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Wild Cards: O começo de tudo.

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Posted 06/11/2015 by in F. Científica

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Nota:
 
 
 
 
 

3/ 5

Sumário

Genero:
 
Autor: , , , , , , , , , , , , , , ,
 
Editora:
 
Idioma Original:
 
Título Original: Wild Cards - The Book that started it all.
 
Tradução: Alexandre Martins, Peterso Rissatti, Edmundo Pedreira Barreiros.
 
Edição: 2013.
 
Páginas: 480.
 
Capa: Marc Simonetti.
 
Resumo:

O Começo de Tudo, além de sofrer com a questionável qualidade de alguns de seus contos, ainda carece de coesão interna. Há autores, todavia, que trabalham exemplarmente com os temas apresentados e fazem o livro ser, apesar de instável, relevante.

by Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo
Full Article

Wild Cards é uma série de vinte e dois livros – até o presente momento – que reconta a história da humanidade a partir do fim da Segunda Guerra Mundial, quando um meteoro cai nos Estados Unidos e traz consigo um vírus alienígena. Esses livros são normalmente estruturados de forma similar a uma coletânea de contos: cada capítulo é escrito por um autor diferente e narra sua própria história. Os capítulos são organizados cronologicamente, abarcando um grande lapso temporal, e, assim, constroem uma narrativa conhecida como “mosaico”.

O Começo de Tudo é a introdução ao universo da série e, por isso, tem o papel de apresentar os principais personagens e eventos que o formam. O elemento mais importante da história é o vírus Carta Selvagem (Wild Card), que se espalha pela população de Nova York após a queda do meteoro. O vírus produz efeitos aleatórios – daí seu nome – em seu hospedeiro, podendo tanto causar terríveis deformidades físicas e matá-lo quanto curá-lo de doenças e conferir-lhe força sobre-humana. Aqueles beneficiados pelo vírus são chamados de Ases e os prejudicados são taxados de Curingas.

O livro abre com um divertido prólogo, escrito por Studs Terkel, que apresenta brevemente o protagonista da história: o alienígena chamado Tachyon. Excêntrico, sempre vestindo roupas espalhafatosas e de cores vibrantes – quase um flamboyant – Tachyon viaja para Terra para impedir que o vírus criado por sua família infecte a população. Seu plano, porém, falha – devido a sua aparência humana e trejeitos estranhos poucos o levam a sério – e ele decide permanecer no planeta para ajudar aqueles que foram afetados pelo Carta Selvagem. O prólogo serve para acostumar o leitor com a estrutura do livro e, para isso, o autor narra a chegada do alienígena sob vários pontos de vista diferentes.

O primeiro capítulo de O Começo de Tudo, entretanto, é um retrocesso em relação ao prólogo. Escrito por Howard Waldrop, Trinta minutos sobre a Broadway! falha em transmitir a urgência dos eventos que levarão à propagação do vírus. O protagonista do conto é um herói de guerra, um famoso aviador chamado Jetboy que precisa voltar ao serviço para uma última missão. Jetboy é uma figura importante na narrativa, sendo mencionado diversas vezes ao longo do livro. Desse modo, um dos maiores pecados cometidos pelo autor foi desenvolvê-lo pouco – a única característica memorável de Jetboy é apreciar o cinema – o que acaba distanciando o leitor do psiquê coletivo dos personagens que tanto veneram o aviador. Outro aspecto problemático do conto é seu clímax: a abundância de termos técnicos de aviação aliada à péssima descrição de batalhas aéreas produz um efeito irônico, impedindo a visualização delas de forma detalhada.

Em seguida vem O dorminhoco, de Roger Zelasny, um capítulo que, por se entregar inteiramente à diversão, possui um tom completamente oposto a do anterior. O dorminhoco é um dos contos com função mais complicada dentro do plano geral do livro, tendo que descrever a extensão da aleatoriedade dos efeitos do Carta Selvagem. Há, consequentemente, muitas descrições de mutações (o protagonista é a epítome do conceito, sempre mudando de forma após dormir) e mortes, mas o autor revela-se hábil na condução da história, expondo o caos nas ruas de maneira brutal e surpreendente, mas – aproveitando de maneira inteligente o fato de o protagonista ser uma criança – ao mesmo tempo engraçada: uma mulher cai na rua fazendo barulho de chocalho, uma poça de água mostra feições humanas e uma árvore em que um menino usa como apoio assusta a ele, gemendo.

