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Dias Perfeitos.

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Posted 02/24/2017 by in Nacional

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2/ 5

Sumário

Genero: ,
 
Autor:
 
Editora:
 
Idioma Original:
 
Título: Dias Perfeitos.
 
Título Original: Dias Perfeitos.
 
Edição: 2014.
 
Páginas: 274.
 
Capa: Retina 78.
 
Resumo:

Dias Perfeitos é um livro de suspense que surpreende inicialmente com as peculiaridades de sua narrativa, mas vai gradativamente perdendo o fôlego, culminando em um clímax decepcionante e mal construído.

by Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo
Full Article

Escrito pelo brasileiro Raphael Montes, Dias Perfeitos é um romance de suspense narrado sob a perspectiva de um psicopata. Apresentando problemas de desenvolvimento de personagem e de construção de clímax, o livro não compensa as peculiaridades interessantes da voz de seu protagonista – ainda mais porque até elas eventualmente se tornam repetitivas.

O protagonista, Teodoro, é um estudante de medicina que vive na casa de sua mãe paraplégica e não mantém qualquer contato social com seus colegas de classe: a única pessoa que ele considera uma amiga chama-se Gertrudes e é o cadáver que ele disseca durante as aulas. Em uma festa, porém, ele encontra Clarice, uma garota encantadora que imediatamente rouba seu coração. Téo, então, decide fazer de tudo para conquistar o amor dela, o que para ele inclui sequestrá-la, amarrá-la e sedá-la até convencê-la de que ele é um partido ideal.

A história, contada em terceira pessoa, é limitada a perspectiva de Teodoro e, por discurso indireto livre, recheada com seus pensamentos. Sua personalidade torna-se a base da narrativa, prendendo o leitor em sua visão de mundo bem particular.

Téo vive em seu próprio universo, distorcendo a realidade para que todas as interpretações dos acontecimentos sejam devidamente moldadas para melhor atender suas necessidades. Dessa forma, seus atos cada vez mais terríveis são apresentados com cada vez mais justificativas, sempre com o intuito de fazê-los parecer razoáveis.

A dissociação de Téo com a realidade é transferida em vários níveis para sua relação com Clarice. Além do absurdo de esperar um resultado positivo de seu crime, ele fantasia o relacionamento inteiro, repassando encontros, viagens e conversas com amigos que um dia viriam a ter. Ele ainda toma decisões unilaterais (“Havia comprado dois maços, mas, na volta do hotel, decidira fazer Clarice parar de fumar. Sem que ela notasse, cortaria o cigarro da rotina. Um processo gradual”) e enxerga as constantes tentativas de fuga da garota como brigas de um casal apaixonado.

O sequestro e eventuais abusos à Clarice são retratados como atos que provam sua devoção a ela. Não somente isso, como as próprias reações da garota são frequentemente dobradas para se enquadrar no que Téo espera dela, quando não são simplesmente imaginadas. No seguinte trecho, por exemplo, Téo está interagindo com uma Clarice desacordada devido a um sedativo, mas ele ainda assim é capaz de ouvi-la pronunciando seu amor: Abraçou Clarice com força, pois ela também devia estar emocionada. Aquele era o momento mais importante da sua vida, ele tinha certeza. Abraçou-a e chorou no ombro dela. Clarice continuava a tossir e respirar secamente, mas ele pode ouvi-la dizer com nitidez: Te amo”.

Na narrativa, não há um juízo de valor negativo para os crimes de Téo, porque o leitor os está vivenciando sob a perspectiva do vilão. Isso vai gerando uma sensação excruciante, uma claustrofobia de estar acorrentado a um ser tão terrível, que faz o leitor imediatamente empatizar com a situação de Clarice: ambos querem se ver livres daquele sujeito.

