontram.

O único personagem que surge minimamente são em Letheras é o jovem Brys, que é promovido para a guarda pessoal do rei justamente antes do início da guerra contra os Edur. Brys sempre surge deslocado naquela cidade, com uma honra que não parece ser suficientemente valorizada e trejeitos sérios que acabam soando cômicos quando contrapostos a de seus interlocutores. Seu melhor amigo, o velho feiticeiro Kuru Qan, por exemplo, parece constantemente a beira da senilidade, embora tenha o posto militar mais alto da cidade. Como é de praxe com Erikson, sua forma de falar é particular, com o personagem sempre analisando e concluindo em voz alta se o que foi dito a ele é pertinente ou não antes de responder a seu interlocutor.

Do lado dos Edur, o leitor é apresentado a uma sociedade ironicamente similar a dos Teblor de House of Chains: uma teocracia que valoriza a guerra e tem noções bem equivocadas sobre seus deuses que os levam a cometer atos de consequências terríveis. Os Edur, porém, são como os Letherii, iludidos quanto à própria importância, acreditando-se superior a todos.

O protagonista do livro representa o principal elemento de oposição a uma religião: um questionador. Trull é um semeador de dúvidas, um observador que precisa descobrir a verdade, mesmo quando suas perguntas o põem em perigo. Trull, todavia, também se mostra passivo, sempre esperando que outros ajam com base nas dúvidas que ele suscitou, especialmente seu irmão Fear. Essa é sua grande tragédia: o personagem sabe o que está errado, sabe que o caminho que seu povo está trilhando vai levar apenas ao sofrimento, mas raramente consegue agir por si próprio para mudar isso, contentando-se em apontar os erros.

Seu antagonista inicial é seu irmão mais jovem, Rhulad, que, sempre impaciente e inconsequente, toma as reprimendas de Trull como ataques em vez de lições. Rhulad é, talvez, o personagem mais cheio de pathos do romance, despertando a piedade e a dor do leitor, ao mesmo tempo em que irrita com sua postura arrogante. Trata-se de um personagem com um arco narrativo bem mais complexo do que aparenta no início e constitui um dos focos dramáticos principais do livro.

A conexão entre os Letherii e os Edur, por sua vez, se dá com os personagens de Hull Beddict e Seren Pedac. O primeiro é um Letherii que se sente traído pelo próprio povo e deseja se vingar traindo-os  ao contar segredos militares para os Edur. Já Seren Pedac é uma guia que leva caravanas humanas para os Edur e nunca se intromete em questões políticas.

O amor entre os dois personagens é visto como impossível por ambos e não é difícil entender a razão: eles conectam as duas culturas, mas de forma oposta. Enquanto a missão de Hull é destrutiva, o trabalho de Seren é pacífico e conciliador. O arco narrativo dos dois, portanto, termina refletindo suas jornadas.

Erikson, depois da confusão de House of Chains, traz uma narrativa muito mais focada e consistente em Midnight Tides, ampliando a tensão entre os dois povos e os inúmeros personagens que povoam a história sem desviar muito do ponto principal.

Por outro lado, ele sempre construiu corretamente as cenas de ação e aqui ele mantém sua consistência. O momento da retribuição dos Edur pelo roubo das focas, por exemplo, parece retirada de um filme de terror: ouvem-se somente os gritos de terror das vítimas, enquanto os personagens conseguem apenas sentir a presença maligna do monstro. Erikson entende que o horror costumar ter mais efeito quando sugerido em vez de explicitado.

O autor também não deixa de trabalhar com inúmeras metáforas, simbolismos e relações que engrandecem a narrativa: a noção de certeza, por exemplo, é tanto contraposta à função narrativa do protagonista, Trull, quanto associada ao trono vazio que os Letherii louvam, o que reforça o conceito negativo do termo na história, associado a estagnação, e aproxima a tragédia de ambos os povos. Usando metáforas ainda como pista e recompensa da identidade de certo personagem, Erikson traz em Midnight Tides uma narrativa grandiosa e bem amarrada, que recompensa um leitor mais atento.

O autor até brinca com o nome dos irmãos Sengar: enquanto Trull tem uma sonoridade similar da palavra “verdade” em inglês (o bem que ele mais busca) e Fear indica o elemento que move as ações do personagem, Rhulad também contém uma sonoridade com grande significado narrativo. O único cujo nome parece aleatório é Binadas, mas ele é o menos desenvolvido no livro, sempre distante de seus irmãos.

Além de metáforas, Erikson ainda usa ironia para construir o simbolismo complexo de algumas cenas. Quando um Edur grita com seu servo “We are not the same, slave! Do you understand? I am not one of your Indebted. I am not a Letherii”, a frase seguinte, “Then he sagged in a rustle of coins”, contradiz a afirmação do Edur ao compará-lo com a situação dos criminosos Letherii no rio. Ainda com relação aos simbolismos, a cena no clímax em que uma única moeda de ouro rola pelo chão é carregada não somente de apelo visual, como também de significado.

Não obstante, Erikson não deixa de cometer alguns deslizes na história, embora sejam bem pequenos comparados aos feitos da obra. O trecho que mais se destaca negativamente é o que introduz um grupo de guerreiros importante daquele universo. A cena é bem deslocada em tom, flertando com o tosco: quando um guerreiro pula para salvar Seren Pedac, por exemplo, ele surge do breu, em um pulo, gritando algo próximo de “Pare lá!”. Só faltou ele ter vindo em um corcel, esvoaçado seus cabelos e completando com “Seu malfeitor!”. A cena de luta que se segue não é melhor, com descrições feitas para causar um impacto superficial, em vez de seguir o padrão “cirúrgico” do restante das batalhas do livro, que foca nos ossos e órgãos afetados. Por fim, o ocorrido com Seren antes da luta, embora eventualmente desenvolvido, surge inicialmente problemático em seu simbolismo.

Trazendo uma história divertida, complexa e politicamente relevante, Midnight Tides / Marés da Meia-noite eleva o nível da série escrita por Steven Erikson, posicionando-se como um de seus melhores volumes.

por Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo.

20 de março de 2017.

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Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo


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