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Night of Knives / Noite de Facas.

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Posted 06/20/2016 by in Fantasia

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Nota:
 
 
 
 
 

3/ 5

Sumário

Genero:
 
Autor:
 
Editora:
 
Idioma Original:
 
Título: Noite de Facas.
 
Título Original: Night of Knives.
 
Tradução: Lido no original.
 
Edição: 2008.
 
Páginas: 480.
 
Capa: Steven Stone.
 
Resumo:

Ian C. Esslemont pode não ter a mesma perícia que Steven Erikson no manejo da exposição de seu universo, mas ainda assim consegue trabalhá-lo com habilidade, construindo personagens intrigantes e uma trama bem amarrada que avança para um clímax intenso, ainda que em determinado ponto desapontador. No fim, Night of Knives, apesar de falho, permanece se configurando um competente romance de fantasia.

by Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo
Full Article

Há uma nota, no início de Night of Knives, escrita pelo autor de Gardens of the Moon, Steven Erikson, afirmando categoricamente que, apesar de trazer uma história ambientada no mesmo rico universo apresentado em seu romance, o trabalho de seu colega, Ian C. Esslemont, não pode ser considerado fanfiction. O autor afirma que Esslemont, desde os primórdios, participou do processo de elaboração tanto dos personagens que povoam o Império Malazan quanto de seus conflitos. E vai mais além, descrevendo seus livros como um diálogo entre amigos – um diálogo tornado especial pela oportunidade dos leitores de ouvi-lo. De fato, em Night of Knives, Esslemont prova seu conhecimento sobre o mundo do Império Malazan, nunca traindo suas características mais fundamentais. O autor, contudo, oferece uma prosa menos rica e complexa que a de Erikson, pecando em pontos específicos em que seu amigo brilhava.

A maior parte da história de Night of Knives transcorre no decorrer de uma única noite. O cenário é a Cidade de Malazan, uma pequena ilha que foi um dia o berço do Império, mas agora, esquecida e sem importância política e econômica, jaz decadente. É nesse lugar que o velho e imponente guerreiro Temper decide se refugiar da perseguição comandada pela regente Surly. Depois de muitos anos exilado, entretanto, ao identificar uma misteriosa embarcação do Império ancorando no porto, Temper suspeita que seu paradeiro foi finalmente descoberto e começa a averiguar se a missão dos tripulantes do navio é realmente capturá-lo. Enquanto isso, uma jovem e extremamente intrometida ladina, chamada Kiska, deseja mais do que tudo escapar daquela ilha e decide aproveitar a presença dos oficiais para mostrar seu valor e tentar ser recrutada por eles.

Logo no prólogo – dividido em duas partes – é possível averiguar que Esslemont mantém vários elementos da narrativa de Gardens of the Moon. O capitão do navio Rheni’s Dream luta para manter sua embarcação flutuando durante uma forte tempestade de gelo, enquanto criaturas das profundezas – cavaleiros de aspecto humanoide – cercam-no. A morte de pessoas comuns no universo Malazan é costumeiramente retratada como efeito colateral das grandes ações dos personagens, ideia que o autor transmite na construção da cena: primeiramente, o capitão acredita que os cavaleiros vieram porque não fez um dos sacrifícios habituais para satisfazê-los – visto que a tripulação era inteiramente composta por membros de sua família –, então é revelada a imagem dos cavaleiros se estendendo por várias léguas no oceano, formando um exército que marcha para a cidade, completamente alheio aos tormentos do capitão.

Já na segunda parte do prólogo, o leitor é apresentado a um grupo de personagens típicos do universo do livro: seres que vivem em outro plano, detêm grande poder – agem como se fossem praticamente deidades – e que costumam conversar de forma enigmática sobre “o que está por vir”.  Nesse ponto, no entanto, já é visível um dos problemas de Esslemont: a falta de sutileza. Enquanto ler o livro de Erikson é quase como montar um quebra-cabeça, em que as características do universo e dos elementos da trama vão se encaixando aos poucos, a narrativa em Night of Knives peca mesmo com sua objetividade, repetidamente entregando ao leitor o que ele precisa para compreender os acontecimentos da história.

