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O Problema dos Três Corpos.

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Posted 08/08/2016 by in F. Científica

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Nota:
 
 
 
 
 

4/ 5

Sumário

Genero:
 
Autor:
 
Editora: ,
 
Idioma Original:
 
Título: O Problema dos Três Corpos.
 
Título Original: 三体
 
Tradução: Ken Liu (Versão em inglês).
 
Edição: 2015.
 
Páginas: 434.
 
Capa: Stephen Martiniere.
 
Resumo:

The Three Body Problem (O Problema dos Três Corpos), escrito por Cixin Liu, é uma ficção científica eficiente que traz diversas discussões sobre a capacidade do ser humano de lidar com outros e consigo mesmo.

by Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo
Full Article

The Three Body Problem (O Problema dos Três Corpos), escrito por Cixin Liu, é uma ficção científica eficiente que traz diversas discussões sobre a capacidade do ser humano de lidar com outros e consigo mesmo. Fascinando o leitor com a criatividade de seu universo, o livro decepciona apenas por possuir um final anticlimático e alguns personagens pouco desenvolvidos.

O protagonista da história é o cientista chinês Wang Miao, cuja pesquisa em nanotecnologia é colocada em xeque quando um misterioso grupo de indivíduos ameaça-o de forma aparentemente sobrenatural: Miao começa a enxergar uma contagem regressiva flutuando em seu campo de visão, independentemente de para onde olhe.

A busca por respostas eventualmente leva o cientista a um jogo de videogame de realidade virtual chamado “Três Corpos”, onde ele precisa solucionar um problema aparentemente impossível para conseguir descobrir o que está acontecendo em seu próprio mundo.

As cenas que transcorrem no videogame são as mais mirabolantes na sua construção visual, gerando imagens que beiram o surreal. No universo de Três Corpos, os indivíduos são desidratados e reidratados, com o comando de seu chefe de estado, para conseguir sobreviver às adversidade naturais causadas pelo sol: ora muito próximo e forte, queimando as pessoas, ora ausente por anos, congelando a todos, o astro desafia os maiores acadêmicos do lugar à encontrar um padrão em sua movimentação. O objetivo do jogo é conseguir elaborar um calendário capaz de prever quando o mundo entrará em uma era estável (onde o sol se comporta como o esperado) e quando ela terminará, dando lugar a uma era caótica (onde o sol surta e deixa de agir segundo qualquer lógica).

Enquadrando-se no gênero de “Hard Science Fiction” (a ficção científica cujo ponto é a explicação minuciosa da ciência, com abundância de termos técnicos), o livro traz nessas sequências em realidade virtual um choque muito forte entre o surrealismo e o científico: no meio de todas as extensas ponderações técnicas sobre movimentos de astros e elaboração de tecnologias, estão situações que beiram o absurdo em sua natureza. Em um momento, Isaac Newton e Leibniz surgem duelando com espadas em frente a uma pirâmide no estilo gótico, comandada por um papa, para decidir quem inventou o cálculo, enquanto, em outro, milhões de soldados em formação comunicam-se por bandeiras coloridas para resolver equações matemáticas como se fossem um computador.

Esse contraste é ainda expandido ao final do livro, em que situações cada vez mais fantásticas (um próton aberto em três dimensões sendo limpo da órbita de um planeta, após tentar destruí-lo) são explicadas cada vez mais detalhadamente em termos cada vez mais cabulosos.

O autor, aliás, trabalha bem com o gênero escolhido ao avançar a trama por meio dessas explicações – que, de outro modo, seriam insuportáveis devido à sua frequência e tamanho. Uma vez que os grandes mistérios da história estão conectados ao funcionamento de tecnologias, quanto mais elas são detalhadas, mais eles são desvendados. Liu também merece aplausos por, na condução inicial do problema em Três Corpos, dar chance ao próprio leitor – PhD em astrofísica – de tentar chegar a uma solução por si próprio, posicionando várias pistas que apontam para a resposta correta.

A mistura realizada entre técnica e loucura funciona em O Problema dos Três Corpos por refletir o drama que os cientistas da própria história enfrentam. Quando Miau passa a enxergar a contagem regressiva, por exemplo, ele luta para tentar arranjar uma razão plausível para o evento, sem sucesso. Além dele, físicos teóricos ao redor do mundo estão cometendo suicídio após duvidar da validade de seu campo de estudos. Há, portanto, um choque entre ciência e insanidade, com esta surgindo após a primeira falhar em seu propósito de explicar a natureza.

