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A Canção de Sangue.

3
Posted 12/31/2016 by in Fantasia

Rating

Nota:
 
 
 
 
 

3/ 5

Sumário

Genero:
 
Autor:
 
Editora:
 
Idioma Original:
 
Título: A sombra do corvo: a canção de sangue.
 
Título Original: Blood Song: a Raven's Shadow Novel.
 
Tradução: Gabriel Olivia Brum.
 
Edição: 2014.
 
Páginas: 640.
 
Capa: Cliff Nielsen e Shuttershock.
 
Resumo:

A canção do sangue é um exemplar regular do gênero fantasia, trazendo uma narrativa interessante, embora problemática em diversos aspectos.

by Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo
Full Article

Primeiro volume da trilogia A sombra do corvo, escrita pelo escocês Anthony Ryan, A canção do sangue é um romance de fantasia cuja força narrativa é dirimida justamente por seus elementos mais fantasiosos.

O cenário do livro é largamente inspirado na Inglaterra da Idade Média: o Reino Unificado é uma ilha marcada por disputas entre feudos, cuja escassez de certos recursos naturais leva o Reino a estender suas guerras para além do mar. O protagonista é Vaelin Al Sorna, um garoto que, aos dez anos de idade, é largado por seu pai na porta da Sexta Ordem: uma instituição religiosa e militar que treina seus aprendizes para se tornarem assassinos.

A narrativa, porém, começa muitos anos depois, quando Vaelin já é um herói para seu povo. Capturado por seus inimigos durante uma guerra, ele decide contar sua lenda para um escriba, chamado Vernier. A macroestrutura de A canção do sangue, portanto, guarde várias semelhanças com outro título de fantasia, O nome do vento, que também é organizado como um relato de um grande guerreiro.

Já a infância do protagonista lembra muito a história de Jon Snow em As Crônicas de Gelo e Fogo: trata-se de um garoto que, contra a própria vontade e por meio de treinamentos duros e violentos, acaba aprendendo a tornar-se um líder. Suas relações mais importantes são aquelas estabelecidas entre seus colegas da Ordem, os quais precisa chamar de irmãos. As semelhanças também transbordam para os detalhes, com direito a Vaelin ser chamado de nortista, ser obrigado a esquecer sua vida além da Ordem, ignorando a existência de parentes e ser impedido de manter relações sexuais, além, claro, de ser periodicamente auxiliado por um lobo gigante. Quando, perto da metade, Vaelin reflete “Eu achei que tinha aprendido tanto. Mas não sei de nada”, qualquer fã de George R. R. Martin só poderá rir diante da referência direta.

Todavia, Ryan trabalha com competência vários desses elementos. A exposição do universo, por exemplo, é gradual, acompanhando a perspectiva limitada de Vaelin. É verdade que, volta e meia, surge um diálogo mais forçado – o irmão Caenis gostar de história aparentemente o deixa propenso a fazer adendos inúteis a seus companheiros –, mas, no geral, o leitor é imerso suavemente naquele universo, aprendendo suas características apenas quando faz sentido os personagens comentarem sobre elas.

Efeito este que é reforçado pelas sequências de treinamento de Vaelin. O autor as descreve com uma riqueza de detalhes, com direito a termos técnicos e dicas específicas que colocam em evidência seu trabalho de pesquisa. Tal estratégia ajuda a entregar uma carga maior de verossimilhança à história, visto que as lições dadas a Vaelin podem ser corroboradas ou não por quem conhece o assunto: “Não se erga tanto na sela antes de disparar… Certifique-se de esticar a corda até o queixo… Solte apenas quando sentir que os cascos do cavalo não estão tocando o chão…”.

É curioso e passível de discussão, aliás, notar como o livro faz uma grande defesa a uma forma de ensino mais intensa. Vaelin torna-se um mestre espadachim porque apanha horrores durante as aulas. Seu aprendizado advém do sofrimento, que ele não renega, chegando, em um momento posterior, a compreender a utilidade de bater em um aluno com uma vara. Trata-se de um posicionamento específico que vai além da mentalidade do mundo medieval, uma vez que todos aqueles na narrativa que não tiveram um treinamento igualmente pesado surgem incapazes de vencer qualquer batalha, como se a única forma eficaz de aprender e tornar-se habilidoso fosse essa.

