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Miniaturista.

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Posted 03/07/2016 by in F. Histórica

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3/ 5

Sumário

Genero: ,
 
Autor:
 
Editora:
 
Idioma Original:
 
Título Original: The Miniaturist.
 
Tradução: Rachel Agavino.
 
Edição: 2015.
 
Páginas: 352.
 
Capa: Katie Tooke.
 
Resumo:

Miniaturista, escrito por Jessie Burton e publicado no Brasil pela editora Intrínseca, é um romance histórico disfarçado de livro de suspense: seu verdadeiro objetivo não é explorar o mistério a cerca do personagem título, mas apresentar e criticar o estilo de vida dos holandeses no início do século XVII.

by Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo
Full Article

Miniaturista, escrito por Jessie Burton e publicado no Brasil pela editora Intrínseca, é um romance histórico disfarçado de livro de suspense: seu verdadeiro objetivo não é explorar o mistério a cerca do personagem título, mas apresentar e criticar o estilo de vida dos holandeses no início do século XVII.

A protagonista do livro chama-se Petronella Oortman, uma jovem mulher que se casa com um comerciante de sucesso, Johannes Brandt, o qual não conhece, e parte sozinha para viver com ele em Amsterdã. Sua nova vida, porém, não é como havia imaginado. Hostilizada pela cunhada e ignorada pelo marido, Nella encontra conforto apenas em seu presente de casamento: uma detalhada casa de bonecas que representa fielmente os cômodos de onde vive. Entretanto, ela logo começa a receber estranhos presentes do miniaturista que contratou para mobiliar a casa e percebe que pode estar sendo vigiada.

O início do livro é carregado de suspense. A autora é hábil em construir uma atmosfera sufocante e em sugerir perigo logo na primeira cena de Nella em seu novo lar. A protagonista caminha pela escuridão ao adentrar a casa, onde encontra a irmã de seu marido, Marin, imersa em sombras, vestindo preto e com uma postura rígida, manifestando sua contestação à presença da garota com poucas palavras. Ao encaminhá-la a seu quarto, Marin aponta para os diversos quadros com animais de caça presos na parede do aposento, o que revela a natureza predatória da personagem ao mesmo tempo em que estabelece a protagonista como um ser acuado e frágil.

Sons estranhos na casa a perturbam durante a noite, personagens cochicham quando ela não está perto e calam-se em sua presença. Nella imediatamente se sente hostilizada, acreditando que não é querida naquela casa e que sua cunhada vai representar uma ameaça constante.

A relação entre as duas, no entanto, é o ponto alto do livro graças, em grande parte, a sua evolução. Se, no começo, Marin assume um papel de antagonista – lembrando a vilã de A Colina Escarlate –, ela vai gradativamente expondo traços de humanidade, mostrando-se fiel a seu irmão e revelando-se, até mesmo, o centro moral da história. Se Nella exerga a cunhada como uma inimiga inicialmente, no final, o sentimento que ela nutre por Marin é completamente oposto.

O desenvolvimento de Marin, aliás, supera muito o da própria protagonista. A personagem é a culminação dos temas desenvolvidos pelo livro. Miniaturista trata de preconceitos – racismo, homofobia e misoginia – apresentando personagens que se enquadram em cada minoria. Marin e Nella são mulheres, postas à margem da sociedade, impedidas de cuidar de negócios, argumentar com seus maridos e serem livres. Como Marin explica:

“E algumas de nós podem trabalhar […] um trabalho de matar, mas pelo qual não receberíamos nem a metade do que um homem recebe. Não podemos ter propriedades, não podemos levar um caso ao tribunal. A única coisa que eles acham que podemos fazer é gerar filhos, que em seguida se tornam propriedade dos nossos maridos”.

Não é a toa que Marin enxerga o casamento com uma prisão: o momento em que a mulher submete-se à autoridade do marido até o fim de sua vida. No entanto, mesmo solteira, a personagem é fiscalizada pela sociedade em que vive – seu quarto chegando a ser descrito como uma cela em determinado momento.

A personagem, todavia, luta a sua maneira contra o machismo da sociedade. Seja afastando pretendentes, tomando as rédeas dos negócios do irmão, assumindo tarefas de casa tipicamente masculinas, como a leitura de sermões, ou cuidando das finanças. O leitor vai paulatinamente percebendo que a hostilidade da personagem não é um traço de seu caráter, mas um mecanismo de defesa de alguém que é vigiado e julgado constantemente.

Nella, por sua vez, já se mostra mais submissa aos valores que aprendeu quando criança. Em certo momento, por exemplo, a mãe dela a ensina sobre a natureza da expressão “ruim com ele, pior sem ele”, defendendo que a vida de casada significa segurança financeira mesmo não sendo confortável em alguns sentidos: “Sua mãe lhe contou que as esposas podem esperar: uma vareta de dor ereta, a sorte de não durar muito, o membro mole gotejando entre suas pernas”.

No entanto, o que ela observa em seu novo lar a surpreende. Nella vê uma mulher cuidando dos negócios do irmão com habilidade, uma empregada que é tratada com respeito e ainda assim trabalha com afinco, um homem negro que é considerado de confiança por Johannes e uma pessoa homossexual que não deixa de ser honesta e gentil. Seu arco narrativo envolve a desconstrução dos preconceitos adquiridos em sua infância: ela faz parte daqueles recorrentes casos em que uma educação familiar não reflete a realidade do mundo, mas somente as frustrações e vícios dos pais.

