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Trono do Sol.

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Posted 03/12/2015 by in Fantasia

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Nota:
 
 
 
 
 

2/ 5

Sumário

Genero:
 
Autor:
 
Editora:
 
Idioma Original:
 
Título: O Trono do Sol: A Magia da Alvorada.
 
Título Original: The Nessantico Cycle: A Magic of Twilight.
 
Tradução: André Gordirro.
 
Edição: 2012.
 
Páginas: 574.
 
Capa: Simone Villas-Boas..
 
Resumo:

Ao diminuir o desenvolvimento de seus personagens e de suas ideias para dar ênfase nas traições previsíveis e nas batalhas não tão empolgantes, O Trono de Sol se torna um livro consideravelmente mais vazio e menos memorável que seu principal concorrente.

by Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo
Full Article

O Trono do Sol lançou em um momento em que tentar evitar sua comparação com a série As Crônicas de Gelo e Fogo se torna um exercício fútil. Até a própria editora brasileira Leya, a mesma do épico de George R. R. Martin, está tentando vendê-lo a partir de seu outro sucesso, utilizando artifícios simples como colocar o nome e o depoimento de Martin na capa, deixar a fonte do título similar à usada em A Guerra dos Tronos, e “criar” um título evocativo – no original, A Magic of Twilight, ele se chama, numa tradução livre,  A Magia do Crepúsculo (Crepúsculo, por sinal, e não Alvorada). Porém, antes de tudo, essa comparação é feita porque ambos os trabalhos pertencem ao mesmo gênero e ainda possuem estrutura e trama semelhantes, que contam uma história que transcorre em um mundo fantástico, repleto de intrigas e maquinações políticas.

A história de O Trono do Sol se passa no reino de Nessântico e se foca na disputa política pelo dito trono e pelo título de Archigos, o posto mais alto na hierarquia religiosa daquela sociedade – disputa que se intensifica durante a comemoração dos cinquenta anos de paz e estabilidade sob o império da kraljica Marguerite ca’Ludovici. O Hïrzg da região de Firenzcia, Jan ca’Vörl, decide se rebelar e tomar a capital, uma vez que é o comandante do maior exército de toda a região dos Domínios. Enquanto isso, o atual Archigos, o anão Dhosti, acredita ter encontrado no grande e inesperado poder da nova téni, Ana co’Seranta, a forma de manter toda a paz que ele e a kraljica Marguerite conseguiram construir durante todos seus anos no poder; e o filho de Marguerite, o a’ kralj Justi, tece planos para conseguir sentar no trono do sol o mais rápido possível.

Sendo pouco sutil e afirmando em seu prólogo ser a cidade de Nessântico a real protagonista do livro, S. L. Farrell decidiu usar a mesma estrutura de capítulos de A Guerra dos Tronos, contando a história por intermédio do ponto de vista de diversos personagens, em vez de seguir apenas um. Desse modo, o autor concede ao leitor a capacidade de acompanhar as mais variadas facetas da rebelião do Hïrzg de Firenzcia e entender as motivações de todos os “jogadores” em busca do trono. Todavia, enquanto George R. R. Martin abusa desse artifício, com sua escrita densa e subjetiva, conferindo teor diferente aos fatos, dependendo de quem os está presenciando – o que engrandece a narrativa –, Farrell o subutiliza com uma escrita altamente objetiva e direta. Em O Trono do Sol, não importa se é a Ana co’Seranta ou o enviado ci’Vliomani quem presencia determinada cena – como é provado durante a festa do Gschnas –  o acontecimento é narrado da mesma forma. Até mesmo as diferenças na linguagem são bem escassas e consideravelmente escancaradas quando presentes – servindo como exemplo a quantidade da palavra “vadia” se referindo a Ana nos capítulos de Orlandi ca’Celibrecca.

