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Batismo de Fogo.

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Posted 06/07/2017 by in Fantasia

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Nota:
 
 
 
 
 

2/ 5

Sumário

Genero:
 
Autor:
 
Editora:
 
Idioma Original:
 
Título Original: Chrzest Ognia.
 
Tradução: Olga Baginska-Shinzato.
 
Edição: 2015.
 
Páginas: 347.
 
Capa: Alejandro Colluci.
 
Resumo:

Batismo de Fogo demonstra que Sapkowski ainda não conseguiu adaptar-se a estrutura de um romance, trazendo uma história incompleta, além de tediosa em diversos momentos.

by Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo
Full Article

Batismo de Fogo, o quinto livro da série de fantasia escrita por Andrzej Sapkowski, mostra certo desgaste narrativo. Avançando em absolutamente nada a trama principal, o romance ainda falha em desenvolver boa parte de seus personagens, além de continuar apresentando uma estrutura problemática.

Os eventos do romance transcorrem um pouco depois dos de Tempo do Desprezo, com Geralt buscando refúgio na floresta de Brokilon e Ciri vivendo como uma fora-da-lei, atacando pequenos assentamentos. O bruxo volta a ser o foco da história, que acompanha sua busca incansável pela garota.

O arco narrativo de Geralt é acertadamente diferente do presente nos volumes anteriores. Aqui, não é mais importante a suposta imparcialidade política do personagem, em vez disso sendo posta sob o holofote a dor que ele sente por ter falhado com Ciri. 

Muitos personagens oferecem ajuda a Geralt, mas ele rechaça todos sem hesitar. O bruxo acredita que precisa sentir essa dor sozinho para que ela tenha algum sentido. Posicionando-se como o culpado pela situação, Geralt considera-se o único com direito a sentir a dor pela perda de Ciri. O personagem acredita que quanto mais ele nutrir essa dor, mais valor ele estará conferindo a ela, como se seu sofrimento fosse prova da importância da menina para ele. Geralt, portanto, entra num processo autodestrutivo, recusando qualquer auxílio, afastando seus amigos e alimentando o próprio sofrimento.

Seu arco narrativo envolve a evolução de sua forma de lidar com a própria dor, cuja conclusão natural é frequentemente apontada por seus insistentes companheiros de viagem, que jamais vão embora mesmo quando são explicitamente expulsos pelo personagem. Um barbeiro-cirurgião chamado Regis, por exemplo, continua fazendo questão de dar conselhos a Geralt mesmo após ser ameaçado de morte, chegando a contextualizar o título do livro em determinado momento: “A necessidade de expiação, de um batismo de fogo purificador, e o sentimento de culpa não são coisas às quais você pode reivindicar um direito exclusivo. A vida difere da atividade bancária: ela admite dívidas que podem ser pagas endividando-se com outros”.

O desenvolvimento dos outros personagens, porém, nem chega perto da profundidade conferida a Geralt. A arqueira Milva, por exemplo, é proeminente no início do romance, mas jogada para escanteio assim que o primeiro capítulo termina, voltando a ter destaque apenas no último. Trata-se de uma personagem que, até o momento de uma reviravolta que lhe confere um ar trágico, é vazia de propósito e conflito: ela parece acompanhar Geralt por não ter nada melhor para fazer da vida e, tirando sua participação nas sequências de ação, não tem impacto na narrativa.

O barbeiro-cirurgião Regis não tem melhor sorte, jamais convencendo. Ele é aquele típico personagem sábio, que oferece conselhos sempre pertinentes e funciona, volta e meia, como deus ex machina. No entanto, sua participação não vai além disso. A reviravolta que o envolve é arruinada por quem conhece a série de jogos, mas por si só não confere complexidade suficiente para o personagem, ao contrário do ocorre com Milva. Jaskier, por sua vez, continua se resumindo a ser o alívio cômico, embora aqui se mostre apenas irritante – sua postura arrogante é enfatizada em vez de seu otimismo – e o cavaleiro Cahir permanece sem revelar suas intenções até o final, o que o torna apenas um ponto de interrogação: Cahir também quer encontrar Ciri, mas o que pretende fazer quando encontrar ela – o ponto chave para entender o personagem – continua obscuro.

Sapkowksi, contudo, merece créditos por, pelo menos, fazer alguns personagens irem além do que sua aparência inicial indica. Monstros, considerados assim ora devido a sua espécie ora devido a sua nacionalidade, vão se mostrando tanto solidários a causa de Geralt quando empáticos de forma geral, agindo com gentileza com estranhos, por exemplo. Do lado oposto do espectro, o único homem da fé que surge na história esconde uma alma denegrida embaixo do véu de autoridade religiosa. Esforçando-se para queimar uma garota que acredita ser bruxa, o sujeito acusa mulheres de serem pecaminosas, manipuladores e desviadores de caráter. Quanto mais independentes, pior. Regis acertadamente define o problema do sujeito com um pouco de humor: “É uma fobia em seu estado clínico puro”. O sacerdote é aquele típico representante das piores características de sua fé, definindo-se por seu discurso de ódio e que tem o costume de, seja associando estupro a merecimento, seja denegrindo o outro por sua cor de pele, agir quase como um vilão unidimensional.

O principal elemento de Batismo de Fogo responsável por torná-lo inferior a seus antecessores é sua estrutura narrativa. Trazendo diversos capítulos inúteis focados na construção de uma sociedade de feiticeiras, o livro contém uma grande camada de encheção de linguiça – algo ainda mais grave por tratar-se de um romance de fantasia curto. Esses capítulos são constituídos da mais pura exposição, cansando o leitor com a quantidade de informações irrelevantes transmitidas. Como ilustração, há uma cena em que as feiticeiras descrevem a genealogia de Ciri por várias páginas, detalhando como ela veio a ter o sangue que a torna especial. Além dos detalhes pouco importarem, a forma didática, desprovida de humor e drama, em que são passados para o leitor torna a narrativa ainda mais enfadonha.

Não obstante, assim como Sangue dos Elfos, Batismo de Fogo também não traz uma conclusão apropriada, parecendo metade de um romance propriamente dito. Sim, o arco narrativo de Geralt ganha ressonância em uma batalha, mas a mesma é aleatória e sua conclusão produz apenas um breve momento de humor irônico. A busca de Geralt é interrompida do nada, o conselho de feiticeiras não parece surtir muito efeito e Ciri mal sai do lugar, repetindo suas ações do final do romance anterior.

Até mesmo o humor ácido frequente dos outros volumes, é raro aqui. Os diálogos engraçados são muito breves e logo dão lugar às descrições de como a guerra é um evento horrível, focando corpos dilacerados e famílias destruídas.

Além disso, Sapkowski falha em sua tentativa de modificar levemente a narrativa no final, ao introduzir arrependimentos futuros de Geralt sobre eventos que estão prestes a acontecer. Além de ser uma mudança abrupta, ela também não aumenta a tensão, visto que, justamente por surgir no clímax, só antecipa que algo grande vai acontecer, embora isso já seja previsível por se tratar de um…clímax.

Batismo de Fogo demonstra que Sapkowski ainda não conseguiu adaptar-se a estrutura de um romance, trazendo uma história incompleta, além de tediosa em diversos momentos.

por Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo.

07 de junho de 2017.


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Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo


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