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Mago: Mestre.

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Posted 05/26/2016 by in Fantasia

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Nota:
 
 
 
 
 

2/ 5

Sumário

Genero:
 
Autor:
 
Editora: ,
 
Idioma Original:
 
Título Original: Magician: master.
 
Tradução: Cristina Correia/Ana Cristina Rodrigues (BR).
 
Edição: 2014.
 
Páginas: 432.
 
Capa: Martin Deschambault.
 
Resumo:

Raymond E. Feist pode ter elaborado arcos narrativos fascinantes para os personagens principais do livro, mas os problemas que acometem o desfecho de cada um deles são impossíveis de se ignorar. Com isso, o início promissor de Mago: Mestre apenas torna sua conclusão ainda mais decepcionante.

by Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo
Full Article

Mago: Mestre, ao contrário de seu antecessor, Mago: Aprendiz, não sofre tanto com a divisão em dois livros da história original. Seus defeitos são outros: Raymond E. Feist mostra-se incapaz de decidir quais são os personagens fundamentais de seu livro, além de somente conseguir concluir suas tramas de forma anticlimática ou arbitrária.

A história de Mago: Mestre continua acompanhando as transformações na personalidade dos garotos Pug e Tomas durante a guerra entre os habitantes de Midkemia e os invasores de outro mundo, os Tsurani. Enquanto o aprendiz de mago se vê capturado pelo inimigo, vivendo como escravo em um ambiente completamente desconhecido, Tomas começa a sofrer com os efeitos da armadura mágica que adquiriu e ter sua personalidade lentamente substituída pela de outro ser. Se o livro anterior começa com o título “Pug e Tomas” este se inicia com “Milamber e Valheru”, apontando para as novas identidades dos jovens.

Feist constrói habilmente a jornada do protagonista. Pug surge como escravo dos Tsurani em Mago: Mestre e o autor utiliza o desnorteamento do menino para introduzir o leitor a uma cultura nova no universo do livro. Os Tsurani são apresentados como uma sociedade patriarcal consideravelmente militarizada, regida por costumes e um rígido código de honra. As influências orientais nas descrições dos Tsurani são inúmeras: desde seus nomes (Shinzawai, Hokanu) e as descrições de moradia (“Pug e Laurie descobriram que a casa tinha a forma de um quadrado, com um grande jardim ao centro, acessível por todos os lados”)  ao suicídio por espada ser considerado um fim honroso, as semelhanças são visíveis.

Com isso, o autor não somente estabelece o choque de culturas como um dos temas centrais da história, como também desenvolve os Tsurani muito além da unidmensionalidade do livro anterior. Se antes eles surgiam como guerreiros suicidas sem qualquer traço de personalidade, agora os Tsurani são apresentados como um povo dividido politicamente que, se de um lado sempre existiu por causa da guerra, está finalmente começando a questionar seus efeitos.

É fundamental que esse desenvolvimento ocorra nos capítulos de Pug, pois o leitor começa a simpatizar com aquele povo juntamente com o protagonista. Desse modo, o carinho que o personagem passa a gradualmente sentir por aquela terra não soa estranho ou súbito na narrativa. Outro fator que auxilia essa trama é a jornada de Pug pelo Império dos Tsurani ser um reflexo daquela que percorreu no volume anterior: em Mago: Aprendiz, o garoto ascende na hierarquia social de Midkemia rapidamente, passando de um simples menino órfão sem qualquer ofício a um senhor de terras antes mesmo da metade do livro. Já em Mago: Mestre a mudança é ainda mais brusca e ele vai de escravo à maior posição social daquele mundo, um Mago Negro, em poucos capítulos, assim que sua afinidade para magia é descoberta.

Por meio de vários lapsos temporais, o autor tenta fazer o leitor compreender a extensão do dilema que o protagonista enfrenta: ele cresce em Midkemia, mas amadurece na terra dos Tsurani. Ele sente um dever para com ambos os povos e, graças a seus estudos e poderes, se vê na terrível posição de ser capaz de alterar fatalmente o resultado do conflito. 

Do outro lado da história está Tomas, que consegue realizar o sonho de conquistar o amor da Senhora dos Elfos. Com a súbita energia, força e sabedoria advinda da armadura arranjada na caverna dos anões, o garoto torna-se um general competente, cuja recorrente e imponente presença na corte dos elfos acaba despertando o interesse da rainha Aglaranna.

Sua armadura, porém – como o Um Anel na obra de J. R. R. Tolkien –, retém parte do desígnio de seu criador e não demora para a personalidade de Tomas se deturpar com a influência de um valheru – raça anciã que dominava dragões e tratava os elfos como animais de estimação. Desse modo, Tomas começa a se viciar no torpor da guerra e a eliminar impiedosamente todos que ameaçam Midkemia, constituindo um personagem que se dirige vertiginosamente para o precipício logo após conquistar o que mais desejou na vida. Sua trama é permeada por conflitos internos, com o garoto enfrentando mentalmente a presença do valheru dentro de si, incapaz de conter maior parte de suas ações.

 Os elfos ganham forte desenvolvimento nessa parte do livro. Desde seus costumes – nunca mencionar o nome dos falecidos para não perturbá-los – à sua postura com relação a Tomas – reconhecem o perigo, mas enxergam o beneficio da armadura que os salvou em diversas ocasiões –, suas características são suficientes para conferir identidade própria a eles, diferenciando-os dos arquétipos do gênero. A rainha Aglaranna é um excelente exemplo da evolução na caracterização dos personagens entre Mago: Aprendiz e Mago: Mestre. Pois, se no primeiro livro ela é apresentada somente como uma rainha altiva, sábia e introspectiva, que preza pela natureza e é conhecida pela magia de seu reino, aqui ela surge como uma líder que raramente consegue se impor e que lamenta a natureza da atração que sente por Tomas – ela entende que adora mais seu poder que sua personalidade –  ao mesmo tempo em que reconhece sua incapacidade de lutar contra seus sentimentos. Em outras palavras, enquanto no primeiro volume ela era um estereótipo, em Mago: Mestre ela é uma personagem fascinante devido a suas contradições.

