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Coração de Aço.

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Posted 05/13/2017 by in F. Científica

Rating

Nota:
 
 
 
 
 

3/ 5

Sumário

Genero:
 
Autor:
 
Editora:
 
Idioma Original:
 
Título Original: Steelheart.
 
Tradução: Isadora Prospero.
 
Edição: 2016.
 
Páginas: 328.
 
Capa: Barry Blankenship / Pedro Inoue.
 
Resumo:

Coração de Aço é um livro empolgante, com cenas visualmente impactantes e inúmeras reviravoltas que afetam a forma com que o leitor enxerga os personagens e o contexto dos eventos. É inegável, entretanto, que ele teria sido bem melhor caso o desenvolvimento dos personagens tivesse acompanhado o da ação.

by Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo
Full Article

Situando a história em um universo distópico e posicionando um garoto comum como protagonista e todos os seres poderosos como vilões, Coração de Aço destaca-se por subverter as narrativas típicas de super-herói. Escrito por Brandon Sanderson, o romance traz uma estrutura narrativa funcional e descrições com apelo visual forte, embora seus personagens não sejam tão interessantes quanto as situações em que se encontram.

O protagonista do livro é David, um garoto que, quando tinha cinco anos, assistiu a dois Épicos – como as pessoas com superpoderes são chamadas – destruírem o banco no qual estava com seu pai e assassinando todo mundo no lugar arbitrariamente. Adquirindo raiva dos Épicos, David jura matar aquele que comanda Chicago e se autodenomina Coração de Aço, apesar de o sujeito ser indestrutível. Para isso, ele se empenha em adquirir informações sobre superpoderes com a esperança de que isso vá ajudá-lo a ingressar na equipe dos Executores, um grupo da resistência especializado em eliminar os Épicos.

O universo fantástico de Coração de Aço traz uma distopia com traços únicos pela subversão dos clichês do gênero de super-herói. No livro, Chicago é dividida entre castas estáticas que separam aqueles que têm superpoderes daqueles que não tem. É sempre noite na cidade, graças aos poderes de Punho da Noite – os Épicos são acompanhados de nomes sugestivos, como Falha Sísmica e Fortuidade – e as pessoas comuns vivem em constante medo de serem vaporizadas a qualquer instante. Elas perderam seus direitos – inclusive à vida – e são observadas a todo momento pelo sistema de segurança implementado por Coração de Aço. Afinal, Épicos mais fracos são presas fáceis para a Resistência, que se aproveita do fato de cada um deles ter uma fraqueza especial para assassiná-los às escondidas.

O objetivo de David é ingressar nos Executores e fazê-los atacar o líder de Chicago. A narrativa, portanto, inicia com seu encontro com o grupo e acompanha as tentativas para convencê-lo a enfrentar Coração de Aço e os preparativos para tal missão.

O livro tem o ritmo de um filme de ação e cenas saídas do mesmo gênero, contando com inúmeras perseguições de carro. Além disso, a prosa de Sanderson pode analisada com um vocabulário cinematográfico, devido a seu apelo visual acentuado. A primeira entrada em cena de Coração de Aço, por exemplo, tem o personagem surgindo à contraluz, descendo no centro do campo, em uma silhueta, com a capa esvoaçando, praticamente como um ícone. No mesmo sentido, o primeiro assassinato que ocorre no livro tem seu impacto produzido por estratégias de Sanderson e a segunda delas é puramente visual: em primeiro lugar, o evento é súbito devido ao descompasso entre a arma e o dano que ela causa, porém, o autor segue com um plano detalhe de uma aliança caindo no chão, substituindo o choque pelo impacto emocional.

Por esse motivo, Coração de Aço é um romance que funciona muito melhor em suas cenas de ação do que quando pausa a narrativa para desenvolver seus personagens. Enquanto o protagonista até convence, apesar de alguns problemas, seus companheiros de cena passam boa parte da história unidimensionais.

David tem um arco narrativo bem delineado, mas seu insiste em ficar na superfície do texto. Devido a seu trauma de infância, o personagem é marcado pelo ódio aos Épicos, o que não somente dita suas ações, como também sua personalidade. O único pensamento na mente de David é seu desejo de vingança; seu único objetivo é matar Coração de Aço. O vilão é sua meta e sua vida. Dessa forma, a jornada de David mostra-o aprendendo gradativamente que há mais coisas na vida do que vingança e que seu ódio pode até acabar destruindo seu algoz, mas que também vai levá-lo junto no processo.