Em uma cena no início do livro, por exemplo, Temper conversa com uma garçonete sobre o navio ancorado na cidade. Quando o protagonista reflete sobre a embarcação pela primeira vez, ele a classifica como sendo um “man-of-war”, já oferecendo informação suficiente para que o leitor naturalmente conclua que se trata de um navio de guerra. Contudo, Esslemont também introduz uma memória, em que Temper relembra o caos e as lutas causadas na cidade na última vez em que navios do tipo ancoraram e, não satisfeito, ainda conclui com o seguinte diálogo, em que, basicamente, transforma o protagonista em um dicionário: “A man-of-war. Front-line vessel. Built for naval engagements, convoy escort, blockades. Not your usual troop transport or merchant scow”.

Outro bom exemplo é a primeira menção ao grupo de mercenários chamado “The Crimsom Guard”. Se em Gardens of the Moon suas intenções era um bocado obscuras, aqui são reveladas sem razão (“The mercenary company sworn to destroy the Empire. The force that handed Malaz its first major defeat by repulsing the invasion of Stratem, and which now opposed the Empire on four continentes”), uma vez que o grupo sequer aparece na história. A exposição em Night of Knives, portanto, não é suave, escancarando o que poderia ter sido somente insinuado.

A estrutura narrativa do livro, por outro lado, é excelente. Os vários elementos que comporão aquela fatídica noite, são gradativamente revelados logo no primeiro capítulo, situando o leitor. Os aldeões alertam tanto Temper quanto Kiska que, assim que o sol se por, uma lua mística surgirá, permitindo que várias criaturas do Reino das Sombras vaguem momentaneamente pelas ruas, e os aconselha a permanecer dentro de casa – os dois, obviamente, sem acreditar nas superstições locais. A trama é revelada junto com seus personagens: Temper não demora a entender que, assim como o capitão do Rheni’s Dream, ele não é o centro das atenções e que forças muito superiores estão para decidir um antiga disputa na cidade. De um lado, os rumores garantem que o desaparecido fundador do Império Malazan, Kellanved, ressurgirá para aproveitar as condições únicas da noite e tentar ascender ao Reino das Sombras, e, do outro, alegam que a regente Surly pretende fazer de tudo para impedir o Imperador e assassiná-lo, tornando-se a Imperatriz de Malazan.

Com isso, diversos grupos se reúnem na cidade para garantir seus interesses. A narrativa acompanha os Bridgeburners, os Talons, os Claws, os Cultistas da Sombra e até mesmo o exército de cavaleiros do mar enquanto marcham pela cidade cada um em busca de seu objetivo, seja derrotar Kellanved, matar Surly ou conseguir o próprio trono das sombras para si. Esslemont trabalha brilhantemente com o conceito de “convergência de poder” apresentado em Gardens of the Moon, contextualizando cada uma das partes e explicando que o motivo de cada uma estar lá é, de algum modo, justamente porque a outra está.

Não obstante, Esslemont também deixa o leitor intrigado ao posicionar os dois personagens principais, Temper e Kiska, em campos opostos na batalha. Primeiramente, o autor firma o guerreiro como legítimo protagonista ao mostrar constantemente seu passado em detalhes e ao fazer um paralelo entre a cidade e ele: ambos foram, um dia, importantes e influentes, mas agora são apenas relíquias do passado.  Depois, Esslemont preocupa-se em criar oposições claras entre os dois personagens: enquanto Kiska é jovem e ingênua, Temper é velho e experiente; se ela promete a si mesma nunca mais se arriscar para ajudar as pessoas, ele o faz sem hesitar; se, por causa de seu passado, Temper está inclinado a lutar por Kellanved, Kiska repudia tudo o que o imperador significa e deseja mudança, aliando-se a também jovem Surly.

