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Morte Súbita.

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Posted 03/17/2015 by in Drama

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1/ 5

Sumário

Genero:
 
Autor:
 
Editora:
 
Idioma Original:
 
Título: Morte Súbita.
 
Título Original: The Casual Vacancy.
 
Tradução: Izabel Aleixo.
 
Edição: 2012.
 
Páginas: 501.
 
Capa: Joel Holland e Mario J. Pullice.
 
Resumo:

Imagine só, fã de Harry Potter, os sete livros sem Hogwarts. Sem Dumbledore, o próprio Harry, os Malfoy e Snape. Sem a magia. Sem as divertidas aulas e as empolgantes batalhas. Imagine, portanto, um universo completamente dominado por Dursleys. Pois é. O horror.

by Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo
Full Article

Um tigre nunca muda suas listras. Esse é o grande problema de personagens planos: eles não se modificam, não evoluem, conferindo desse modo pouco significado para suas jornadas. Eles são sujeitos normalmente estereotipados ou mnemônicos, definidos por apenas uma característica marcante mesmo após o fim de suas histórias. Já o grande problema de Morte Súbita é justamente investir em vários personagens desse tipo, apostando que observar seus afazeres e problemas pessoais é suficiente para entreter o leitor.

O livro começa com a morte de Barry Fairbrother, um membro do Conselho Distrital da pequena cidade de Pagford. O falecimento abre uma vaga no Conselho, dando início a uma disputa para ocupar o lugar.  A trama circula tanto em volta da rotina dos concorrentes e dos atuais membros do Conselho quanto da de seus filhos, almejando contar a história não somente da disputa política, mas também da vida pessoal dos principais membros daquela sociedade.

Howard Mollison, líder do conselho, é um sujeito extravagantemente gordo, dono de uma delicatessen e de “uma voz de trovão”. Parminder Jawanda é uma médica estressada que nutre um amor secreto por Barry e odeia antibióticos. Kay é uma assistente social dedicada que se mudou para Pagford para ficar junto de seu namorado Gavin, que não a suporta mais. Bola é um garoto problemático que acredita que a autenticidade de suas ações é sua marca mais admirável. Andrew é um jovem cheio de espinhas que se apaixona pela mais nova e linda garota de sua escola e que é espancado e maltratado regularmente por seu insano pai em casa. E a lista não acaba aí.

A maior falha de Morte Súbita é dedicar muito tempo a tais personagens sem torná-los interessantes o suficiente. Eles são definidos por descrições superficiais similares sempre que surgem na narrativa. Howard é descrito incessantemente como obeso e com voz poderosa até o fim do livro. Além de sua posição política unidimensional, não há qualquer outro traço de personalidade nele. Em outras palavras, sua descrição inicial, em vez de servir para apresentá-lo ao leitor, limita o personagem, por se configurar a essência do que ele é e sempre será. E isso se repete em praticamente cada personagem. Andrew é apenas um garoto que sofre de acne e tem um pai maluco até o fim do livro. Bola continua querendo ser autêntico mesmo após o choque emocional que sofre no clímax. Eles não aprendem nada, são personagens estáticos e, portanto, consideravelmente desinteressantes.

As questões que eles têm que enfrentar raramente se mostram mais empolgantes. Samantha Mollison é uma mulher claramente frustrada sexualmente no seu casamento que deseja viajar para assistir um show da banda favorita de sua filha, após perceber que gostava de se masturbar pensando no vocalista. E ninguém poderia se importar menos com ela. Gavin não consegue ter coragem de dispensar sua controladora namorada e revelar seu amor pela viúva de Barry e ninguém poderia achá-lo mais insuportável que nós leitores, afinal nenhum ser humano aguenta acompanhar um personagem unidimensional por aproximadamente quinhentas páginas esperando que ele tome apenas uma decisão.

É uma verdade universalmente conhecida que um romance pode conter apenas personagens planos e ser consideravelmente eficiente, mas para alcançar tal feito é necessário que o autor tenha consciência da limitação de sua história e use a narrativa para focar nas reviravoltas e surpresas da trama – ou questionar a falta delas – tendo como base uma ideia específica. J. K. Rowling faz justamente o oposto, posicionando seus personagens sob o holofote, relegando o resto dos elementos da história para o pano de fundo.

