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Trash: A Esperança vem do Lixo.

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Posted 03/11/2015 by in 2014

Rating

Nota:
 
 
 
 
 

2/ 5

Ano:
 
Diretor:
 
Título Original: Trash.
 
Elenco: André Ramiro, Eduardo Luis, Gabriel Weinstein, Martins Sheen, , Rickson Tevez, Rooney Mara, Selton Mello, Wagner Moura.
 
Roteiro: Felipe Braga, Richard Curtis.
 
Compositor: Antonio Pinto.
 
Duração: 115 minutos.
 
Montagem: Adriano Goldman.
 
Fotografia: Elliot Graham.
 
Resumo:

Trash é um filme sobre um contexto sociopolítico bem claro. Mas os envolvidos se preocuparam tanto com a contemporaneidade de sua história que se esqueceram de construí-la satisfatoriamente, resultando em um filme, intenções a parte, consideravelmente medíocre.

by Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo
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Hoje em dia parece ser inevitável um filme brasileiro sobre justiça social mencionar as manifestações populares de 2013 numa tentativa de ser mostrar atual. O fato de Trash, mesmo sendo uma coprodução Brasil/Inglaterra, chegar ao ponto de contextualizá-las dentro da trama – interligando-as com os eventos narrados – evidencia a intenção dos envolvidos de criar uma obra com um bem e mal facilmente identificáveis: de um lado temos políticos e policiais corruptos, violentos, assassinos e malignos, e do outro, meninos que vivem num lixão e são pobres, virtuosos, honestos e corajosos.

A história de Trash segue a vida do jovem Raphael, a partir do momento em que ele encontra uma carteira cheia de dinheiro no lixão em que trabalha. Após dividir a quantia com seu colega Gardo, o garoto encontra uma chave e a foto de uma menina junto à identidade de um sujeito chamado José Ângelo. Os dois amigos então partem em busca de respostas, almejando desvendar o mistério por trás da carteira, enquanto um grupo de policiais comprados pelo deputado Santos os perseguem, tentando reavê-la.

A estrutura do filme é simples: os meninos vão desvendando pistas deixadas por José Ângelo (Wagner Moura) enquanto fogem dos policiais comandados por Frederico (Selton Mello) e encontram outros personagens aleatórios no caminho, que eventualmente lhes prestarão ajuda. Em algumas instâncias eles são bem sucedidos, escapando quase sempre por um triz dos vilões, mas algumas vezes não são, levando a chocantes cenas de interrogatório e tortura.

A interação entre as crianças é indiscutivelmente o melhor elemento de Trash. Logo que percebem que a polícia está atrás da carteira, Raphael (Rickson Tevez) e Gardo (Eduardo Luis) buscam a ajuda de Rato (Gabriel Weinstein), um menino que vive na rede de esgotos do lixão. A química entre os três garotos funciona perfeitamente, divertindo o espectador com os xingamentos e provocações que um faz com o outro por também transmitir a força da amizade que eles compartilham: em determinada cena, por exemplo, quando o padre Juilliard (Martin Sheen) volta de uma delegacia de polícia desgastado e desabafa com sua colega Olivia (Rooney Mara) o acontecimento mais importante está, na verdade, no fundo da imagem: o ato de carinho demonstrado por Rato, ao notar que Gardo havia permanecido desolado dentro do carro, de ir fazer companhia a seu amigo.

Além disso, o roteirista Richard Curtis (das obras Simplesmente amor e Quatro casamentos e um funeral), trabalhando em cima do livro escrito por Andy Mulligan com a ajuda do brasileiro Felipe Braga, parece empenhando em despertar a empatia do espectador em relação aos personagens principais, impedindo-os de apresentar qualquer desvio de caráter. Raphael, Gardo e Rato são crianças pobres que vivem em um lugar absolutamente horrível e sofrem torturas indizíveis, mas ainda assim não matam, não roubam, não mentem e até falam inglês: suas virtudes permanecem intocadas pelo contexto que deveria deturpá-las. Nada mais adequado, portanto, que no instante em que são questionados por Olivia sobre a razão de estarem tão empenhados em resolver o mistério da carteira, eles respondam simplesmente “Porque é certo”.

Na outra ponta do espectro, os vilões surgem igualmente unidimensionais, preocupados apenas com dinheiro. Não há um policial ou político honesto no filme, afinal, como as crianças dizem uma hora, “político é tudo corrupto e polícia serve para bater na gente”. A única tentativa de humanização de Frederico, por exemplo, é mostrar, durante um breve instante, que ele tem uma família. Embora discussões e personagens complexos sejam sempre bem vindos, não haveria muito problema nessa abordagem se o filme se concentrasse na aventura das crianças e tivesse um foco definido.