Em dado momento no clímax, o leitor acompanha a mesma cena pelo ponto de vista dos dois personagens, podendo observar claramente a diferença entre suas visões de mundo pela forma com que entendem e julgam os acontecimentos. Esslemont até se diverte nessa cena, fazendo Kiska acreditar que o guerreiro, completamente armadurado e sujo de sangue, é um monstro há muito extinto – embora não demore nem dez páginas para um personagem esfregar o significado do simbolismo no leitor.

O universo Malazan, por sua vez, mesmo exposto por Esslemont, permanece fascinante pelo seu grande número de mistérios e surpresas. O exército de cavaleiros do mar, por exemplo, é constantemente impedido por um pescador solitário que usa magia, proveniente de sua cantoria, para bloquear o avanço das criaturas. Uma senhora que cuida de Kiska também insinua saber muito mais do que uma simples comerciante de especiarias deveria, deixando o leitor intrigado. Esslemont compreende que alguns elementos devem permanecer ocultos na narrativa – já que mistérios são geralmente bem mais interessantes que suas soluções – e constantemente posiciona pequenos enigmas e indagações na narrativa.

Além disso, como a história transcorre dentro de um lapso temporal pequeno, o autor tem espaço para aprofundar alguns de seus muitos personagens secundários, com Kellanved e Surly obviamente se destacando. Ambos têm suas caracterizações baseadas no contraste entre a imagem que outros personagens conferem a eles e como realmente são fisicamente: (spoilers sobre a aparência deles:) Kellanved, por exemplo, é descrito como um grande e temível imperador, um genocida maligno e o maior mago que já existiu em Malazan – um dos personagens até chega a chamá-lo de ogro –, mas quando finalmente surge na narrativa, Kiska  vê um homenzinho pequeno, grisalho e frágil, que mais parece um gnomo, se apoia em uma bengala e ainda dá risadinhas maníacas – contraste que reforça o perigo que o sujeito representa. Já Surly, enxergada constantemente como uma mulher extremamente ambiciosa, que sempre sonhou com o Império para si, aparece vestindo roupas humildes e andando descalça – indicando que seu desejo é certamente poder e não dinheiro.

Outro personagem que o autor se aprofunda e para qual oferece uma perspectiva inusitada é um dos antagonistas de Gardens of the Moon que aqui surge protegendo um dos personagens principais, revelando-se cortês e ainda lutando para salvar a cidade. É perceptível, no entanto, o cuidado que Esslemont tem em montar o personagem, uma vez que o autor deixa claro que, apesar das boas ações, as intenções do sujeito ao realizá-las não são exatamente altruístas.

Conduzindo com mão firme o caos que se segue durante os confrontos, o autor só peca na resolução de um conflito em específico, preferindo esconder do leitor o embate final envolvendo os cavaleiros do mar, apenas informando seu resultado. Como as criaturas abrem praticamente todos os capítulos do livro, cria-se expectativa para a resolução da trama que as concerne – uma expectativa eventualmente frustrada pelo descaso do autor. É verdade que já existem lutas demais no clímax e que mais uma prejudicaria de qualquer forma a narrativa, mas a solução arranjada por Esslemont continua sendo problemática.

Ian C. Esslemont pode não ter a mesma perícia que Steven Erikson no manejo da exposição de seu universo, mas ainda assim consegue trabalhá-lo com habilidade, construindo personagens intrigantes e uma trama bem amarrada que avança para um clímax intenso, ainda que em determinado ponto desapontador. No fim, Night of Knives, apesar de falho, permanece se configurando um competente romance de fantasia.

por Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo.

20 de junho de 2016.

Compre:

– Versão Traduzida:

. Saraiva.

– Versão Original:

. Amazon Brasil.


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Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo


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