Esse desenvolvimento é exposto sem sutileza alguma, com direito a personagens soltando frases de efeito toscas como “Você tem paixão por matar, mas precisa encontrar a paixão por viver”. Dado que o livro é narrado em primeira pessoa, tais observações são ainda mais desnecessárias do que o normal, pois o leitor está imerso na voz do protagonista e já deveria ter elementos suficientes para compreender a jornada do rapaz.

Há um instante, por exemplo, em que o apreço de David pela guerra é percebido na descrição que ele faz de uma mulher: “Ela atira como um sonho e carrega pequenas granadas na blusa, um pedaço atordoado da minha mente pensou. Acho que estou apaixonado”. O trecho pode ser a descrição de outra personagem, no entanto, revela mais sobre David do que sobre ela.

Aparentando não perceber isso, Sanderson entulha o livro com trechos que beiram a condescendência, parecendo temer que o leitor não entenda o que está sendo feito. Há uma cena, por exemplo, em que um longo devaneio de David é interrompido por um elogio de seu treinador justamente sobre sua capacidade de concentração. O autor, contudo, faz questão que a ironia dramática não passe despercebida pelo leitor e coloca o protagonista explicando-a logo em seguida: “Eu não estava focado […], mas não deixei ele perceber”.

O mais frustrante em relação a David, porém, é notar que o fechamento do arco narrativo dele não é honesto. O personagem reflete que está começando a superar Coração de Aço e a arranjar outros motivos para viver, mas suas ações continuam unicamente direcionadas a derrotar o vilão. Sanderson podia ter tratado esse arco como algo trágico – o protagonista tentando, mas falhando –, como de fato parece ser o caso após o final da terceira parte, ou construir uma ironia dramática, com David iludindo-se com seu progresso. No fim, contudo, o livro é apenas artificial, com o protagonista refletindo que superou seu trauma (“Eu não estivera lutando por vingança”), quando suas ações contradizem isso.

Os membros dos Executores não são mais bem desenvolvidos. O líder do grupo e o par romântico do protagonista só deixam de ser unidimensionais no clímax, devido a algumas reviravoltas. Os outros, porém, não possuem nenhum momento para lhes conferir complexidade: se Cody serve, pelo menos, como alívio cômico e Abrahan tem sua fé explorada muito brevemente, Thia permanece uma folha em branco até o final. Como o livro tem poucos personagens e seu miolo gasta um bom tempo mostrando a interação entre eles, trata-se de um problema grave que afeta o ritmo da narrativa no segundo ato.

O vilão ser unidimensional, todavia, é apropriado, uma vez que ele é mais um símbolo – servindo como a personificação de um governo distópico – do que um personagem, o que a reviravolta final explora brilhantemente ao completar a metáfora.

Por fim, é válido notar que Sanderson brinca com as possibilidades narrativas ao fazer David ser assumidamente ruim com metáforas, o que tem seus pontos positivos e negativos. Por um lado, isso retira a seriedade e a atmosfera pesada de boa parte dos acontecimentos e torna o protagonista bobo demais para alguém consumido por ódio. Mas, por outro, diverte quando David tenta expandir ou explicar suas metáforas e demonstra que, apesar de ridículas, elas chegam a fazer algum sentido. Um bom exemplo é o instante em que ele alega se sentir um tijolo de mingau e se defende: “Faz sentido! Olha, um tijolo deve ser forte, certo? Mas, se um fosse secretamente feito de mingau, e todos os outros tijolos não soubessem, ele ficaria preocupado por ser fraco, enquanto os outros são fortes. Ele seria amassado quando colocado na parede, entende?”.

Coração de Aço é um livro empolgante, com cenas visualmente impactantes e inúmeras reviravoltas que afetam a forma com que o leitor enxerga os personagens e o contexto dos eventos. É inegável, entretanto, que ele teria sido bem melhor caso o desenvolvimento dos personagens tivesse acompanhado o da ação.

por Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo.

13 de maio de 2017.


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Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo


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