Todavia, se ao autor prepara o início do livro de maneira exemplar, ele definitivamente se sai muito pior no segundo ato. Feist continua a contar a jornada dos garotos, mas inclui também o personagem que encabeçou o clímax de Mago: Aprendiz, o príncipe Arutha.

Arutha, antes da conclusão do livro anterior, era apenas um personagem coadjuvante desprovido de desenvolvimento próprio e devidamente relegado aos bastidores da ação. No clímax, então, os holofotes foram posicionados sobre ele, resultando numa batalha final sem qualquer força dramática.

Em Mago: Mestre, Feist permanece falhando em justificar os capítulos do príncipe. Sua viagem para Krandor em busca de apoio militar ocupa um espaço significativo do livro, introduz mais personagens irrelevantes – como quase todos da guilda de ladrões da cidade – e obtém nenhum resultado. Ou seja, além de ter uma premissa irrelevante para a história principal, a trama envolvendo o príncipe ainda termina sem produzir efeitos dentro dela mesma. Em outras palavras, se todos os capítulos de Arutha fossem arrancados da história, os eventos principais de Mago: Mestre não somente não seriam afetados como o ritmo da narrativa ainda seria benificiado.

É também no meio do livro que, estranhamente, o arco narrativo de Tomas é concluído no que poderia ser considerado um anticlímax, uma vez que sua batalha psicológica final contra o valheru ocorre durante um evento insignificante e aleatório na história. Dessa forma, o autor interrompe a construção da tensão, que poderia ter sido estendida até um final propriamente dito, e também impede que a trama do garoto tenha chance de interferir nas outras.

Crime maior o autor comete no último ato da história, fechando-o com um deus ex machina enlouquecido. Deus ex machina é um conceito oriundo do teatro grego que faz referência a uma força arbitrária que subitamente aparece na história para solucionar todos os problemas e salvar os heróis. Em Mago: Mestre há um personagem que parece adotar esse conceito como filosofia de vida: o misterioso feiticeiro Macros.

Todas as vezes que Macros surge na narrativa, ele resolve um conflito que de outro modo teria matado os personagens principais e depois desaparece para cuidar de seus próprios assuntos. Na metade do livro, sua presença não representa necessariamente um problema, pois o personagem manifesta de poderes muito além dos apresentados pelos principais, além de indicar a existência de outros mundos e raças. Dessa forma, ele serve como uma ferramenta para desenvolver aquele universo e deixar o leitor intrigado com as possibilidades sugeridas.

No entanto, possivelmente notando que sua história estava caminhando para um desfecho anticlimático, graças a uma inteligente solução arranjada por Pug para seu dilema, Feist faz Macros criar artificialmente um conflito só para resolvê-lo em seguida. Ou seja, em vez do clímax ser resultante de uma cascata de eventos confeccionados para esse fim ao longo da narrativa, ele é criado de última hora por um personagem aleatório só para o próprio salvar o dia. O deus ex machina em Mago:Mestre é tão intenso que até no instante em que não há problemas para serem resolvidos, ele cria alguns só para ter o que fazer.

Um dos últimos capítulos do livro, por exemplo, é sobre Macros contando para os personagens que todos eles estiveram, o tempo inteiro, correndo um perigo imensurável por causa de uma força maligna destruidora de mundos que eles desconheciam e que não tinha absolutamente nada a ver com o que estavam fazendo. Porém, eles também não precisavam mais se preocupar, porque ele, Macros, já havia impedido a criatura de aparecer, resolvido tudo e salvado o mundo.

Mais alarmante é atestar que autor tem em mãos um elemento, trabalhado ao longo dos dois livros, capaz de inserir ação no clímax e prefere não o utilizar. Em Mago: Aprendiz, a existência de um traiçoeiro líder militar no reino de Midkemia é alardeada pelo duque de Crydee, que enxerga em Guy du Bas-Tyra um indivíduo inescrupuloso que não hesita em usar a loucura que acomete o rei para seus próprios fins. Por mais que o personagem não renda nenhum fruto em Mago: Aprendiz, é inegável que Feist confere certa importância e ele, tornando-o a única menção a uma subtrama de intrigas políticas no livro. Já em Mago: Mestre, Guy é mencionado ainda mais vezes, assumindo a posição de antagonista nos capítulos do príncipe Arutha. Todavia, o autor não somente falha em reparar no excelente contexto em que o personagem poderia participar no clímax – interferindo nas negociações – como também o descarta sem demonstrar em qualquer momento a ameaça que o sujeito supostamente representa.

Não obstante, o autor ainda volta suas atenções para Arutha antes do fim, fazendo o último conflito da história ser sobre sua família. Contudo, nem desse modo a presença do príncipe torna-se relevante, uma vez que toda a questão se baseia na escolha de seu irmão e não dele. Assim, mais uma vez Feist termina seu livro focando em personagens secundários.

Raymond E. Feist pode ter elaborado arcos narrativos fascinantes para os personagens principais do livro, mas os problemas que acometem o desfecho de cada um deles são impossíveis de se ignorar. Com isso, o início promissor de Mago: Mestre apenas torna sua conclusão ainda mais decepcionante.

por Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo.

26 de maio de 2016.


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Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo


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