Mas Trash parece não saber exatamente sobre o que se trata, como comprova a cena que abre o filme. Nela, Raphael aparece apontando uma arma para a cabeça de uma pessoa e alguém lhe mandando atirar. “Se você não matar, ele te mata”, avisam. E aí corta para Raphael explicando sua história em um vídeo. Esse início é extremamente problemático por vários motivos. Primeiro, o filme não é sobre a violência de Raphael, mas justamente o contrário, sobre suas virtudes. Desse modo, o espectador não fica ansioso para descobrir se o protagonista irá se deixar levar para o crime ou permanecer com seu caráter inabalado, pois ele já sabe que Raphael irá poupar o sujeito. Não há qualquer suspense na cena porque se Raphael apertasse o gatilho o ato iria contra toda sua história. Além disso, ela abrir o filme como um flashforward também sabota a tensão que o momento mais chocante de Trash poderia ter provocado se o espectador não tivesse recebido a confirmação de que Raphael continuaria vivo até os eventos alcançarem o instante mostrado no flashforward.

As cenas de vídeo, aliás, em que os meninos são filmados explicando sua história, são igualmente ruins. É difícil acreditar que o diretor achou necessário mostrar os personagens narrando os eventos após eles acontecerem, sendo que o espectador acabou de presenciá-los. Quando as crianças conseguem escapar de uma estação no início do filme, por exemplo, elas se frustram ao notar que o trabalho inteiro delas foi somente para conseguir uma carta e reclamam umas com as outras sobre o fato. Então o filme corta para elas em vídeo dizendo algo como “Nossa, passamos por um perrengue na estação e no final foi tudo por uma carta! Uma carta, mano”. Algumas dessas cenas até tentam fazer uma piada ou outra com os personagens, porém mesmo se fossem engraçadas – o que não é o caso – não seriam menos redundantes.

Mas a pior parte do filme é definitivamente seu clímax. Além de ser completamente anticlimático, uma vez que o vilão vivido por Selton Mello simplesmente desiste de continuar perseguindo o protagonista por nenhuma razão aparente, ele ainda contém uma revelação tão absurda e sem sentido que deixará o espectador incrédulo, em vez de surpreso. A reviravolta é desnecessária e ainda por cima prejudicial ao filme por ser inverossímil e tornar o personagem de Wagner Moura basicamente o pior pai do universo, o que duvido que fosse a intenção de qualquer um envolvido no projeto.

Os atores veteranos, entretanto, fazem seu máximo para conferir alguma centelha de complexidade aos seus personagens. Wagner Moura, mesmo com seu pequeno tempo de tela, compõe um personagem intrigante por causa de seus trejeitos atrapalhados e quase brincalhões que contrastam com a severidade de suas ações – o leve sorriso irônico que José Ângelo dá ao receber um agradecimento do deputado Santos é o melhor momento do ator no filme – enquanto Selton Mello permanece frio e educado, com seu tom de voz gentil deixando sua presença ainda mais ameaçadora, como prova sua pergunta a Raphael após tortura-lo (“Quer água?”).

Enquanto isso, o elenco internacional encabeçado por Martin Sheen e Rooney Mara não tem muito o que fazer além de ficar chocado com os acontecimentos e falar um português engraçado que distrai o espectador. Em contrapartida, as cenas em que as crianças se esforçam para se comunicar com eles, usando plaquinhas ou palavras soltas em inglês, são genuinamente divertidas por obrigar os personagens a simplificar os acontecimentos e assim revelar a natureza esdrúxula dos mesmos (“Eles estavam tristes. Agora estão felizes”).

Já o diretor Stephen Daldry, indicado ao Oscar por O Leitor e As Horas, faz um bom trabalho de câmera, utilizando um jogo de zooms para atordoar o espectador com a magnitude do lixão no início do filme, por exemplo, enquanto a trilha incidental complementa a crítica social, tocando Eu só quero é ser feliz na mesma cena. Já a fotografia, apesar de não fugir do óbvio, é eficiente em diversas cenas, como aquela em que Frederico invade a casa de Olivia e um abajur atrás do policial pinta parte da casa de um vermelho forte, enquanto uma luz fraca, em tons de azul, vinda da cozinha, cobre apenas Olivia, reforçando a dinâmica entre os personagens.

Trash é um filme sobre um contexto sociopolítico bem claro. Quando o personagem de Martin Sheen se espanta com a quantia de dinheiro desviada pelo deputado Santos para o comitê responsável pelas Olimpíadas, o público alvo é certamente o mesmo que segurou os cartazes de “Não vai ter copa” em 2013. Mas os envolvidos se preocuparam tanto com a contemporaneidade de sua história que se esqueceram de construí-la satisfatoriamente, resultando em um filme, intenções a parte, consideravelmente medíocre.

por Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo.

Publicado originalmente em 09 de Outubro de 2014.

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Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo


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