Seu primeiro portal para notícias e críticas literárias!

 


O Palácio da Meia-Noite.

0
Posted 07/04/2016 by in Infantojuvenil

Rating

Nota:
 
 
 
 
 

3/ 5

Sumário

Genero:
 
Autor:
 
Editora:
 
Idioma Original:
 
Título Original: El palacio de la Medianoche.
 
Tradução: Eliana Aguiar.
 
Edição: 2013.
 
Páginas: 271.
 
Capa: Marcela Perroni.
 
Resumo:

O Palácio da Meia-Noite é o segundo romance infantojuvenil escrito pelo autor Carlos Ruiz Zafón. Sua história é marcada por tragédia e uma noção pessimista de mundo, mas também pelo excesso de personagens e por uma estrutura narrativa problemática.

by Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo
Full Article

O Palácio da Meia-Noite é o segundo romance infantojuvenil escrito pelo autor Carlos Ruiz Zafón. Sua história é marcada por tragédia e uma noção pessimista de mundo, mas também pelo excesso de personagens e por uma estrutura narrativa problemática.

O livro começa com a fuga de um tenente pelas ruas sombrias de Calcutá. O perseguidor de Pike é implacável e está atrás dos dois bebês que ele carrega sob seu casaco. O tenente, mesmo gravemente ferido, consegue alcançar a casa da avó das crianças, onde as entrega e parte rapidamente para despistar seu inimigo. A senhora, Aryame, também decide fugir, mas não sem antes separar os irmãos: ela viaja com a pequena Sheere, deixando Ben na porta de um orfanato. Dezesseis anos depois, as crianças finalmente se reencontram, mas justamente na época em que um fantasma do passado – um homem com olhos de fogo – decide voltar a persegui-los.

O protagonista da história é Ben, um garoto que, crescendo em um orfanato, formou um clube secreto com seus amigos Ian, Isobel, Michael, Siraj, Roshan e Seth. A Chowbar Society encontra-se com frequência à noite em um casarão abandonado, apelidado carinhosamente de Palácio da Meia-Noite. O objetivo do clube é preencher o vazio afetivo deixado pela criação deles, com cada membro prometendo ajudar os outros incondicionalmente.

A tristeza é o fio que conecta todos os personagens e eventos do livro. Os membros da Chowbar Society são crianças melancólicas que veem na existência do clube uma forma de serem capazes de fingir estar bem. Por terem sido largadas no passado, elas não têm esperança no futuro. Há um forte grau de pessimismo em suas ideias: esses jovens acreditam que suas amizades vão se desfazer assim que se separarem ao crescer, que irão parar de manter contato, focando-se em assuntos mais sérios. Além disso, veem a vida adulta com maus olhos: se a juventude é ruim, acham que o que lhes aguarda é ainda pior.

Zafón delineia essas características perfeitamente em dois momentos específicos no livro. O primeiro é o relato do esforço conjunto de todos para conseguir comprar uma passagem para Ian, que deseja ser médico, pois acreditam ser ele o único do grupo com chances reais de conseguir algum sucesso financeiro. O segundo, e mais revelador, é o desenho que Michael faz de seu clube e entrega a seus amigos, expondo o fato de todos viverem com uma máscara:

“Os traços de lápis-carvão de Michael situaram o grupo diante de um lago onde flutuava o reflexo de seus rostos. No céu, uma grande lua cheia e, no fundo, um bosque que se perdia na distância. Ben examinou os rostos refletidos e imprecisos na superfície do lago, comparando com os rostos das figuras representadas diante do laguinho. Nenhum deles tinha a mesma expressão que seu reflexo”.

O único membro fascinante do grupo, porém, é sua nova integrante, Sheere. A garota viveu em fuga com sua avó, nunca permanecendo no mesmo lugar por tempo suficiente para conseguir formar amizades. Com isso, ela sente-se desamparada no mundo, ressentindo a infância que passou basicamente sozinha – o que também entrega forte carga dramática a seu último diálogo no livro. Em um tocante monólogo, ela expõe a seus primeiros amigos como ninguém nunca levou suas dores a sério por causa de sua aparência e idade:

“[..] Lembrei que inventava amigos invisíveis e conversava com eles nas salas de espera das estações, nos ônibus. Os adultos olhavam para mim e sorriam. A seus olhos, uma menina falando sozinha era uma visão adorável. Mas não era, Ben. Não é nada adorável estar sozinho, nem para uma criança, nem para um velho. Passei anos me perguntando como seriam as outras crianças, se tinham os mesmos pesadelos que eu, se eram tão infelizes quanto eu. Quem disser que a infância é a época mas feliz da vida é um mentiroso ou um idiota”.