Contudo, um dos elementos primordiais de uma história de fantasia – justamente por classificar a história nesse gênero – é a criação de um mundo imaginário, mas que remeta ao real. S. L. Farrell, nesse aspecto, mostrou cuidado e esforço, desenvolvendo uma sociedade com grandes traços do Renascimento – a hierarquia social e religiosa é consideravelmente similar à daquela época, bem como suas relações com a proficiência e proliferação de pintores e outros artistas – e uma cidade cujos vagos aspectos econômicos, sociais e relativos à guerra lembram muito a Roma Antiga – Nessântico vira basicamente um império ao englobar todas as outras cidades ao seu redor, absorvendo suas economias, mas deixando até certo ponto as diferenças culturais intactas.

Não obstante, o autor também faz questão de usar uma vasta gama de termos próprios, com o fim de criar identidade e imergir o leitor na fantasia. É certo, porém, que ele exagera na quantidade e na exposição imediata dos mesmos, existindo na segunda página do primeiro capítulo de Ana, por exemplo, a absurda frase “O u’téni co’Dosteau, o instruttorei a’acólito, era curto e grosso”. Todavia, é ao menos do mérito do autor que o leitor consiga naturalmente, sem precisar usar o dicionário do final do livro – ou do marcador de página destacável da contracapa, uma boa ideia da editora –, compreender o significado deles dentro do contexto. Graças ao uso de termos similares, “minha mathar” se referindo a “minha mãe”, por exemplo, ou lógicos, como os prefixos indicadores de posição hierárquica, não demora para o leitor realmente mergulhar no livro sem se preocupar com a abundância de ca’s e co’s, archigos, u’ténis, ilmodo e divolonté.

Usando uma linguagem simples – possivelmente para compensar os termos estranhos – e consideravelmente objetiva, Farrell pelo menos acerta – e nisso se distingue de Martin – em nunca parar a trama. Cada capítulo de O Trono do Sol adiciona algum evento ou movimenta as peças para a confecção do mesmo, fator responsável por conferir ao livro um ritmo agitado que provavelmente conseguirá anestesiar o leitor. Entretanto, esse tipo de escrita causa também prejuízos severos no campo dos personagens e ideias, uma vez que dificilmente irá dedicar o tempo necessário para construí-lo.

Dessa forma, pela economia na descrição do cenário e na elaboração de reflexões, por mais que o leitor consiga compreender as leis que movem a sociedade de Nessântico, ele terá problemas tanto em visualizar a cidade no espaço de forma minuciosa – o que prejudica principalmente o entendimento das táticas de batalha no final – quanto em simpatizar com seus habitantes e entender exatamente quais são suas motivações, um dos pontos mais importantes em qualquer história. E é tão problemática a descrição espacial de alguns cenários que, em determinado capítulo de Ana co’Seranta, por exemplo, o autor se contradiz, fazendo a personagem acertar com uma magia sua própria cama, ao desviar o feitiço para esquerda, quando o móvel, pelo descrito na página anterior, deveria estar atrás dela.

Já os personagens ficam definidos por suas ações, uma vez que suas personalidades são rasamente expostas. Nesse ponto O Trono do Sol, primeiro livro de uma trilogia, mostra que teve potencial desperdiçado. O anão Dhosti, por exemplo, conseguindo se diferenciar do super popular Tyrion de A Guerra dos Tronos, é profundamente religioso, mas movido pela razão e bom senso, o que somado a sua posição de Archigos poderia render um personagem com conflitos memoráveis. No entanto, devido ao grande período de sonolência que o próprio confessa ter vivido e pela ausência de reflexões introspectivas em seus capítulos, o personagem acaba sendo consideravelmente apático e decepcionante. Por outro lado, o personagem do capitão Sergei se destaca justamente por causa do conflito entre suas ações e o que expõe sentir: ao mesmo tempo em que não hesita em cumprir ordens, por mais injustas e brutais que sejam, ele tem bom senso o suficiente para saber a natureza delas e desejar que não vá realmente precisar pô-las em prática. Enquanto isso, a “quase protagonista” Ana não possui traços fortes suficientes para diferenciá-la de diversos outros heróis do gênero, o enviado Karl ci’Vliomani pouco mostra sua importância na trama, visto que sua contribuição na guerra é efetivamente descartada por uma jogada final, o mendigo Mahri desperta o interesse do leitor justamente por serem desconhecidas suas intenções, e a inteligente menina Alessandra, filha do Hïrzg de Firenzcia, gasta tanto os capítulos do pai com o único intuito de mostrar que é realmente inteligente que chega a irritar após pouquíssimo tempo, uma vez que o leitor já entendeu o recado na primeira cena.

