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A Sombra do Vento.

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Posted 03/11/2015 by in Romance

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Nota:
 
 
 
 
 

5/ 5

Sumário

Genero: ,
 
Autor:
 
Editora:
 
Idioma Original:
 
Título: A Sombra do Vento.
 
Título Original: La Sombra del viento.
 
Tradução: Márcia Ribas.
 
Edição: 2007.
 
Páginas: 399.
 
Capa: Silvana Mattievich.
 
Resumo:

A Sombra do Vento, ao trabalhar o paralelo entre as histórias de Daniel e Julián, fazendo-os viver eventos de extrema analogia, mas com conotações diferentes, tenta mostrar que em última análise, autor e leitor vivem uma trajetória semelhante por intermédio do mesmo livro.

by Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo
Full Article

Se afirmam que um leitor vive mil vidas antes de morrer, o que dizer de um autor? Contando a história da vida de Julián Carax, um misterioso escritor, e a de Daniel Sempere, o menino de 11 anos que puxa das labirínticas estantes de uma esquecida biblioteca exatamente o seu último volume escrito, A Sombra do Vento é um livro sobre a própria arte de ler e escrever.

Ao ser levado por seu pai a um enigmático lugar no coração histórico de Barcelona, chamado de “O Cemitério dos Livros Esquecidos”, Daniel Sempere tem a difícil tarefa de decidir qual daqueles milhares de volumes e conhecimentos perdidos a sua frente seria aquele que, nas palavras de seu pai, deveria guardar e cuidar pelo resto da vida.  “A Sombra do Vento”, de Julián Carax, é o livro que ele escolhe. Porém, não é somente pelo livro que Daniel inevitavelmente se apaixona. É o segredo envolvendo a completa falta de notoriedade do autor o mistério que o fascina e move sua difícil jornada.

A busca de Daniel pelo passado de “A Sombra do Vento”, seu processo de criação e as memórias de seu autor, entretanto, não demoram a causar dificuldades e projetar consequências gravíssimas nas pessoas ao seu redor. Mas, indiferente à máxima de que algumas coisas são melhores esquecidas, o jovem não reduz o alcance de suas pesquisas e acaba se conectando à Julián Carax de forma extremamente pessoal e quase autodestrutiva.

Apesar da grande carga de suspense, a história de A Sombra do Vento pode ser considerada bem mais um romance do que um drama de mistério. A trama, narrada em primeira pessoa, é estruturada de acordo com as descobertas que Daniel faz sobre a vida de Julián, alternando entre momentos de grande exposição em flashbacks e o avanço da trajetória de Daniel por sua adolescência. Não demora, portanto, para que paixões e decepções comecem a surgir e tomar a forma da grande história do livro: o proibido e condenado relacionamento entre Julián Carax e sua mulher.

Esse romance, cujos claros contornos trágicos são previamente expostos ao leitor, vai ganhando força e se revelando o grande evento que liga a maioria das subtramas da história. Misturando elementos típicos de romances trágicos – como a família que proíbe a relação, o plano de “fugir juntos” e a revelação final acerca dela – ele possuí méritos por impulsionar o desejo do leitor a favor da similar relação amorosa que Daniel possui com outra personagem, já que pelo menos uma dessas relações precisa terminar de forma positiva. Dessa forma, além de agir com a função de agente impulsionador e delineador da trama de Julián, o romance também fortalece indiretamente a afeição que o leitor sente por Daniel, se tornando o elemento fundamental para a história funcionar.

Mas é justamente na construção da narrativa de A Sombra do Vento que Carlos Ruiz Zafón excele. Sempre conseguindo pontuar os principais eventos da vida tanto de Julián quanto de Daniel com revelações e reviravoltas que mudam o panorama da história, Zafón consegue controlar brilhantemente o ritmo do livro durante suas 399 paginas. E por também espalhar elementos de mistério,  típicos de romances góticos – como a figura sombria de jaqueta preta e cigarro que começa a observar e seguir os passos de Daniel, cuja descrição corresponde exatemente a do personagem do Diabo no livro lido pelo garoto, assim como a recorrente presença de ruas cobertas por neblina e grandes mansões abandonadas com fama de serem mal-assombradas – o autor é eficaz em atiçar a curiosidade do leitor constantemente.