A protagonista, porém, demora muito a entender isso. Ela passa quase a integridade do livro repetindo as mesmas ideias de submissão da mulher, de severidade no trato dos empregados, de desconfiança em relação ao homem negro e de ódio contra homossexuais – estas, não por acaso, adquiridas após uma visita à igreja de sua cidade. Se Marin é trágica ao combater sem sucesso esses preconceitos, Nella irrita ao propagá-los por muito tempo.

Além disso, sua relação com Johannes é consideravelmente mal trabalhada. No início, Nella surge ressentida pelo descaso de seu marido, na metade ela aparece com raiva diante da situação na qual ele a coloca e, no clímax, ela subitamente morre de amores por ele. Essa evolução não faz qualquer sentido, uma vez que há pouquíssimas cenas dos dois juntos que poderiam sugerir o desenvolvimento do amor. Johannes permanece frio por boa parte da narrativa: suas demonstrações de carinho são regularmente seguidas de certo distanciamento, como se ele temesse que ela fosse começar a nutrir algo por ele. Dessa forma, o clímax melodramático acaba soando falso: a protagonista tem sim razões para se desesperar diante dos acontecimentos, mas por motivos lógicos e não emocionais.

Outro ponto em que a protagonista também se revela problemática é em sua demora a tomar atitudes. Sua relação com o personagem título é o mais revelador nesse aspecto: Nella recebe presentes que não encomendou, que expõem características de sua vida familiar que apenas alguém presente naquela casa poderia saber, e decide que isso não é realmente perigoso. Ela procrastina suas visitas ao miniaturista mais de uma vez, sendo constantemente distraída por diversos eventos aleatórios. Ela chega a acreditar ser suficiente mandar cartas pedindo que o sujeito pare de importuná-la. Ela está sendo vigiada e provocada por um indivíduo misterioso e, para resolver a situação, ela manda cartas. Sua reação diante dos acontecimentos é de completa falta de urgência, o que sabota a tensão relativa à figura do miniaturista.

Além disso, a partir de certo ponto, Nella passa subitamente a enxergar a situação não com uma ameaça, mas como uma ajuda. Ela olha para os bonecos que recebe e tenta interpretá-los, imaginando o miniaturista queria dizer com aquelas imagens. Não há qualquer motivo, até o final, para ela não chamar a polícia, mas, ainda assim, Nella garante às pessoas que o miniaturista apenas deseja seu bem estar.

Essa trama, por sinal, acaba sendo completamente periférica à principal. O livro é estruturado a partir das descobertas realizadas sobre os Brandt: Johannes e Marin guardam inúmeros segredos que vão aos poucos se conectando com os preconceitos daquela sociedade. Os principais antagonistas são um casal de holandeses que, apesar de invejarem o sucesso de Johannes, entregam a ele quilos de açúcar para vender. Johannes, entretanto, parece não se empenhar no trabalho, gerando o conflito do clímax.

Enquanto isso, Nella recebe miniaturas e tem epifanias que sequer servem para fazê-la agir. Em determinada cena, por exemplo, ela reflete que o miniaturista está sugerindo que ela pressione seu marido a vender o açúcar e, ainda assim, não o faz. Só o fato de ela precisar de uma mensagem criptografada em bonecos para chegar a uma conclusão óbvia já é problemático, porém, mesmo sabendo o que deve ser realizado, Nella permanece inerte devido às suas ideias sobre a posição da mulher no casamento. Com isso, toda a parcela da história sobre o miniaturista acaba se tornando irrelevante para a trama principal. Se ele não existisse, nenhum dos eventos teria ocorrido de forma diferente.

O que é uma pena, visto que a autora revela-se competente na construção do suspense e na preparação de pistas e recompensas. A cena de apresentação da casa em miniatura serve com um bom exemplo. Burton até caminha pelo clichê de “a casa parecia observar a protagonista”, mas é nos seus momentos mais sutis que impressiona, como no toque de macabro na revelação do material usado na construção do objeto:

“- O que é, Seigneur?

– Feito de carvalho e olmo. Olmo é forte – diz Johannes, como se essa fosse a explicação que a esposa esperava ouvir. Ele olha para a irmã – É usado em caixões.”

No mesmo sentido, ao posicionar o seguinte trecho no início da narrativa, a autora já constrói a tensão para uma cena de parto no final, sugerindo a possibilidade de uma tragédia: “Na primeira vez que Nella sangrou, aos doze anos, sua mãe lhe disse que era para a ‘segurança dos filhos’. Nella nunca achou que houvesse motivo para se sentir segura, pois ouvia pelo vilarejo os gritos das mulheres sentindo as dores do parto, os caixões às vezes levados à igreja pouco depois”.

Miniaturista é um livro bem escrito, mas com graves problemas de estrutura e desenvolvimento. Seu personagem título não convence, soando dispensável para a narrativa, e a protagonista empalidece diante dos coadjuvantes. Se Burton tivesse largado o suspense e focado no drama histórico, o livro, pelo menos, teria ganhado mais consistência.

por Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo.

07 de março de 2016.


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Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo


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