Montes, entretanto, exagera na composição do personagem, tornando-o um amálgama de todas as coisas ruins possíveis. Não basta ele ser um stalker psicopata maluco, ele também tem que ser machista, possessivo, homofóbico e cruel com a mãe. Como ele mora no Rio de Janeiro, só faltou uma cena com ele indo votar no Bolsonaro para completar o pacote. E, como Téo sequer se revela particularmente inteligente – suas ações são quase sempre improvisadas e não planejadas –, não há muito nele que possa torná-lo fascinante para o leitor.

Além disso, enquanto algumas de suas características são reveladas de forma até um pouco sutil (como o machismo em “Clarice bebia demais para uma mulher”), outras são simplesmente escancaradas, postas na superfície do texto (como a homofobia em “ele não simpatizava com homossexuais. Eram impuros, movidos a sexo”).

A personalidade de Clarice não é mais bem desenvolvida. As características da garota são várias, mas superficiais: em determinado momento, por exemplo, ela se define por seu signo de Áries, afirmando ser impulsiva, sincera, temperamental e independente. Em outro, diz ser de esquerda, contra a pena de morte, a favor do casamento homossexual e da legalização do aborto.  Enquanto essas últimas estão lá apenas como contraponto momentâneo a Téo – embora ele também seja contra a pena de morte, seu único traço redimível –, as primeiras ditam suas ações ao longo da narrativa.

Contudo, não é enchendo um personagem de adjetivos que um escritor o torna complexo: nenhuma pessoa real se resume a seu signo e seu posicionamento político declarado, apenas personagens planos o fazem. Afinal, por definição, estes são estáticos, unidimensionais e previsíveis: adjetivos que poderiam ser somados aos vários de Clarice e Téo. Sim, até há momentos em que Clarice contraria seu signo, planejando certas ações e mentindo para o protagonista, mas isso é resultante da união de suas condições de refém e ser pensante, e não fruto de uma personalidade complexa e imprevisível.

O desenvolvimento precário de Téo, porém, acaba sendo mais problemático que o de Clarice, uma vez que, como explicitado, o leitor está preso em seu ponto de vista. Assim, enquanto a rejeição à personalidade de Téo tem um lado positivo narrativamente, reforçando a empatia do leitor com a vítima, ela também tem um lado negativo, resultante da inevitável repetição de pensamentos do personagem. Pois, por mais que a gravidade dos acontecimentos aumente durante o livro, as reflexões de Téo permanecem sempre as mesmas: Clarice o ama e ele está fazendo o melhor para ela. Do início ao fim.

Dessa forma, sem qualquer tipo de subtexto social ou político, ou algum caráter alegórico, a história vai aos poucos perdendo sua força e a voz do protagonista vai passando de interessante para banal.

Outro problema que acomete a história de Dias Perfeitos reside em seu terceiro e último ato. Repleto de decisões e situações artificiais, ele torna a narrativa anticlimática e sem propósito. Certo ataque de histeria de Clarice ao saber de seu ex-namorado, por exemplo, não convence devido ao exagero da situação, às consequências graves da mesma e, principalmente, ao fato de o relacionamento entre os dois não ter sido bem desenvolvido. Como a narrativa segue Téo e não ela, o leitor jamais é convencido do amor que ela sente pelo ex-namorado. E, mesmo se tivesse sido, as ações de Clarice são tão irracionais que necessitariam de um extenso preparo para não soarem arbitrárias: elas parecem estar presentes na narrativa apenas para atender às necessidades do escritor, em vez de ser uma consequência do que já foi mostrado.

Mais grave, porém, é a reviravolta final. Em termos gerais, basta apontar que ela também não é preparada ao longo do livro, sendo ainda mais aleatória que a crise de Clarice. O evento funciona basicamente como um deus ex machina, solucionando alguns problemas de forma fácil, (possível spoiler) o que torna sua natureza perversa um fim em si mesmo.

Dias Perfeitos é um livro de suspense que surpreende inicialmente com as peculiaridades de sua narrativa, mas vai gradativamente perdendo o fôlego, culminando em um clímax decepcionante e mal construído.


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Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo


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