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Dorian Gray: mímesis em carne e osso.

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Posted 03/14/2015 by in

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Os artigos do Literatura em Pauta discorrem sobre temas diversos e têm o intuito de aprofundar a análise de determinada obra, seja ela livro, jogo ou filme. Eles também podem discutir a situação de determinada indústria ou qualquer assunto que a equipe do Literatura em Pauta considerar relevante. Nem o céu é o limite.

Nada impedirá, portanto, que o presente artigo contenha spoilers sobre a obra de que trata. Se ele for discutir o filme Magnólia e compará-lo com o jogo The Last of Us sob o prisma do Casamento Vermelho de As Crônicas de Gelo e Fogo, esperem spoilers desses títulos. Eles serão inevitáveis. Estejam avisados.

by Aline R. B. Campello
Full Article

Platão, em seus diálogos, nos apresenta aos conceitos de Real e Mímesis, associando-os com a questão da Arte e da Poesia. Neste artigo serão relacionados a esses conceitos as ideias e acontecimentos da obra literária “O Retrato de Dorian Gray”, por Oscar Wilde.

 Primeiramente, deve-se deixar claro o que os conceitos do Real e de Mímesis significam. De modo simples, para Platão, existe o mundo das ideias, onde a realidade em si se encontra. O nosso mundo – o que vemos, sentimos e vivemos – não passa de uma representação dessa realidade, e os elementos que o compõem são uma mera sombra do que realmente existe no mundo das ideias. A arte mimética, por sua vez, é uma representação da aparência do nosso mundo; isto é, para Platão, ela seria a sombra da sombra, mas sem a utilidade que os objetos retratados têm na nossa vivência da realidade. Essa representação da aparência da realidade é a Mímesis.

Na obra literária “O Retrato de Dorian Gray”, por Oscar Wilde, podemos observar esses conceitos indiretamente. O livro conta a história de Dorian Gray – um rapaz descrito como jovem, inocente e de aparência extremamente bonita – que tem seu retrato mimético pintado enquanto é feito o desejo de que essa juventude e beleza nunca desapareçam. Após o término da pintura, a aparência de Dorian não se altera mais, seja pelo tempo ou pelas coisas que faz, enquanto o quadro – a representação de sua aparência de outra época – fica sujeito a todos esses fatores que alterariam sua pessoa.

Ou seja, enquanto o Dorian representado na realidade não se altera por fora, seu retrato vai envelhecendo e se deteriorando pelo decorrer do tempo. Ao longo da história, Dorian comete atos horríveis e no final, perturbado por toda a sua situação e vendo como seu quadro se alterava, perdendo toda a juventude e beleza, ele esfaqueia seu retrato. Dorian Gray destrói o que continuava sua representação no mundo e, ao fazer isso, aquela aparência se desloca para ele e a facada se torna real. Ele morre velho, feio e esfaqueado em frente ao seu quadro, que retorna a ser apenas uma representação de um Dorian novo e bonito.

Depois de expostos os conceitos e a obra, vamos explicitar os pontos onde os acontecimentos do livro se conectam aos conceitos de Platão. Primeiramente, temos a pintura de Dorian Gray, um exemplo de arte mimética, que representa a aparência do que existe em nosso mundo – no caso, Dorian Gray, que é uma representação falha no nosso mundo do que seria o Dorian Gray ideal, do Mundo das Idéias. O que acontece em seguida é uma inversão desses conceitos e representações; o retrato se torna a representação da essência de Dorian e o próprio se torna sua representação mimética. Ele se torna a Arte, imutável, simplesmente representando um estado sincrônico de Dorian Gray.

Se compararmos o quadro, que é mutável de acordo com a essência do protagonista, com o próprio, temos uma visão diacrônica da pessoa que ele é, mas invertida: o Dorian mais novo, mais ingênuo e belo é o que vive, e o Dorian feio e velho, com aparência enrijecida pelos seus atos e pelo tempo existe preso na pintura, na representação em tinta e tela de Dorian Gray.

Na obra, não só o tempo, mas também as ações e pensamentos de alguém afetariam sua aparência. Há uma grande ênfase nisso, sempre comentando sobre o fato de Dorian Gray cometer atos horríveis e sua aparência continuar a mesma. Enquanto isso, por causa dessas ações, o quadro muda, fica mais feio, com aparência mais maléfica e mais horripilante. Isso reflete que a essência de Dorian – uma tão horrível (e um fenômeno tão excepcional) que ele mantém escondida – é que está no quadro, e não somente a idade que ele tinha quando a pintura foi feita.

Dorian Gray, por possuir a sua essência – sua “alma” – em algo externo a si, sem sofrer conseqüência nenhuma em sua aparência, acaba se tornando a versão anacrônica de si mesmo: ele existe no tempo errado, com a representação de sua aparência errada, tendo escapado de perder sua beleza e juventude no nosso mundo. Sua essência continua manchada, arruinada, mas seu rosto de jovem não mostra isso. O anacronismo de Dorian está aí.

No final, ao não suportar mais o monstro que havia se tornado e por esse motivo esfaquear a pintura, ele, mais uma vez, nos sugere que sua essência verdadeira se encontrava realmente no quadro. Quando a pintura é destruída, sua essência volta a ser parte do próprio corpo de Dorian, um homem esfaqueado e morto que ninguém reconhece. O quadro volta a ser o que sempre deveria ter sido: uma representação mimética e sincrônica de Dorian Gray. No fim, tudo retorna ao natural: a essência volta a Dorian Gray, Dorian volta a representar na realidade sua própria essência e o quadro volta a ser a representação da aparência de Dorian na época.

 Em resumo, podemos observar alguns dos conceitos que Platão apresentou na obra literária em questão, levando em consideração que, em muitas partes, eles estão invertidos, indo contra a natureza dos próprios conceitos e da realidade. A primeira vista, poderia nos parecer que, por essa inversão e distorção, não há nenhuma relação entre os conceitos de Platão e o livro. Porém, prestando atenção e organizando os acontecimentos e tons da narrativa, podemos enxergar claramente os conceitos de Mímesis, do Real e do Mundo das Ideias, embaralhados pelo anacronismo contraditório representado pelo personagem principal, Dorian Gray.

por Aline R. B. Campello.

Publicado originalmente em 21 de Setembro de 2013.


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Aline R. B. Campello


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