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Beowulf: seus pontos de vista.

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Posted 03/14/2015 by in

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Os artigos do Literatura em Pauta discorrem sobre temas diversos e têm o intuito de aprofundar a análise de determinada obra, seja ela livro, jogo ou filme. Eles também podem discutir a situação de determinada indústria ou qualquer assunto que a equipe do Literatura em Pauta considerar relevante. Nem o céu é o limite.

Nada impedirá, portanto, que o presente artigo contenha spoilers sobre a obra de que trata. Se ele for discutir o filme Magnólia e compará-lo com o jogo The Last of Us sob o prisma do Casamento Vermelho de As Crônicas de Gelo e Fogo, esperem spoilers desses títulos. Eles serão inevitáveis. Estejam avisados.

by Aline R. B. Campello
Full Article

Várias diferenças saltam aos olhos quando se compara os filmes de 2005 e 2007 baseados no poema Beowulf com o poema em si. A mais aparente – e a que será mais focada aqui – é a romantização, no sentido literário, do poema épico. É importante mencionar que até mesmo o poema é uma adaptação escrita de uma história cantada, o que vem da tradição da época em que o épico se originou.

Primeiramente, as diferenças entre os acontecimentos no texto e nos filmes devem ser mencionadas. No poema, a terra do Rei Hrothgar está sendo atacada por um monstro chamado Grendel. Beowulf, um herói em ascensão, aparece para matar o monstro e libertar a terra de seu atacante. Após isso feito, a mãe de Grendel ataca em vingança pela morte do filho. Beowulf vai até sua morada, luta com ela e a mata, o que faz sua fama se espalhar ainda mais. Ele volta para suas terras e, depois da morte do rei, ele recebe a coroa. Um bom tempo se passa e, quando Beowulf já está velho, alguém rouba do tesouro de um dragão, o que provoca a fúria da criatura. Beowulf, então, luta com o dragão e consegue matá-lo, mas a criatura também o fere mortalmente. O texto termina com o funeral de Beowulf.

No filme de 2005, o roteiro faz diversas modificações no contexto da história. Já na cena inicial, o pai de Grendel é morto pelos dinamarqueses, o que explicaria todo seu ódio por aquela terra. Grendel cresce e, após a construção do hall Heorot, começa a matar os guerreiros dinamarqueses. Beowulf se oferece para ir ajudar a terra amiga com alguns de seus companheiros. Muito tempo do filme se passa até que Beowulf consiga de fato matar Grendel, descobrindo o outro lado da história. Após a morte de Grendel, sua mãe, que é mostrada de relance durante todo o filme, aparece para vingar seu filho, e Beowulf vai até sua toca e a mata. Lá, ele encontra o corpo de Grendel e uma criança, que descobre ser filho de Grendel. A história sugere uma continuidade para a história de Grendel em seu filho, tendo também o pai morto por um humano.

O filme de 2007, por sua vez, também faz suas próprias modificações na história. Grendel, por exemplo, é o filho bastardo do Rei Hrothgar e de um demônio. Beowulf também não mata a mãe de Grendel como deveria, mas mente sobre isso e acaba tendo um filho com ela, que se torna o dragão das cenas finais. Em vez de deixar aquela terra e voltar para a sua, Beowulf fica e é coroado após o suicídio do rei. Esses são apenas alguns exemplos de como o roteiro destes filmes se difere do original.

Ambos os filmes mantém em sua essência pontos importantes da história original, como a importância da glória e do cantar ou fazer versos sobre isso, assim como a listagem dos feitos anteriores dos guerreiros. Não podemos, então, dizer que eles diferem essencialmente do original, já que a deixa central para os acontecimentos está sempre lá. O que realmente diferencia as três versões é a abordagem utilizada para tais, como veremos em diante.

No filme de 2005 temos a humanização e a vitimização de Grendel. Seu direito de viver é colocado em real questão em um diálogo que reflete quem sentirá falta de quem após a morte. Grendel, guardando rancor dos dinamarqueses e se vingando pela morte do pai, fazendo com que Hrothgar passe pelo que ele passou (ver seus amados morrendo a sua volta), se mostra muito mais humano do que no texto. Isso é comprovado pelo fato de ele não atacar quem não o fez mal, indo apenas atrás dos daquela terra e, posteriormente, do grupo de Beowulf. No filme de 2007, essa humanização acontece com a mãe de Grendel, que tem um papel de ligação extremamente importante na história. Ela não só tem o sentimento de amor e vingança, como também honra seus acordos, de sua maneira.

Nos dois filmes, uma profundidade maior é dada aos “monstros”, às criaturas banidas da sociedade. Enquanto no texto a diferença entre demônio e humano (no caso, herói) é muito distinta – ou seja, um é de todo mau e o outro de todo bom – nos filmes há muito mais a se considerar.

Isso leva ao tema principal desde ensaio: a romantização da lenda de Beowulf. Mesmo sendo filmes que giram em torno de batalhas e ação, eles não se configuram seus elementos principais. No filme de 2007, isso pode ser bem sutil, já que a ação chega a ser vangloriada um pouco, mas o verdadeiro foco dos dois longas é os sentimentos que levam às ações e aos acontecimentos do roteiro, e não o contrário, como é no texto.

No poema, os seres são ou bons ou maus, e isso é o que os leva a agir como agem (do ponto de vista da sociedade da época). As ações passadas de Beowulf são o que importam para construírem quem ele é e o que ele fará. Nos filmes, o que é sentido constrói o que é feito em seguida. No filme de 2007, Beowulf cede à luxúria provocada pela mãe de Grendel – coisa impensável para o herói do poema – e então todos os acontecimentos com a mãe de Grendel tomam lugar. Já no de 2005, temos o próprio assassinato do pai de Grendel, que provoca o sentimento de ódio e vingança no monstro, causando todas as suas ações daí em diante. Beowulf também passa a se importar com o lado de Grendel assim que sabe de sua história e faz uma espécie de funeral para ele antes de partir de volta para sua terra.

Em resumo, todas as versões de Beowulf contam a mesma história, em essência, e dão o mesmo conteúdo heroico a Beowulf. A maneira de expressar isso, no entanto, é o que difere a versão escrita das versões cinematográficas.

por Aline R. B. Campello.

Publicado originalmente em 21 de Setembro de 2013.


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Aline R. B. Campello


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