A Canção de Sangue é um romance repleto de debates, visto que o arco narrativo do protagonista é quase que inteiramente formado por dilemas morais. Uma das questões principais levantadas por Vaelin é a problematização que faz com o lema de sua família “A lealdade é a nossa força”. O autor surpreende ao fazer o protagonista questionar os valores inerentes ao conceito de lealdade: o termo normalmente aparece com conotação positiva nas obras de fantasia, mas aqui é posto em xeque, visto que Vaelin percebe que o conceito pode acabar servindo para justificar ações terríveis. Repudiando seu pai – que assassinou por estar amarrado a essa noção – a posição de Vaelin é contrária a aqueles que matam, torturam ou que, de alguma forma, contrariam seus próprios valores simplesmente porque receberam ordens ou era seu trabalho.

Todavia, o desenvolvimento de Vaelin por meio dessas questões morais é constantemente sabotado pelo poder mágico do garoto: a canção do sangue. Basicamente um instinto super desenvolvido, a canção que dá título ao livro é quase um deus ex machina multiuso, que não somente detecta ameaças escondidas, mas também mentiras e emoções reprimidas e, de quebra, funciona como GPS e rastreador, literalmente apitando na direção do caminho correto (“A canção do sangue disparou quando ele voltou a atenção para os contrafortes ocidentais”).

A função mais problemática da magia de Vaelin, porém, é a de bússola moral, guiando o protagonista quando ele está dividido sobre o que fazer. No entanto, uma escolha moral só forma a personalidade de um indivíduo quando não há um prejulgamento em relação a ela. Caso contrário, a decisão incorre apenas em um rótulo estabelecido previamente. O ato de votar, por exemplo, representa uma excelente escolha moral, uma vez que obriga o eleitor a pesar dos candidatos várias características que, isoladamente, seriam suficientes para desconsiderar todos eles. O que o eleitor faz é decidir quais dessas características mais importam para ele, o que acaba apontando para sua personalidade. Nada disso ocorre, portanto, se, sempre que o sujeito for digitar 45 na urna, um lobo gigante brotar ao seu lado e, para mostrar que ele está prestes a fazer uma besteira enorme, rosnar na sua cara. Afinal, a partir daí, só resta a outra opção, deixando de ser uma escolha.

Não suficiente, Ryan ainda prejudica a narrativa ao elaborar dilemas morais somente para circunstâncias especiais impedirem Vaelin de enfrentar as consequências de suas decisões. O que, novamente, diminui a força delas. Em determinado momento, por exemplo, cabe a ele decidir se deve matar uma pessoa inocente para salvar outra igualmente inocente ou se abster e deixar esta segunda morrer. Contudo, certos eventos acabam deixando o resultado de sua escolha irrelevante.

Não obstante, o livro traz outros problemas em sua narrativa. Logo no início, por exemplo, já é possível observar como Ryan não prepara bem o impacto de alguns eventos: quando um dos colegas de Vaelin morre, é difícil para o leitor lembrar quem ele era apenas pelo nome, pois não passou tempo suficiente com o sujeito e o mesmo não foi desenvolvido. Dessa forma, o leitor pode até compreender a extensão do luto dos personagens, mas dificilmente compartilhará do sentimento.

O desenvolvimento dos personagens secundários, por sua vez, é instável. Os melhores amigos do protagonista servem como ótimos modelos: se, por um lado, Nortah, surpreende o leitor com seu arco narrativo – que o transforma de um garoto que comete bullying a um dos companheiros mais sensíveis de Vaelin –, por outro, Dentos permanece um enigma até o final, com pouquíssimos traços marcantes. Cometendo algumas vezes o erro de confundir biografia com personalidade, o autor parece satisfeito ao contar o passado de certos personagens, como o de Barkus, sem se aprofundar em nada de seus desejos, anseios, vícios e dilemas morais. Uma ou outra característica, normalmente habilidades e profissões, são mencionadas eventualmente, porém mais para rotular do que qualquer outra coisa: Caenis excele em conhecimento histórico e de rastreio, por exemplo, e isso é ele.

