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O Arqueiro.

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Posted 03/11/2015 by in F. Histórica

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1/ 5

Sumário

Genero:
 
Autor:
 
Editora:
 
Idioma Original:
 
Título: A Busca do Graal: O Arqueiro.
 
Título Original: Harlequin.
 
Tradução: Luíz Carlos do Nascimento.
 
Edição: 2010.
 
Páginas: 444.
 
Capa: Porto+Martinez.
 
Resumo:

Se o livro se chamasse “As Crônicas da Guerra de Cem Anos – Volume 1 – O Arqueiro”, e largasse definitivamente toda a aborrecida história do Graal, certamente teria possuído um título bem mais justo e teria sido um livro bem mais honesto.

by Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo
Full Article

Bernard Cornwell, autor das aclamadas As Crônicas de Arthur e As Aventuras de Sharpe, é conhecido por ter uma clara predileção por ficção histórica, visto que praticamente a totalidade de seu trabalho pertence a esse gênero. O Arqueiro, primeiro livro da trilogia A Busca do Graal não é estranho a essa tendência e apresenta uma trama que se passa no início da Guerra dos Cem Anos. Entretanto, mais preocupado em descrever as grandes batalhas do que em contar sua história, Bernard Cornwell constrói um enredo tão raso e desinteressante que chega a ser ignorado pelos próprios personagens.

Na trama, Thomas é filho do padre da aldeia de Hookton na Inglaterra. Enquanto seu pai tece planos para que ele se forme e se torne um estudioso, o garoto deseja apenas treinar com seu arco longo e provar novas e belas mulheres, momentos em que se sente mais realizado. Então, em um fatídico dia, Hookton é saqueada por um bando de mercenários franceses, a comando do misterioso e vil Arlequim, e a relíquia da igreja de seu pai, a lança que o próprio São Jorge usou para matar o dragão, é roubada. O arqueiro jura vingança diante do corpo de seu pai e decide entrar para o exército inglês, vislumbrando ali uma chance de lutar contra o exército francês e reencontrar seu algoz.

Todavia, logo no primeiro capítulo do livro, tanto protagonista quanto autor se esquecem de tudo ocorrido no prólogo. Ambos estão tão fascinados e compenetrados na Guerra dos Cem Anos que mal sobra espaço para a busca, que jamais ocorre, do Graal e da lança. Thomas se vê diante de cercos e batalhas grandiosas como a de Crécy, que dura quase 10% do total do livro, e está claramente tão interessado em sobreviver e conquistar para si fama e glória – o que é facilmente percebido em sua insistência em ser aquele que vai bolar a estratégia para derrotar o exército rival – que apenas se lembra de sua promessa quando esta é jogada diretamente na sua frente pelas forçadas coincidências da trama. Assim, passagens estilo “Ah é, tinha aquela lança!” são alarmantemente presentes. Até mesmo os personagens secundários como o padre Hobb e o cavaleiro Guillaume praticamente precisam obrigar o protagonista a se lembrar do título de sua série de livros, fazendo com que a função do padre na história, ainda por cima, se resuma a essa.

Mas Thomas é um arqueiro e só por isso um membro valioso do exército inglês.  A capacidade do arco longo de matar a metade de um batalhão antes que ele consiga ao menos se aproximar de seu inimigo foi um dos fatores cruciais para tornar a Inglaterra a força bélica mais temível da Europa no início do século XIV.  Desse modo, sabendo o quanto vale para o exército e se sentindo confortável em lutar por ele, Thomas não consegue vislumbrar o que poderia ganhar desertando-o e partindo em busca de uma lança que lendas, em que visivelmente não acredita, dizem ser sagrada.

Não obstante, a trama envolvendo a Guerra dos Cem Anos, que predomina o livro, mesmo sendo vazia, é melhor que a da busca pelo Graal, e conta até mesmo com seu próprio antagonista:o pobre cavaleiro Sir Simon Jekyll, que, em busca de fortuna, acaba criando uma desavença pessoal com o arqueiro. O personagem de Sir Simon é muito melhor construído que o do próprio Arlequim – quem Bernard Cornwell se limita a descrever como alguém que sempre mantém a calma e o tom de voz – e ao longo do livro o leitor pode até chegar a simpatizar um pouco com o cavaleiro, já que ele tem seus desejos (riquezas e mulheres), bem mais delineados e compreensíveis do que os do dito vilão principal, por serem consideravelmente básicos.

A maior parte dos personagens de O Arqueiro acompanha, porém, a caracterização de Arlequim e não de Sir Simon, sendo eles grandes estereótipos e consideravelmente cansativos. Thomas, por exemplo, é alto, bonito e letal. Ele gosta de mulheres e de sangue, tem bom senso e seu desenvolvimento acaba por aí.  Ele certamente não é um personagem consumido pelo desejo de vingança ou possuí qualquer aspiração interessante. Para ele, basta participar do exército, se mostrar crucial para seu sucesso, ter uma “mulher de arqueiro” e ser feliz. Dessa forma, e sempre reforçando sua extrema relutância em perseguir o Graal, fica complicado para qualquer leitor simpatizar com o personagem.

A personagem de Joanette, por sua vez, em uma tentativa estranha de ser complexa, é em vez disso totalmente contraditória. No início do livro, no cerco à cidade de La Roche-Derrien, a personagem é apresentada como uma guerreira inimiga famosa por possuir uma excelente mira e personalidade feroz, sendo até chamada de Blackbird, O Pássaro Negro. No entanto, após sitiada a cidade, ela é retratada como uma mulher frágil, chorona, tola e irritante, que sequer tenta se defender de injustiças. A personagem apresentada no início, Blackbird, destoa completamente da mulher que acompanha o protagonista pelo resto do livro, e ela jamais volta a apresentar os contornos bravos e violentos vistos primeiramente, mostrando uma grande falta de cuidado ao construir o par romântico do protagonista. Conflitos de caráter costumam criar personagens complexos, mas no caso de Joannete eles são tão absurdos e dispares que jamais poderiam pertencer ao mesmo personagem.

Já a narrativa do livro é ao menos condizente com sua natureza, dividindo-o em três partes (Bretanha, Normandia e Crécy) de acordo com as grandes batalhas das quais o protagonista participa e não levando em consideração o Graal. A escrita de Bernard Cornwell é razoavelmente bem sucedida ao tentar ser o máximo objetiva, poupando descrições  desnecessárias, o que torna as batalhas apresentadas mais ferozes e ágeis. Suas descrições também seguem essa diretriz, para se adequar à época violenta, e pretendem sempre se focar mais nas ações duras, brutais e sanguinolentas da guerra, alcançando seu ápice na batalha de Caen – na qual os arqueiros ingleses, para conseguir conquistar a cidade, entraram em um frenesi descontrolado e massacram tanto os guerreiros franceses, como as mulheres, crianças e qualquer um que aparecesse no caminho.

Enfraquecendo o seu argumento principal até mesmo na batalha final em Crécy, em que a lança de São Jorge revela ter pouquíssimas utilidades, Bernard Cornwell se mostra querer mais escrever retratos de batalhas históricas – o que faz muito bem, explicitando os estratagemas militares, as condições de combate e a importância do bom posicionamento e escolha de terreno  – do que desenvolver sua trama e contar uma história intrigante. Se o livro se chamasse “As Crônicas da Guerra de Cem Anos – Volume 1 – O Arqueiro”, e largasse definitivamente toda a aborrecida história do Graal, certamente teria possuído um título bem mais justo e teria sido um livro bem mais honesto.

por Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo.

Publicado originalmente em 21 de Setembro de 2013.


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Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo


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