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O oceano no fim do caminho.

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Posted 04/09/2015 by in Infantojuvenil

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Nota:
 
 
 
 
 

4/ 5

Sumário

Genero:
 
Autor:
 
Editora:
 
Idioma Original:
 
Título: O oceano no fim do caminho.
 
Título Original: The ocean at the end of the lane.
 
Tradução: Renata Pettengil.
 
Edição: 2013.
 
Páginas: 208.
 
Capa: Julio Moreira.
 
Resumo:

O livro excele ao tratar de temas fortes, como a violência familiar. No fim, não é a criatura de lona o monstro mais terrível da história, mas o ser humano. A fantasia, consequentemente, é, apesar de abundante, somente uma ferramenta para Neil Gaiman discutir problemas familiares em uma história pequena, mas imensamente sensível.

by Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo
Full Article

O oceano no fim do caminho é uma história de fantasia infantojuvenil peculiar: seus momentos mais impactantes não são os de alegria, aventura, descoberta ou magia, mas os violentos e realistas. O fantástico é quase uma desculpa do autor para tratar desses assuntos: a imaginação não é o objetivo da história, mas o pretexto.

O protagonista – seu nome não é revelado – é um garoto introspectivo e sem amigos. Ele passa a maior parte de seu dia enfurnado em livros e explorando os bosques ao redor de sua casa.  É um menino curioso e inocente, que gosta de seu gato chamado Fofinho e da atmosfera tranquila de seu lar. Sua vida, porém, muda quando ele conhece uma estranha menina, Lettie Hempstock, em uma fazenda próxima a sua casa.

A família Hempstock o apresenta ao inimaginável: a existência de vários mundos impressionantes onde gatos nascem do chão e criaturas anciãs fazem sua morada. Ao voltar de sua primeira expedição com Lettie, o menino descobre que corre grande perigo por ter trazido consigo algo dos outros planos: um monstro feito de lona (“Uma estrutura desbotada envelhecida pelo clima e rasgada pelo tempo”) que, tomando a forma de uma bela e simpática governanta, é contratado por seus pais.

O livro é narrado em primeira pessoa, sob a perspectiva do protagonista já adulto que, observando o lago a qual Lettie sempre se referiu como um oceano, mergulha em pensamentos nostálgicos e começa a recordar aquela época de forma saudosista.

A noção de passagem de tempo é um elemento importante no livro, que traça diversos comentários sobre seus efeitos. Há constantes comparações entre crianças e adultos (“Adultos seguem um caminho. Crianças exploram”) que ajudam a contrapor a posição que ambos exercem na narrativa: os adultos causam medo no protagonista – os gritos de seu pai o fazem chorar – enquanto o mesmo busca conforto na juventude representada por Lettie.

Os Hempstock são, por sua vez, imunes ao tempo. Eles são a epítome dos elementos fantásticos do livro, se mostrando capazes de fazer qualquer coisa: ora costuram o tempo, recortando passagens dele, ora moldam sua própria constelação, deixando a lua com o formato que mais lhe agradam, ora conseguem fazer um oceano caber em um simples balde. A aparente inexistência de limites para o alcance dos poderes da família proporciona divertidas passagens, como o instante em que a Sra. Hempstock revela o jeito com que conseguiu precisar a idade de uma moeda depois de encará-la por poucos segundos: “Boa pergunta, amorzinho. Basicamente pelo decaimento dos elétrons. Eles são os pequenininhos, que parecem minúsculos sorrisos. Os nêutrons são os cinzentos, que parecem testas franzidas. Os elétrons estavam todos um pouquinho sorridentes demais para 1912”.

Esse poder imensurável, todavia, também causa um efeito negativo na narrativa. Como os Hempstocks são capazes de fazer tudo, o leitor sabe que eles se configuram um invencível porto seguro para o personagem principal. Dessa forma, a tensão que deveria ser transmitida pelas ameaças da criatura de lona se esvai completamente, e a vilã acaba soando tola, em vez de assustadora.

Esse é, porém, um dos motivos pelos quais as complicadas relações mantidas entre a família do protagonista se destacam. Os Hempstocks e o monstro de lona são seres fantásticos, etéreos, que lidam um com o outro segundo suas próprias leis. Já o pai, sua raiva e seus gritos fazem parte da realidade do menino e não há ninguém para socorrê-lo em casa. É impressionante o momento em que o garoto reflete, quando o pai diz que jamais bateria nele como seu próprio fazia, se realmente deveria sentir-se grato, visto que seu tormento seria bem menos longo caso simplesmente apanhasse.

Neil Gaiman torna impossível para o leitor não torcer pelo protagonista. O menino transmite fofura e inocência ao se referir a muitas coisas no diminutivo (“gatinho”“fofinho”“revistinha”). Além disso, se mostra safo – culpa dos livros – e virtuoso (“Eu não sabia mentir”). Ele é um menino encantador que, mesclando doses iguais de ingenuidade e esperteza, está sempre tentando entender o mundo que o cerca (“As plaquinhas que explicavam quem eles eram também me informaram que a maioria havia assassinado a família e vendido os corpos para a anatomia. Foi aí que, para mim, a palavra anatomia ganhou um quê de pavor. Eu não sabia o que era anatomia. Só sabia que a anatomia fazia as pessoas matarem os filhos”).

A intensa jornada que o protagonista vive é, portanto, de amadurecimento. Neil Gaiman cria impressionantes imagens no clímax da história para representar o processo de descoberta do garoto, fazendo-o enfrentar sua família e seus medos. Se no início o monstro de lona zomba a criança, a ridicularizando e diminuindo enquanto ela foge (“Ah, docinho-lindinho-de-coco, você está tão encrencado”), no fim, o menino surge mais sábio, escolhendo assumir a responsabilidade de suas ações e proteger aqueles que ama.

O oceano no fim do caminho excele ao tratar de temas fortes, como a violência familiar. No fim, não é a criatura de lona o monstro mais terrível do livro, mas o ser humano. A fantasia, consequentemente, é, apesar de abundante, somente uma ferramenta para Neil Gaiman discutir problemas familiares em uma história pequena, mas imensamente sensível.

por Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo.

Publicado originalmente em 09 de Dezembro de 2014.


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Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo


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