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A Guerra do Velho.

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Posted 06/02/2016 by in F. Científica

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Nota:
 
 
 
 
 

3/ 5

Sumário

Genero:
 
Autor:
 
Editora:
 
Idioma Original:
 
Título: A Guerra do Velho.
 
Título Original: Old man's war.
 
Tradução: Petê Rissati.
 
Edição: 2016.
 
Páginas: 318.
 
Capa: Pedro Inoue/ Sparth.
 
Resumo:

A Guerra do Velho traz uma divertida história de ficção científica pautada por uma narrativa ágil e empolgante. Embora seus problemas de exposição e desenvolvimento sejam notáveis, o saldo é certamente positivo.

by Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo
Full Article

A Guerra do Velho, romance escrito por John Scalzi, é uma ficção científica de narrativa ágil e bem-humorada que mescla discussões sobre militarismo, amor e identidade própria. No entanto, o autor peca pela absoluta falta de sutileza com que apresenta as características de seu universo e pela superficialidade com que trata suas discussões.

O protagonista do livro, John Perry, é um senhor de idade que decide se alistar para as Forças Coloniais de Defesa em seu aniversário de 75 anos. Por ter perdido a esposa e não manter uma relação saudável com o filho, já independente, John enxerga o alistamento como uma oportunidade de começar uma nova vida – as FCD prometem rejuvenescer seus recrutas, além de proibi-los de algum dia voltar para o planeta Terra.  

É o mistério acerca das FCD que move o primeiro ato da história. Intimidando os governos da Terra com suas tecnologias avançadas ao dificultar o acesso tanto a elas quanto a qualquer informação sobre o que ocorre no espaço, o exército estrelar projeta uma aura sombria sobre si. As pessoas que se alistam não fazem ideia para onde vão, como irão combater e nem se realmente ficarão jovens novamente. O que não impede os potenciais recrutas – obrigatoriamente pessoas da terceira idade – de ver qualquer prospecto de futuro sem problemas físicos como um avanço diante de sua situação atual.

Justamente o caso de John. O súbito falecimento de sua mulher o faz perder sua principal âncora emocional, deixando-o com poucos motivos para continuar na Terra. John, entretanto, configura-se um personagem interessante justamente por negar esse isolamento emocional. O início do livro, narrado em primeira pessoa, ilustra bem sua postura: “No meu aniversário de 75 anos fiz duas coisas: visitei o túmulo da minha esposa, depois entrei para o exército. Visitar o túmulo de Kathy foi a menos dramática das duas”. O protagonista tenta diminuir o valor do falecimento de sua mulher por comparação, mas ao longo da narrativa revela-se incapaz de deixar de lembrar nostalgicamente de sua esposa.

Mentindo para si mesmo, John continua vivendo de cabeça erguida e mantendo seu bom humor característico, embora sua jornada em A Guerra do Velho torne evidente o que, de fato, importa para ele. Não é a toa, por exemplo, que seu arco narrativo completado no clímax envolve a morte da esposa.

Sua constante negação, aliás, ganha ressonância no exército estrelar, visto que todos os combatentes são obrigados a adentrar um estado catártico em batalha para conseguir sobreviver, onde apenas lutar, vencer e salvar seu esquadrão importa e o resto não existe. É apropriado o fato de John ascender rapidamente de posição nas FCD: com sua postura brincalhona, ele já desenvolvera a mentalidade dissociativa necessária para a guerra.

As inúmeras batalhas em que o protagonista luta trazem críticas ao ideal militarista. Em certo instante, por exemplo, John discute o efeito da descaracterização de seus adversários (“Pelo que sabemos, eles existem apenas para serem nossos inimigos e nada mais”), apontando para a ilusão que é ausência de culpa resultante da falta de informação sobre seus inimigos. Em outra cena, um personagem questiona a própria abordagem militar, classificando a diplomacia como o meio ideal, mas também como o mais trabalhoso de se alcançar um objetivo – ele chega a pintar a guerra como uma abordagem preguiçosa, resultando em alguns… momentos de tensão com seus companheiros de esquadrão.

Apesar dessas discussões, A Guerra do Velho é um livro definido pelo bom humor de seus personagens. A narrativa é pontuada pelas frequentes piadas de John sobre as situações absurdas em que se encontra. Embora a maior parte dos eventos seja trágica, como eles são filtrados pela perspectiva brincalhona do protagonista, acabando surgindo menos pesados para o leitor.

Uma piada recorrente envolve o nome do computador instalado no cérebro do protagonista: “Cuzão”, em uma ótima tradução de Petê Rissati (o original, “asshole”, é tradicionalmente posto como “babaca” ou “idiota” em português, o que, por ser menos informal, não causaria o mesmo efeito). Afinal, o humor advém do frequente contraste em tom quando John decide pedir informações a ele: “Mirei em uma área de aterrissagem próxima à torre de transmissão e instruí Cuzão a calcular um trajeto de manobra evasiva até .

Aliás, contraste é um artifício empregado fartamente por Scalzi, que o insere ora para criar humor, ora para causar choque. Uma oferta de paz, por exemplo, é seguida por uma violenta execução, enquanto a cena de um personagem fazendo planos para o futuro antecede a narração da morte do mesmo.

A área em que o autor peca consideravelmente é a exposição de seu universo. São recorrentes os momentos em que os personagens discutem abertamente sobre o funcionamento das tecnologias futuristas empregadas pelas FCD e algumas dessas passagens são extensas demais (a discussão sobre o salto espacial dura quatro páginas inteiras). Além disso, os personagens não raro mencionam informações que todos na conversa já têm conhecimento, deixando clara a artificialidade dos diálogos. Por exemplo, em “Então cresci e percebi que os colonos vinham da India, do Cazaquistão e da Noruega, países que não conseguem comportar a população que tem…”, o destinatário do último trecho não é o interlocutor do falante – que já sabe o motivo da colonização – mas o leitor, que não espera que tal problema social ocorra na Noruega. Não sendo suficiente, Scalzi ainda repete didaticamente a mesma informação apenas cinco páginas depois: “as colônias recrutam especificamente de países pobres com problemas populacionais”.

Graças à narrativa ágil, o livro também não tem espaço para desenvolver muito seus temas, que são descartados logo após serem postos em pauta. A discussão sobre o papel da diplomacia é confinada ao capítulo em que é trazida à tona, enquanto os questionamentos de uma personagem sobre sua identidade estar atrelada a suas memórias não vão muito além da cena em que são proferidos.

A Guerra do Velho também comete com um erro estrutural básico, apresentando os principais antagonistas da história somente em seu terceiro ato. Ou seja, a força dramática do final advém do fechamento do arco narrativo do protagonista e da rima narrativa resultante – a derrota dos vilões, por si mesma, não tem motivos para ser impactante.

Por fim, é curioso observar como a idade não afeta o modo de pensar e falar dos personagens: apesar do corpo frágil, seus espíritos pertencem a jovens enérgicos, cínicos e incapazes de perder uma piada. Antes do início do treinamento para as FCD, por exemplo, um senhor age como uma criança, recusando-se a levantar da cama para ir tomar café. Logo depois, eles são diretamente comparados a colegiais. Tal caracterização subverte as expectativas do leitor, apontando que, apesar da idade, os personagens estão tão preparados para o que está por vir quanto adolescentes.

A Guerra do Velho traz uma divertida história de ficção científica pautada por uma narrativa ágil e empolgante. Embora seus problemas de exposição e desenvolvimento sejam notáveis, o saldo é certamente positivo.

por Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo.

02 de junho de 2016.


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Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo


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