Não somente isso, como também sua escrita é formidável. Disposto a transformar todos os seus personagens mais virtuosos em poetas, Zafón cria um livro em que cada diálogo possui alguma frase profunda e passível de reflexão. O autor utiliza esse estilo para enriquecer a caracterização de seus personagens. Basta recordar, por exemplo, o momento em que Daniel descreve o relojoeiro de seu bairro como o homem mais educado do mundo, com reputação de habilidoso e uma certamente mais peculiar, “esta de índole menos recatada e relativa à sua predileção erótica por efebos musculosos do mais viril lumpesinato, sem contar a certa predileção de fantasiar-se de Estrellita Castro”, e compará-lo com a descrição que o vilão faz do mesmo personagem, “ele é bicha”, para reparar como o autor reforça a brutalidade e grosseria de um personagem por meio de uma frase que, em outro contexto, poderia até soar cotidiana.

Zafón também ambienta sua história em um local que a modifica e engrandece fortemente, localizando-a em duas Barcelonas distintas: uma antes da Segunda Guerra Mundial, em que, dominada por grandes famílias, ter um nome conhecido já significava um futuro de fortuna e sucesso; e outra durante o período pós-guerra, onde os resquícios do preconceito ainda permaneciam acesos e as grandes famílias não existiam mais, sobrando apenas alguns casarões abandonados. Dessa forma, fazendo um contraponto entre essas duas realidades, o autor faz o leitor refletir se o destino tão diferente de seus principais personagens, Daniel e Julián, foi determinado apenas pelo período em que viviam ou se realmente foram suas ações que os condenaram. É eficiente também o artifício que Zafón se utilizou para construir a progressão do clima de sua história, ao correspondê-lo tematicamente com o período histórico que a Barcelona da época passava.  A juventude de Julián Carax, que atravessa o período da Guerra Civil Espanhola, por exemplo, é repleta de uma atmosfera de melancolia e urgência, com seu amor proibido pela filha de seu “padrinho” gradativamente criando a sensação que tudo esta prestes a desmoronar. Enquanto a história de Daniel, que se inicia em 1945, revela uma época, se ainda traumatizada, repleta de oportunidades, em que até um mendigo pode ser um poeta e ainda conseguir dar a volta por cima na vida.

Fermín Romero de Torres é, por sua vez, um dos personagens mais memoráveis do livro. Suas frases são sempre tão espirituosas (“O destino costuma estar na curva de uma esquina. Como se fosse uma linguiça, uma puta ou um vendedor de loteria: as três encarnações mais comuns. Mas uma coisa que ele não faz é visitas em domicílio”) que farão o leitor astuto tentar memorizá-las e repeti-las para sua namorada a fim de fingir que é inteligente.  Já outros personagens, como Nuria Monfort, o chapeleiro e o inspetor Fumero, são também muito bem delineados seguindo um padrão comum a todas as caracterizações do livro: qualquer pessoa pode ser boa ou má dependendo do ponto de vista de quem a está analisando. Nesse sentido, o chapeleiro, pai de Julián, ganha destaque, pois é o personagem com as descrições mais discrepantes sobre seu caráter. Elas, porém, não se excluem, mas mostram apenas constituir facetas diferentes de sua personalidade.

Zafón, todavia, eventualmente comete pequenos deslizes quanto à construção da narrativa. Um dos mais significativos acontece perto do final do livro, em um capítulo de gigantesca exposição narrado sob o ponto de vista da personagem de Nuria Monfort. Nesse capítulo Zafón se empolga tanto com o lirismo e romantismo trágico da história de Julián Carax, que faz Nuria descrever situações, diálogos e ações que ela nunca presenciou nem poderia ter tomado conhecimento, principalmente com aquele nível de detalhes. Porém, como o autor tornou tal capítulo um dos mais emotivos e gratificantes, o que certamente se perderia caso Nuria não se exacerbasse em sua narração, esse descuido não chega a diminuir a força da obra.

A Sombra do Vento, ao trabalhar o paralelo entre as histórias de Daniel e Julián, fazendo-os viver eventos de extrema analogia, mas com conotações diferentes, tenta mostrar que em última análise, autor e leitor vivem uma trajetória semelhante por intermédio do mesmo livro. E se Zafón parece se manter pessimista quanto ao futuro da leitura (“Bea diz que a arte de ler está morrendo muito aos poucos, que é um ritual íntimo, que um livro é um espelho e só podemos encontrar nele o que carregamos dentro de nós, que colocamos nossa mente e alma na leitura, e que esses bens estão cada vez mais escassos”)  a excelente recepção e sucesso que o livro, ao contrário do feito por seu personagem, teve em todos os países em que foi lançado, talvez possa constituir uma prova à favor dessa arte.

por Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo.

Publicado originalmente em 21 de Setembro de 2013.


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Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo


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