A trama, o problema político envolvendo o Conselho, certamente se mostra mais atrativa em comparação aos personagens, embora isso obviamente não se configure um grande elogio. O principal conflito entre os principais habitantes de Pagford concerne à proposta de agregação da comunidade de Fields à cidade. Fields é descrito como um lugar sujo e decrépito, infestado por pessoas pobres, drogadas e arruaceiras, servindo como um perfeito contraponto à civilidade e quietude de Pagford. Uma parte do conselho, liderada por Horward Mollison, portanto, abomina tal união, pois ela significaria um enorme abalo econômico e cultural em Pagford. A outra, antes comandada pelo falecido Barry, enxerga benefícios humanitários aos habitantes de Fields em tal união.

As disputas políticas resultantes desse conflito, no entanto, se movem em uma cadência praticamente letárgica, visto que Rowling parece mais disposta a escrever sobre a imutável rotina de seus personagens. Todas as vezes que Kay estiver em casa, ela discutirá com sua filha Gaia sobre tê-la obrigado a se mudar para Pagford. Krystal sempre irá xingar sua mãe drogada e se preocupar com seu pequeno irmão Robbie. Samantha irá reclamar da vida e pensar lascivamente sobre a banda preferida da filha. Sempre. Todas as vezes. A repetição torna a narrativa exaustiva e angustiante, o que dificilmente era o propósito da autora.

Não obstante, são ainda os filhos dos concorrentes ao cargo de Barry e não os próprios que decidem causar alguma discórdia na cidade e, assim, movimentar a história. Enquanto essa estratégia justifica a presença constante deles na trama, o artifício usado pelos jovens não demora a perder a graça, uma vez que também nunca se modifica: invadir o site oficial do conselho e postar algumas verdades sobre seus pais com o antigo e levemente modificado login de Barry. É fácil perceber quando um livro tem sérios problemas narrativos quando o único evento minimamente interessante a cada cem páginas é uma fofoca que o leitor já conhecia.

Mas todos esses problemas ainda poderiam ser contornados se a autora tivesse algo para dizer com tal repetição. Ou seja, se ao menos ela conferisse voz ao narrador. Entretanto, questionamentos jamais são levantados e propósito algum é alcançado. J. K. Rowling preferiu usar um narrador que pega emprestado a consciência de cada personagem por certo tempo, dessa forma não adicionando nada ao livro além de mais repetição. Até mesmo qualquer brincadeira com a linguagem popular e extremamente informal que a autora possa ter pretendido com frases no original como “Tha’s norra fuckin’ crime!” e “No, shurrup, right?” se perdeu na tradução, cuja tentativa de preservar tal estilo se resumiu a terminar os diálogos com palavras fortíssimas como “babaca” e “merda”. Também irrita a impressão que J. K. Rowling passa de ter acabado de descobrir a “magia” dos parênteses, uma vez que ela abusa loucamente de seu uso, sem qualquer lógica: se inicialmente parece que ela os utiliza sempre que há uma mudança do plano temporal – flashbacks, por exemplo –, percebe-se que esse não é o caso quando se verifica que várias passagens iguais não os contém. No fim, o que se observa são vários parágrafos e diálogos inteiros dentro de parênteses sem a razão de ser.

Além disso, Rowling pesa a mão no clímax do livro, tornando-o excessivamente melodramático e forçado. Completamente ignorando a trama política, a autora prefere se focar na sua melhor personagem, Krystal Weedon – a única que possui algum resquício de individualidade. Porém, os eventos que transcorrem não são devidamente preparados pela autora, pois, além de se mostrarem completamente repentinos, possuem o único propósito de chocar o leitor. Aliás, a autora parece perceber a futilidade que acomete os personagens principais, pois lança mão constantemente do exagero para alcançar qualquer sentimento do leitor: Simon, o pai de Andrew, por exemplo, é um irremediável psicopata que chuta a boca do filho pequeno e o chama de “bichinha” ao observá-lo sangrar. Já em outro momento, o leitor terá que observar um estupro pedófilo que – pasme – consegue não produzir qualquer consequência na trama.

Nem os conflitos políticos, os personagens, Pagford, absolutamente nada em Morte Súbita apresenta qualquer resquício de mudança após as suas quinhentas páginas. Um tigre pode nunca mudar suas listras, mas ao menos ele é uma criatura majestosa, astuta e perigosa, características que certamente não podem ser aplicadas a qualquer personagem desse livro. Imagine só, fã de Harry Potter, os sete livros sem Hogwarts. Sem Dumbledore, o próprio Harry, os Malfoy e Snape. Sem a magia. Sem as divertidas aulas e as empolgantes batalhas. Imagine, portanto, um universo completamente dominado por Dursleys. Pois é. O horror.

por Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo.

Publicado originalmente em 20 de Junho de 2014.


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Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo


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