Essa grande quantidade de personagens, entretanto, garante à trama de O Trono do Sol o seu trunfo que é sua imprevisibilidade inicial. Com tantos jogadores apostando suas fichas e fazendo seus movimentos das mais variadas formas possíveis, o autor abre uma enorme gama de opções para o desenvolvimento de sua história. É verdade que ele mostra uma tendência de escolher o caminho mais simples possível para as resoluções – e o decepcionante clímax com sensação de “zero a zero” é a prova disso – mas, ao menos, interessantes portas foram abertas para as futuras sequências. A trama também peca em não solucionar alguns de seus mistérios mais primordiais – se as intenções de Mahri não precisavam ser declaradas, pois é justamente o mistério que o torna interessante, as razões por trás do poder sobrenatural de Ana co’Seranta, por ser um fator primordial para a movimentação dos acontecimentos do livro, necessitavam ser pelo menos buscadas por ela ou por qualquer outro personagem.

Em uma análise mais comparativa sobre os universos abordados, o mundo de Nessântico se difere do de A Guerra dos Tronos quanto ao uso da magia. Na obra de George R. R. Martin a magia é um mito, uma força realmente sobrenatural, praticamente inexistente no inicio da aventura e extremamente perigosa de se trabalhar. Já em Nessântico ela faz parte do cotidiano de seus habitantes: qualquer téni sabe moldar o Ilmodo e, através de cânticos e da fé, utilizá-lo com propósito definido. Essa diferença é importante porque a magia, devido a sua natureza ilimitada, tem um potencial gigantesco de quebrar conflitos poderosos e causar furos de roteiro se mal construída. Se em A Guerra dos Tronos os sacerdotes do deus do Fogo já causam questionamentos preocupantes (o que diabos os impedem de sair matando todo mundo importante com aquelas crias sombrias e ressuscitando quem lhes bem convier?) que são explicados na medida do possível, em O Trono do Sol começam a surgir feitiços que praticamente ultrapassam o limite do trabalhável.  Afinal, uma magia que consegue parar todos no tempo com exceção do conjurador, por mais desgastante que seja para ele, pode resolver basicamente qualquer conflito importante, diminuindo assim a relevância deles, além de constituir uma solução narrativa extremamente fraca e simples.

Enquanto George R. R. Martin trabalha em seus livros com o conceito de honra e poder e como normalmente  homens bons e justos não geram bons e justos governantes, S. L. Farrell discorre de uma forma muitíssimo mais rasa sobre o eterno embate entre razão e fé. No mundo de Nessântico surgem os Numetodos, um povo que mostra ser capaz de moldar o Ilmodo – eles utilizam outro nome, mas admitem ser essencialmente a mesma coisa, num raro bom toque do autor – sem precisar da fé. Os ténis acreditam somente poder conjurar feitiços porque seu deus Cénzi os permite, e os Numetodos não somente provam o contrário, como também se mostram conseguir conjurar de forma mais eficiente. No entanto, os conflitos que os Numetodos estavam causando na sociedade e o massacre que estavam sofrendo são rapidamente descartados em favor da construção da “grande batalha final”, limitando, desse modo, um dos pontos positivos do livro.

O Trono do Sol é um livro consideravelmente prático e objetivo. Ele almeja contar uma história política em um mundo imaginário e é isso que ele faz. Entretanto, ao diminuir o desenvolvimento de seus personagens e de suas ideias para dar ênfase nas traições previsíveis e nas batalhas não tão empolgantes de seu roteiro, ele se torna um livro consideravelmente mais vazio e, consequentemente, menos memorável que seu principal concorrente.

por Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo.

Publicado originalmente em 27 de Janeiro de 2014.


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Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo


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