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Os homens que não amavam as mulheres.

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Posted 04/02/2015 by in Detetive

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5/ 5

Sumário

Genero: ,
 
Autor:
 
Editora:
 
Idioma Original:
 
Título: Os homens que não amavam as mulheres.
 
Título Original: Mam som hatar kvinnor.
 
Tradução: Paulo Neves.
 
Edição: 2013.
 
Páginas: 522.
 
Capa: Retina 78.
 
Resumo:

Embora o foco da crítica seja a Suécia, os problemas descritos no livro são universais, ocorrendo em praticamente todos os países do mundo, inclusive no Brasil.

by Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo
Full Article

Apesar de ser uma eficiente história de detetive, Os homens que não amavam as mulheres configura-se, acima de tudo, um desabafo sobre a sociedade sueca. Stieg Larson cria, no primeiro volume da trilogia Millenium, personagens fascinantes e um suspense envolvente, mas coloca como ponto central de sua história uma forte crítica à situação das mulheres em seu país.

Mikael Blomkvist, editor-chefe da revista mensal Millenium, era um jornalista odiado, mas respeitado por muitos colegas de profissão até acusar de corrupção um poderoso empresário sem as provas necessárias e ser condenado pela justiça por calúnia. Aproveitando a instabilidade profissional de Mikael, o velho magnata Henrik Vanger o contrata para auxiliar em uma antiga investigação que assombra sua família há mais de duas décadas: o assassinato da menina Harriet Vanger. Sozinho e sem prospecto algum de sucesso, Mikael busca a ajuda de uma investigadora particular bastante peculiar, Lisbeth Salander.

O protagonista Mikael Blomkvist é descrito como um homem incorruptível e crítico da sociedade. Um jornalista utópico que vai atrás da verdade e considera uma missão pessoal desvendar os podres de empresários milionários e corruptos. Ele ataca a mídia sueca, afirmando que os jornalistas econômicos não passam de papagaios que repetem as notas divulgadas por dirigentes de empresas sem questionar, quando não são patifes que distorcem as informações para manipular a população. “E é assim que o futuro da Suécia está sendo moldado, minando-se a última confiança ainda depositada nos jornalistas como categoria profissional”, o personagem chega a refletir em certo instante, compondo uma lição que não poderia ser mais significativa para os brasileiros.

O empresário Henrik Vanger encabeça o núcleo de suspense do livro. A primeira descrição que ele faz de sua família é emblemática: “Ela é principalmente formada por trapaceiros, aproveitadores, fanfarrões e incapazes. Dirigi o grupo durante trinta e cinco anos, praticamente sempre envolvido em lutas implacáveis com os demais membros da família. Eles é que eram meus piores inimigos, não meus concorrentes”. São justamente os integrantes da família Vanger os principais suspeitos do assassinato que Mikael precisa investigar em Heddestad, uma ilha isolada do continente sueco, conectada a ele por apenas uma ponte.

O caso de Harriet é um típico “mistério do quarto fechado”, como os próprios personagens discorrem a respeito. Ela desapareceu no dia em que um acidente de carro bloqueou a única saída de Heddestad pela ponte. Como ninguém conseguiria chegar ou escapar da ilha, o assassino só poderia ser uma das pessoas presentes no momento do acidente. Henrik deixa claro que seus parentes são pessoas horríveis – vários chegaram a simpatizar com o nazismo – e, principalmente, inteligentes.

O leitor é imediatamente fisgado. O protagonista está exilado em uma ilha, no inverno sueco, completamente cercado por pessoas terríveis que deve interrogar pessoalmente, sabendo que uma delas é capaz de matar, contratado por um homem famoso por sua esperteza que, apesar de tratá-lo com gentileza, não hesita em manipulá-lo quando lhe convém. Larson, portanto, é hábil em transmitir ao leitor a sensação de isolamento e medo de Mikael.

Um dos aspectos de Os homens que não amavam as mulheres que mais salta aos olhos durante a leitura é a construção narrativa. Mesmo no início, quando está apresentando os personagens, Larson mantém o leitor interessado, incitando questionamentos sobre os mesmos. Se o protagonista é um jornalista tão eficiente e impecável, como ele se deixou publicar uma matéria importante com poucas evidências? Se Henrik Vanger é tão esperto e manipulador, como ele não sabe o que aconteceu a Harriet? As dúvidas vão capturando o leitor e o estimulando a se atentar aos detalhes oferecidos para construir suas teorias.

Porém, mesmo elaborando uma boa história de suspense, a trama de Os homens que não amavam as mulheres é um mero pretexto para o autor criticar a forma com que as mulheres são tratadas na sociedade sueca. O tema é representado no livro por Lisbeth Salander, a competente investigadora particular que aceita ajudar Mikael no caso de Harriet.

