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O Festim dos Corvos.

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Posted 03/11/2015 by in Fantasia

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Nota:
 
 
 
 
 

1/ 5

Sumário

Genero:
 
Autor:
 
Editora:
 
Idioma Original:
 
Título: As Crônicas de Gelo e Fogo: O Festim dos Corvos.
 
Título Original: The Chronicles of Ice and Fire: A Feast for Crows.
 
Tradução: Jorge Candeias.
 
Edição: 2012.
 
Páginas: 644.
 
Capa: Marc Simonetti.
 
Resumo:

Uma história tem suas exigências, como disse Tolkien uma vez, mas em O Festim dos Corvos o mundo de fantasia ficou maior que o autor conseguiu imaginar e, mais importante, trabalhar.

by Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo
Full Article

O Festim dos Corvos, o quarto volume da aclamada série As Crônicas de Gelo e Fogo, lançado cinco anos após A Tormenta de Espadas, teve um conturbado processo de criação. O autor, primeiramente, decidiu que a trama saltaria cinco anos no tempo, dando margem para que as crianças e os dragões de sua história pudessem crescer. No entanto, muito depois de já ter produzido bastante material, ele optou por abandonar completamente essa ideia, ao notar que mais da metade do que havia sido escrito era em formato de flashback. Desse modo, decidiu recomeçar do zero, voltando o desenrolar da história para o exato instante em que o terceiro volume parou. Já em 2005, George R. R. Martin também percebeu que acabou escrevendo demasiadamente, totalizando um manuscrito de mil e quinhentas páginas, o que obrigou as editoras a requisitarem que tal livro fosse partido em dois. O autor, então, acatou a sugestão e decidiu dividi-lo usando um critério que ao menos ajudasse a manter o foco da narrativa, fracionando-o de acordo com a localização dos personagens. Por esse projeto, O Festim dos Corvos se responsabiliza pelos eventos que se passam no sul de Westeros e A Dança dos Dragões, o quinto livro, pelos do norte da Muralha e do continente de Essos. Contudo, apesar das boas intenções do autor, essa breve exposição histórica já manifesta o grande problema que aflige cada página do romance: a falta de um planejamento eficaz.

Tanto em escala maior, como toda a trama envolvendo os Greyjoy, quanto nos seus mínimos elementos, como o personagem de Hyle Hunt, cada história contada em O Festim dos Corvos mostra ser completamente desprovida de importância ou conclusão.

Os capítulos dos Greyjoy, por exemplo, são seguramente o ápice do que há de pior no livro. O argumento deles é bastante simples: há uma disputa pelo trono das Ilhas de Ferro e Aeron Greyjoy, o profeta afogado, decide resolvê-la por intermédio de um conselho popular. Assim, somos apresentados de forma meticulosa e densa, como é de costume com Martin, aos principais pretendentes ao trono (Asha, Victarion, Euron…), aos diversos personagens secundários como o calmo Leitor, e aos exaustivos preparativos para tal conselho. Todavia, ao seu término, tudo permanece o mesmo. Tanto os personagens como a estrutura política do local saem no mesmo estado em que entraram daquele evento. Ora, se esse conselho não daria em nada, por que, em sã consciência, contá-lo? Se um montador de cinema já corta uma brevíssima cena de alguém tocando a campainha e entrando em uma casa, ao montar um filme, por significar seis segundos inúteis adicionais nele, imagine sua reação ao se deparar com uma trama inteira que, além de soar contextualmente forçada – um conselho popular certamente não combina com o lema da casa Greyjoy: “Nós tomamos o que é nosso” –, não produz qualquer modificação no cenário em que deveria atuar. Afinal, se nada muda, nada acontece.

E se analisarmos os personagens secundários, como o cavaleiro Hyle Hunt, também observaremos que a passagem deles pela história de Westeros é completamente desnecessária. O cavaleiro, por exemplo, não acrescenta qualquer coisa de valor aos capítulos contados sob o ponto de vista de Brienne de Tarth e caso o personagem não existisse nada que aconteceu a ela teria sido modificado. Aliás, quase a plenitude dos capítulos de Brienne também não possui qualquer propósito dentro da narrativa do livro. Sua jornada por Westeros, que jamais chega a lugar algum, teve o intuito de expor as consequências que a Guerra dos Cinco Reis trouxe ao povo daquela região. Mas, novamente, o livro não mostra nenhuma novidade a esse respeito, pois o arco de Arya tanto em A Fúria dos Reis quanto em A Tormenta de Espadas já havia feito o mesmo, ao expor a pequena garota às atrocidades, injustiças e à morte de forma brutal e impiedosa. Portanto, as paisagens desoladas e sujas de sangue, assim como as pessoas traiçoeiras e vis que Brienne encontra jamais surpreendem, e o desfecho de sua história é ainda mais alarmante, se não for devidamente revertido em algum ponto posterior de As Crônicas de Gelo e Fogo.

