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Aguardo sua resposta.

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Posted 02/03/2018 by in Suspense

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1/ 5

Sumário

Genero:
 
Autor:
 
Editora:
 
Idioma Original:
 
Título: Aguardo sua resposta.
 
Título Original: Await Your Reply.
 
Tradução: Roberto Muggiati.
 
Edição: 2014.
 
Páginas: 378.
 
Capa: da kuk / Getty Images
 
Resumo:

Deixando de desenvolver suas questões principais, de apresentar personagens complexos e de sequer trazer reviravoltas impactantes, Aguardo sua resposta falha justamente no que se propõe a fazer: discutir um tema complexo e criar um suspense eficiente.

by Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo
Full Article

Escrito por Dan Chaon, Aguardo sua resposta é um suspense cuja narrativa tenta levantar questões sobre identidade, mas, infelizmente, esquece de levá-las adiante, limitado por uma gama de personagens estáticos e aborrecidos.

A história é contada a partir de três grandes pontos de vista: o da estudante Lucy, que fugiu com seu professor de história, George, com a promessa de enriquecer; o do jovem Ray, que descobre que é adotado e após, fugir de casa, encontra seu pai biológico, ingressando no mundo do crime; e o do amargurado Miles, que vive à procura de seu irmão gêmeo, Hayden, mas um dia recobra as esperanças de encontrá-lo após adquirir novas pistas sobre seu paradeiro.

O ponto de vista de Lucy é o mais enfadonho dos três. A narrativa informa que ela é muito inteligente e batalhadora, só não passando para universidades de renome, como Harvard, porque o mundo é injusto. Há, contudo, um enorme descompasso entre o que é dito sobre ela e o que é efetivamente mostrado. De imediato, por exemplo, sua sabedoria já é posta em xeque com o questionamento sobre o que a levou a abandonar sua vida por um sujeito que ela mal conhece – sempre uma ideia perigosa – e se realmente faz sentido ela julgar que George é rico unicamente porque tem um porte altivo, vocabulário acadêmico e um bom carro. Tal dedução mostra-se ainda mais absurda quando Lucy começa a demonstrar que se importa muito mais com o dinheiro do professor do que com ele próprio: ela fugiu para ser rica, não porque gostava de George. Exibindo ainda uma passividade estarrecedora– esperando que ele faça tudo por ela, seja cozinhar, dirigir, comprar mantimentos e até bolar planos e executá-los sozinho –, além de uma personalidade carente e paranoica – quando ela acorda certo dia e não o encontra em casa, por exemplo, ela se sente traída e abandonada – e preocupações fúteis – durante o que deveria ser o clímax ela está comprando sapatos –, Lucy facilmente cansa o leitor com suas longas reflexões que variam entre ser repetitivas e irrelevantes.

A trama de Ray, porém, não é muito melhor. A biografia do jovem guarda muitas semelhanças com ade Lucy, existindo diversas conexões temáticas entre os dois: ambos deixaram sua vida anterior para trás por vontade própria, sentem-se perdidos no mundo, são órfãos relativamente recentes e enfrentam questões de identidade, questionando sua própria e a daqueles que os cercam.

Sua estadia com o pai biológico é uma de constante aprendizado e tensão, pois Jay usa identidades falsas para aplicar golpes, o que significa uma vida financeiramente realizada, mas emocionalmente estressante, sempre precisando estar alerta para a possibilidade de ser descoberto. A narrativa não entra em detalhes sobre os roubos, os golpes e o processo de fabricação de documentos: seu interesse reside somente no aspecto filosófico por trás da situação. Exemplos das questões levantadas são: a) será que a constante troca de identidades dilui a personalidade original de um indivíduo? b) será que amar uma pessoa tendo como base uma personalidade falsa não é amar uma mentira?

Assim, o principal problema de Aguardo sua resposta reside no fato de que essas perguntas são descartadas logo após serem colocadas em pauta, visto que, em vários casos, os personagens não se preocupam realmente com elas: Lucy, por exemplo, não ama George. Ela no máximo acha seu porte sexy, sua preocupação real é se ele tem acesso ou não a fortuna que alegou ter. Ou seja, se o professor não é quem diz ser, no constante a sua personalidade, a revelação não vai passar mais de uma situação desconfortável para Lucy, já que isso significa que ele mentiu para ela. Ray, por sua vez, é prático demais para se preocupar com filosofia, ele só quer ser competente no ofício do pai. Ocasionalmente ele se lembra de sua vida antiga e pesquisa a reação das pessoas sobre seu desaparecimento, mas isso não significa nada além de uma tentativa tola de auferir se era querido. Um exemplo contundente do problema temático do livro encontra-se perto do final, quando Ray reflete sobre se poderia ser cruel ele voltar para a casa dos pais adotivos anos após de ter desaparecido, pois eles já poderiam ter superado a perda. O garoto levanta a questão, mas não a leva adiante, limitando-se a cogitar, em um futuro indeterminado, perguntar a opinião de um sujeito aleatório. Em outras palavras, o romance apenas faz perguntas, nunca abrindo de fato um debate com as múltiplas respostas possíveis, o que torna seu título negativamente irônico. Dessa forma, se o leitor oferece respostas fáceis e simples , assim será, pois não há qualquer discussão ou diálogo envolvido no processo: – para as perguntas acima, por exemplo, um leitor poderia responder “a) óbvio que não; b) óbvio que sim” e tudo terminaria aí.

Já a trama de Miles passa perto de salvar o romance de um desastre total, pois, apesar de ainda ser anticlimática, ao menos joga uma luz adicional nas anteriores: a jornada do rapaz mostra como algumas pessoas não vivem num vácuo e que aqueles próximos a elas podem ser afetados negativamente por escolhas como as de Lucy e Ray. Não é à toa que Miles eventualmente encontra uma mulher que também gastou todo sua vida procurando a irmã, que fugiu com Hayden: a narrativa conecta as duas situações e remete o leitor ao sofrimento não mencionado da família de Lucy e Ray.

Já o suspense sobre o que ocorreu com Hayden gera algumas reviravoltas que, apesar de terem sido honestamente preparadas, são um pouco mais previsíveis do que deveriam. O motivo reside na personalidade do personagem, que, excêntrico demais, tem algumas idiossincrasias bem notáveis. Ou seja, depois que Miles as expõe logo no início, torna-se difícil para o leitor não pescá-las sempre que o personagem aparece escondido em outra identidade. No entanto, bem mais grave que a previsibilidade, é a falta de carga dramática nas revelações: trata-se do caso em que elas foram feitas unicamente para surpreender, sem gerar consequências no desenrolar da trama ou servir para tornar Hayden mais complexo.

Por fim, a narrativa também sabota qualquer tensão que eventualmente venha a construir ao incluir vários momentos de pura enrolação. Ainda pior que a irrelevante ida de Lucy a um cabelereiro perto do fim, por exemplo, é um capítulo no início que traz um personagem lendo uma mensagem de spam inteira. Há poucos bons motivos para ser ler spam e Aguardo sua resposta, infelizmente, não oferece um deles.

Deixando de desenvolver suas questões principais, de apresentar personagens complexos e de sequer trazer reviravoltas impactantes, Aguardo sua resposta falha justamente no que se propõe a fazer: discutir um tema complexo e criar um suspense eficiente.

por Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo.

03 de fevereiro de 2018.

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Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo


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