A primeira aparição de Lisbeth é sob a perspectiva de outro personagem, seu chefe Dragan Armanskij. Ela é caracterizada como uma figura deslocada que, apesar de ser muito competente em seu trabalho, é totalmente isolada de seus colegas: “e pela milésima vez constatou que ninguém parecia mais mal instalada que ela numa empresa de segurança”. Em sua descrição inicial, ela é observada sob o ponto de vista de um homem hierarquicamente superior que a compara com um animal de estimação e a considera fisicamente frágil: “Armanskij teve dificuldade de se habituar ao fato de seu melhor cão de caça ser uma jovem pálida, de uma magreza anoréxica, com cabelos quase raspados e piercings no nariz e nas sobrancelhas”. Ou seja, a enorme sensação de inferioridade com relação às mulheres já se encontra perfeitamente presente na imagem de Lisbeth desde o início do livro.

Lisbeth Salander, no entanto, é um símbolo de revolta. Apesar de ser magra, pequena e pálida, ela é inegavelmente a personagem mais forte do livro. Seu arco é o mais intenso e, por tratar exatamente de abuso sexual e maus-tratos, se ajusta mais ao tema proposto pelo autor do que a jornada do suposto protagonista, Mikael. Ela é quem Larson usa para “dar o troco”: ela surge como uma justiceira, que não teme punir severamente estupradores, assassinos ou quaisquer indivíduos cruéis que apareçam em seu caminho. Ela cativa o leitor justamente pela oposição entre sua aparência frágil e sua fúria implacável – seu grande intelecto reforçando ainda mais a empatia.

Stieg Larson trabalha com os maus-tratos às mulheres de forma crua e realista em seu livro. No início de cada capítulo ele expõe dados estatísticos alarmantes: “Na Suécia, 13% das mulheres foram vítimas de violências sexuais cometidas fora de uma relação sexual”. O autor, usando o ponto de vista dos personagens, revela e critica fervorosamente as absurdas e criminosas posições sobre o assunto – quando, por exemplo, Lisbeth reflete que “Enquanto mulher, ela era uma presa autorizada” o ódio que ela sente pela sociedade é palpável. Pessoas que dizem “Ah, mas ela não era nenhuma santinha” em casos de estupro, como se a vítima, por seus modos, tivesse contribuído para o crime, são ferrenhamente combatidas no livro e seus retórica absurda criticada constantemente. Em outro instante, após uma personagem ser estuprada, a mesma conclui que não vale a pena ir até a polícia, pois eles apontariam para sua forma de vestir, ririam da situação e ainda diriam que “ela devia mais era se orgulhar de alguém tê-la tocado”. Aliás, através da perspectiva feminina, a polícia é brevemente tratada como uma ferramenta de ataque e controle da população, reprimindo-a ao invés de protegê-la.

Stieg Larson era jornalista na época em que escreveu o livro e seu ofício é perceptível não somente na paixão com que discursa sobre os problemas sociais de seu país, como também na precisão com que descreve elementos inerentes à profissão do protagonista – é incrível, por exemplo, o nível de detalhes técnicos presentes na cena em que Mikael analisa negativos em um arquivo antigo. O autor também acerta nos pequenos momentos de humor do livro que, por serem esparsos, funcionam por sua imprevisibilidade – um ótimo exemplo sendo as inusitadas comparações entre um dos membros da família Vanger e a criatura Gollum de O Senhor dos Anéis.

Larson só comete alguns deslizes com a presença de diálogos expositivos e com relação a algumas atitudes do protagonista ao longo da investigação, uma vez que Mikael prefere volta e meia confrontar diretamente os principais suspeitos do crime a informar suas descobertas a Henrik. O autor, entretanto, reconhece a incredulidade das ações de seu personagem, chegando a afirmar que ele “estava longe de ser um detetive particular objetivo”.

Por outro lado, Larson merece aplausos por conseguir conectar naturalmente a trama de assassinato com o tema do livro, gerando um clímax que, mesmo não sendo surpreendente, soa apropriado e, consequentemente, satisfatório.

Os homens que não amavam as mulheres pode até conter uma trama bem desenvolvida, um clímax empolgante e personagens memoráveis, mas é seu tema que mais afetará o leitor. Por isso, é ainda mais importante atestar que, embora o foco da crítica seja a Suécia, os problemas descritos no livro são universais, ocorrendo em praticamente todos os países do mundo, inclusive no Brasil.

por Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo.

Publicado originalmente em 17 de Outubro de 2014.


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Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo


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