A parte de Jaime, por mais divertido que seja o personagem, também dificilmente contém algum semblante de arco narrativo, já que não há qualquer prospecto de evolução no personagem. A sinopse na contracapa do livro, para se ter uma ideia, já diz praticamente tudo que acontece com ele: Jaime precisa resolver o sitio à Correrrio, o que coloca em cheque sua promessa feita a Catelyn Stark – sua última forma de resguardar o que restou de sua honra – ao mesmo tempo que gradualmente se afasta de sua irmã. A questão da honra era consideravelmente dispensável, pois foi igualmente tratada, e de forma mais eficaz, no volume anterior; e seu relacionamento com Cersei certamente poderia ser resolvido em apenas um capítulo, embora aqui seja repetido à exaustão.  A quantidade de vezes que Martin repete a frase de Tyrion “…ela tem andado fodendo Lancel e Osmund Kettleblack, e provavelmente o Rapaz Lua, tanto quanto sei…” é, por exemplo, insuportável. Dá para fazer um drinking game: acontece pelo menos uma vez a cada capítulo e chega a existir uma página em que ela aparece três vezes. Quase se iguala à repetição também extensiva no terceiro livro das últimas ordens de Qhorin a Jon, o que sugere uma grande insegurança do autor quanto à verossimilhança das motivações de seus personagens, levando-o a ficar cimentando a mesma área repetidas vezes para deixá-las convincentes. Pelo menos, essa repetição toda serve para tornar cômico o momento em que o cavaleiro realmente chega a sonhar com Rapaz Lua transando com Cersei, seja lá quem o Rapaz Lua for.

Cersei, por sua vez, surpreende ao possuir o arco mais importante para o avanço da história. Martin, por atribuí-la uma personalidade completamente perturbada, cria uma personagem que consegue ser simultaneamente irritante e fascinante. Para Cersei, tudo é sempre uma grande conspiração: se uma criada sorri para ela, Cersei imediatamente começa a deduzir os motivos de tal sorriso e seu significado escondido, concluindo que a criada obviamente é uma espiã, que aquele riso era de escárnio, que aquela criada é uma insolente, que representa um perigo descomunal para seus filhos e para o reino e que por esses motivos deve ser abatida como a mosca que é. Esse clima de paranoia é extensivo em seus capítulos: todo o reino está contra ela, todos seus conselheiros são inúteis e o destino dos Sete Reinos repousa inteiramente sobre seus ombros. Cersei, por isso, tenta sempre provar não seu valor, mas sua força. É interessante, portanto, notar que ao mesmo tempo em que ela quer ser o filho que Tywin Lannister sempre desejou – irresoluta, sábia, meticulosa e forte – e tenta mostrar isso para o resto da corte, considerando-se incrivelmente bem sucedida na empreitada, as outras pessoas ficam atônitas ao observá-la fazendo escolhas cada vez mais dúbias e colocando-se gradativamente no fundo do poço. Seu arco é de longe o mais bem trabalhado e complexo do livro, tendo como único ponto negativo a estranha ideia de Martin de transformá-la na rainha de A Branca de Neve, ao repetir exaustivamente (como sempre) uma profecia aleatória em que ela seria rainha até que uma garota, mais bela e mais forte, aparecesse para roubar sua coroa. Novamente, essa estratégia parece demonstrar fortemente a insegurança do autor e a necessidade que ele sentiu de reforçar o ódio que ela poderia sentir por Margaery. Um ódio que já estava suficientemente pavimentado sem essa profecia.

A qualidade da história de Cersei destoa tanto do resto das tramas que até seus personagens secundários são interessantes. Dos irmãos Kettleback – os “caçadores de A Branca de Neve” –  ao misterioso Pardal e sua seita, todos têm sua importância e vão formando aos poucos os acontecimentos finais. Com o destaque para o meistre Qyburn que, ao realizar experiências em um laboratório secreto em Porto Real, revela-se sádico e sinistro, ajudando a fomentar a atmosfera sufocante dos capítulos da personagem.

Não obstante, o resto do livro sofre de graves problemas de resolução. A trama que se passa no sulista reino de Dorne, além de extremamente tardia, não possui qualquer fechamento, característica que também se aplica aos pontos de vista das irmãs Alayne Stone e Cat dos Canais, que nem conseguem finalizar os diferentes treinamentos a que são submetidas. Enquanto isso, Samwell Tarly simplesmente viaja a trabalho e tem um final que somente fãs ardorosos, ou que tenham a paciência de pesquisá-lo na internet, compreenderão.

George R. R. Martin tentou conferir um ritmo mais lento à narrativa e dar à história um tom mais filosófico, reflexivo e melancólico, mas a verdade é que se deixou ser engolido pela própria criação. Muito preocupado com detalhes ínfimos, como as vestes e as refeições de seus personagens, ele se esquece de fazer suas reflexões e suas metáforas chegarem a algum lugar no qual seus outros livros já não caminharam. Uma história tem suas exigências, como disse Tolkien uma vez, mas em O Festim dos Corvos o mundo de fantasia ficou maior que o autor conseguiu imaginar e, mais importante, trabalhar. A solução, portanto, aparentemente não era cortá-lo em dois, mas lapidá-lo, retirando todas as grandes lascas sem real importância e entregando ao leitor uma obra bem mais eficiente.

por Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo.

Publicado originalmente em 21 de Setembro de 2013.


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Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo


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