Não obstante, Liu também insere algumas discussões políticas e sociais em sua história, construindo um conflito adicional entre ciência e política. O livro inicia com a morte de um professor de física durante a Revolução Cultural Chinesa: os revolucionários são retratados como jovens entusiasmados, mas violentos e tolos – devido, principalmente a sua tendência de superutilizar termos como “reacionário” (aquele considerado mais inteligente entre eles defende que a Teoria da Relatividade é reacionária e um símbolo do capitalismo) – enquanto os militares que os reprimem surgem desnecessariamente brutais, chegando a vandalizar o corpo de uma menina de quinze anos.

A Revolução Cultural é frequentemente criticada na narrativa, sendo até classificada, sem rodeios, como “má” em determinado instante. Liu não é um autor que preza pela sutileza e seus ataques ao evento histórico são fortes e diretos. Na história, o avanço da ciência é bloqueado devido a problematizações ideológicas completamente loucas. Em certo momento, por exemplo, um cientista é impedido de realizar um experimento que envolve apontar uma antena para o sol, porque a ação permite interpretações simbólicas perigosas, já que o líder político na China era chamado de Sol.

Quem conecta a maioria desses elementos e carrega toda a força dramática da história não é o protagonista, mas a cientista chamada Ye Wenjie. As injustiças e tragédias da Revolução Chinesa fazem Wenjie ressentir a existência das pessoas. Ela é uma mulher pessimista, incapaz de enxergar um futuro positivo para humanidade, a qual considera estar evoluindo apenas em sua estupidez e capacidade de autodestruição. A narrativa revela sua imensa sensibilidade para eventos externos – uma pequena amostra de bondade é suficiente para fazê-la questionar momentaneamente seus ideais –, o que torna a personagem ainda mais trágica por indicar que suas ações terríveis poderiam ter sido evitadas caso tivesse vivido em um meio menos cruel.

Outro personagem já é responsável por questionar a importância da própria humanidade no planeta Terra, defendendo que ela põe em risco outras espécies e o meio ambiente em prol de um conforto temporário – ele chega a mencionar o fato dos Estados Unidos não terem assinado o Protocolo de Kyoto como exemplo do egoísmo coletivo que assola os seres humanos.

No entanto, mesmo desenvolvendo corretamente vários temas interessantes, Liu falha na condução narrativa quando vai trabalhar com os elementos típicos dos thrillers de Dan Brown que ele colocou em sua história: ela contém uma conspiração de nível mundial, discussões sobre a existência de alienígenas e até problematiza inicialmente as possíveis descobertas dos aceleradores de partícula – embora a postura do autor quanto a essa tecnologia revele-se aos poucos inteiramente positiva, considerando-a integral para o avanço tecnológico da humanidade.

Liu, porém, copia o que há de pior em Dan Brown, principalmente ao trazer um protagonista que não poderia ser mais vazio. Wang Miao não tem personalidade, mostrando-se passivo diante dos eventos e servindo mais como uma ferramenta para a história do que como indivíduo próprio: seu amor por tirar fotos, por exemplo, é prontamente descartado após sua função narrativa ser cumprida. Não é a toa que é Wenjie quem mais se destaca na história, afinal se trata de uma das únicas personagens no livro com arco dramático e personalidade ativa, capaz de criar acontecimentos e não só de reagir a eles. É uma pena, portanto, que na maior parte do tempo a perspectiva seguida seja a de Wang e não dela.

Além disso, a trama envolvendo a conspiração mundial termina de forma anticlimática: o livro é o primeiro de uma trilogia e seu clímax funciona mais como um ponto de virada – o final do primeiro ato – do que como uma conclusão propriamente dita, deixando inúmeros arcos e conflitos em aberto.

O Problema dos Três Corpos é um livro que funciona muito bem quando trabalha com seu gênero principal, misturando explicações complexas sobre tecnologias com eventos de natureza absolutamente fantástica. Quando parte para o com suspense, porém, o romance já se revela falho, trazendo um protagonista desinteressante e um final decepcionante.

por Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo.

08 de agosto de 2016.


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Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo


One Comment


  1.  

    Excelente a crítica ao livro. Retrata 100% o que senti ao terminar de lê-lo. A parte do livro que trata a história como “Hard Sci-Fi” é excelente e se torna, de fato, uma boa aula para leigos e não torna o livro impossível de ser lido por este público. Personagens vazios e tramas sem objetivo, somados a uma dose extra de situações forçadas para gerar um desfecho para situações pontuais no livro, tiram um pouco da magia criada pelo autor, mas não torna o livro ruim como um todo. Ainda assim, recomendo a leitura e com certeza comprarei os demais livros da trilogia.





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