Já o resto dos integrantes da Chowbar Society – e isso inclui o protagonista – são personagens planos, definidos por alguma característica marcante que jamais se modifica: Ben é aventureiro, por exemplo, enquanto Michael é perceptivo. Assim, não será surpreendente se o leitor começar a confundir os nomes em sua cabeça, principalmente daqueles menos frequentes, como Seth, Roshan e Siraj. O Palácio da Meia-Noite sofre por ter personagens demais e páginas de menos para desenvolvê-los adequadamente.

Ainda mais problemática é a estrutura narrativa do livro. A história começada sendo narrada em primeira pessoa por um Ian idoso e nostálgico que trata os eventos que irá contar como fatos. No entanto, Zafón emprega um narrador em terceira pessoa onisciente em boa parte da história. Uma estratégia que não faz o menor sentido, uma vez que, por esse método, Ian acaba narrando eventos que não presenciou com uma indevida riqueza de detalhes e diálogos.

Não suficiente, Zafón ainda torna a história da origem do vilão o centro dramático do livro, embora decida seguir Ben e seus colegas em vez do antagonista. O resultado é a necessidade frequente de interromper a narrativa com longos flashbacks expositivos.

O sinistro homem que persegue Ben e Sheere chama-se Jawahal e é uma cria do imperialismo inglês. O autor não esconde a natureza da alegoria ao colocar o personagem como produto direto da violência perpetrada por ingleses e, em certo ponto, ao comparar o orfanato do protagonista à própria Índia: a exploração inglesa não somente causou dor e arruinou a vida de seus habitantes, como transformou a geração seguinte em órfãos sem futuro. A escolha do cenário do livro também é brilhantemente explicada em uma passagem que conecta o sobrenatural à alegoria:

“Os lugares que abrigam a tristeza e a miséria são o lar predileto das histórias de fantasmas e aparições. Calcutá guarda em seu rosto obscuro centenas dessas histórias, que, embora ninguém tenha a coragem de confessar que acredita nelas, sobrevivem na memória de gerações como a única crônica do passado”.

Jawahal é o personagem mais fascinante do livro: seu arco narrativo o transforma de um homem idealista a um monstro assassino, desprovido de esperança. Sua história com a mãe de Ben comove o leitor, sua relação com o pai gera reviravoltas, e seu projeto de vida é a grande tragédia de O Palácio da Meia-Noite. Um ser nascido do ódio, Jawahal revela-se um antagonista assustador, com seus poderes sobrenaturais sendo revelados aos poucos e gradativamente se mostrando ilimitados – o que aumenta a tensão ao levar o leitor à conclusão de que os personagens principais não têm nenhuma chance contra o vilão. Até sua primeira aparição é bem preparada por Zafón, que sugere a natureza de Jawahal ao fazer o tenente Pike considerar a possibilidade de que seu adversário descubra sua localização ao “cheirar seu medo”.

No entanto, o protagonista da história é Ben e não Jawahal. Com isso, o livro parece estruturalmente perdido, colocando os holofotes no personagem menos interessante, enquanto interrompe sua história frequentemente para contar o que de fato importa. É sintomático o tão pouco que de fato ocorre na trama do protagonista: Ben encontra Sheere, descobre que tem alguém atrás deles, realiza uma breve investigação e já entra no embate final. O grosso dos acontecimentos, na verdade, está concentrado em Jawahal e são contados por Aryami em longas passagens expositivas.

Também é notável o erro de não explicar com alguma profundidade a relação que Pike mantinha com o vilão e com os pais de Ben, visto que é uma figura importante no início da história: o tenente é descartado pelo autor assim que cumpre sua função de salvar as crianças, raramente voltando a ser mencionado.

Para O Palácio da Meia-Noite ser um grande livro ele teria que sofrer uma profunda reestruturação narrativa, largando a ilógica narrativa de Ian e, possivelmente, contando as duas grandes histórias paralelamente. Da forma que está, porém, é um livro bem escrito, mas sem foco.

por Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo.

04 de julho de 2016.


About the Author

Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo


0 Comments



Be the first to comment!


Deixe uma resposta

Twitter Auto Publish Powered By : XYZScripts.com