Uma das estratégias narrativas mais utilizadas por Ryan é a de criar suspense sobre desastres futuros. O autor insere diversas passagens em que Vaelin e Vernier refletem com remorso sobre o que poderiam ter feito de diferente. No entanto, se elas funcionam no momento, algumas acabam não fazendo sentido em retrospecto, como o trecho sobre Vaelin logo no início do livro: “Jamais soube se Caenis dera uma risada ou um suspiro. Muitos anos depois ele pensaria em como poderia ter se poupado e a tantos outros de tanta dor se apenas tivesse ouvido com clareza, se tivesse sabido de uma forma ou de outra”. A passagem parece indicar certo perigo na figura de Caenis, embora a ideia nunca mais seja retomada. Mesmo se, nos dois livros seguintes, o personagem acabar se revelando maligno ou algo parecido, essa passagem continua absolutamente hiperbólica, visto que a diferença na reação do garoto não é suficiente para um julgamento tão forte.

Outro problema de A canção do sangue reside em sua macroestrutura: ao tentar subverter as características de um relato a partir de determinado instante, o autor acaba somente deixando de justificar o ponto de vista de Vernier. A reviravolta é meramente um engodo, sem assumir qualquer função narrativa adicional.

Sobre a prosa de Ryan, é válido ainda apontar que ela recai em algumas redundâncias (“Embora não fosse uma mestra, era evidente que suas palavras impunham respeito, pois a pequena plateia dispersou-se rapidamente de volta a seus aposentos. – Eles a respeitam – comentou Vaelin”) e repetições eventuais (“Uma hora mais tarde ficara óbvio que como espadachim Alucius era um ótimo poeta” x “Vaelin tentava transformar um poeta em um espadachim”), além de não evitar frases de efeito clichês (“Escolherei meu próprio destino”).

O autor, porém, acerta no último capítulo, amarrando inúmeras pontas soltas de uma só vez – mesmo que, para isso, precise que o vilão faça uma daquelas típicas confissões, explicando boa parte do que ocorreu.

A canção do sangue é um exemplar regular do gênero fantasia, trazendo uma narrativa interessante, embora problemática em diversos aspectos. Só resta torcer para que, nos próximos dois volumes, o autor consiga oferecer uma obra mais consistente.

por Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo.

31 de dezembro de 2016.


About the Author

Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo


3 Comments


  1.  
    Hoxton

    Eu sinceramente nunca li um livro onde a magia não fosse usada como um Deus Ex Machina, mas eu também nunca li Harry Potter, perdi a minha época de embarcar na franquia e quando tentei, com meus 21 anos, achei terrível. Mas o fato pra mim continua o mesmo: Magia em livros de high fantasy é tão certo de ser Deus Ex Machina quanto um personagem religioso similar a um católico ser um vilão cruel e ganancioso.
    Um detalhe que eu acho engraçado no gênero da fantasia, é que quase sempre o protagonista principal é como um alterego do autor, vide os dilemas morais simples e sem consequências. Ainda nesse ponto, a forma de ensino severa e rígida de ensinar/aprender é uma visão do autor, que eu compartilho.

    Fiquei um tempo fora resolvendo problemas pessoais e ajeitando umas coisas pra meu eu de verdade, afinal, Hoxton é uma persona que não existe, mas anyway, gostaria de ver sua opinião sobre mais livros nacionais de autores como Sphor, Caldela e Draccon.




    •  
      Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo

      Olá, seus comentário são sempre bem-vindos.
      Uma série de fantasia que utiliza muito bem magia, evitando Deus Ex Machinas, é Malazan. Também elogiam os livros de Brandon Sanderson por isso, mas nunca cheguei a lê-los para confirmar, infelizmente.
      Os próximos livros nacionais a serem analisados serão de Raphael Montes, Eric Novello e Eneias Tavares. Quanto ao Draccon, Espíritos de Gelo deixou um gosto amargo, mas ainda tenho que ler Sphor e Caldela.




  2.  
    Hoxton

    Haha! Eu sabia que não era o único a ter desgostado das obras do Draccon! No aguardo pela sua opinião nos livros do Sphor e do Caldela. E eu comecei a ler ontem o primeiro volume de Malazan, Gardens of the Moon, ta em inglês mas achei a escrita bem acessível.





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