A partir daí, com Testemunha, de Walter Jon Williams, e Ritos de Degradação, de Melinda M. Snodgrass, o livro começa a abraçar seu potencial político. Os dois contos são os mais memoráveis da coletânea, expondo personagens fascinantes e complexos. Eles descrevem a formação dos Quatro Ases, um grupo de ases que se une para influenciar decisões políticas e melhorar o mundo, prevenindo guerras e resolvendo incidentes internacionais. Eles logo sofrem perseguição política dentro do próprio país, os Estados Unidos, e percebem que seus poderes podem não ser capazes de combater a corrupção do governo. O que torna esses contos notáveis é o fato de eles produzirem as maiores transformações em Tachyon, acabando de vez com sua postura inocente em relação à influência que os terráqueos têm sobre ele.

Os autores parecem se divertir imaginando as mudanças ocorridas no mundo pela existência do Carta Selvagem, sempre mencionando uma ou outra na narrativa. Em determinado momento, por exemplo, o senador Joe Mccarthy apresenta uma lista de 57 cartas selvagens vivendo e trabalhando clandestinamente nos Estados Unidos, em vez de uma lista com comunistas e espiões. A Guerra Fria ainda existe, como é retratado em Powers, de David D. Levine, mas a corrida armamentista agora é representada pelo arsenal de ases que cada país exibe. O conto de Levine, contudo, peca em ser bastante inconsequente: ele exemplifica bem o tema, mas deixa de interferir em qualquer um de seus elementos.

Capitão Cátodo e o ás secreto, de Michael Cassut, destaca a influência do vírus em Hollywood – os ases são heróis, os alienígenas vilões e os curingas seus capangas – e começa a deslocar levemente o foco da narrativa dos ases para os curingas. O conto, entretanto, soa melhor em teoria, pois, como Powers, na prática serve meramente como preparação de terreno, terminando de forma absurdamente previsível e anticlimática: a narrativa inteira leva o leitor a suspeitar da natureza de certo personagem para no fim apenas confirmá-la e não fazer muita coisa a respeito.

Já George R. R. Martin, editor do livro, demonstra compreender bem a natureza de sua história e coloca Tachyon de volta ao centro dos eventos. O jogo da carapaça segue a jornada de um garoto que descobre ter poderes telecinéticos e decide usá-los para combater o crime. Martin acerta ao escolher como cenário o bairro dos curingas, retratando os abusos que eles sofrem por causa de suas deformidades. Os curingas foram excluídos da sociedade, refugiando-se em seu próprio mundo: um bairro sujo e perigoso em que as pessoas não se intrometem nos assuntos e problemas dos outros. Pelo contrário, elas sabem que devem ignorar a existência de estranhos e, igualmente desprezadas, isolar-se no primeiro lugar imundo que forem capazes de chamar de lar. O bairro dos curingas é o perfeito cenário para explorar a personalidade de Tachyon, que entrou em uma espiral de depressão após os eventos de Ritos de Degradação e passou a viver fugindo das pessoas, choramingando e bebendo. O jogo da carapaça representa o ponto de virada do protagonista que, com a ajuda do garoto que se autoproclama “O Grande e Poderoso Tartaruga”, deve salvar uma amiga de longa data de ser abusada e assassinada por policiais corruptos.

É interessante notar como os autores sugerem que a história da humanidade não mudaria muito com a existência de super-heróis e monstros. Os eventos ocorrem pelas mesmas razões e são impulsionados pelos mesmos indivíduos, apenas o contexto sendo diferente – como a declaração do senador Mccarthy exemplifica. Os autores Victor Milám e Stephen Leigh decidem trabalhar com esse tema em seus contos Transfigurações e Fios, respectivamente. Manifestações públicas violentas em que a polícia lança bombas de gás lacrimogêneo na população continuam acontecendo e as lutas têm objetivo similar; o que muda são os combatentes. Os curingas defendem sua natureza e seus direitos, no lugar dos homossexuais, clamam por melhor qualidade de vida, tomando a posição do proletariado abusado, e são todos rechaçados como comunistas e tratados pela mídia como vândalos e aberrações. Políticos, com ajuda da mídia, controlam a população manipulando informações, mas o foco dessas histórias reside nos poderes, conferidos pelo Carta Selvagem, que eles agora têm e que auxiliam seus planos.

O Começo de Tudo tende bastante para a política e para o noir. Seus capítulos quase sempre são protagonizados por anti-heróis, transcorrem em cidades sujas dominadas pelo crime e pela corrupção, envolvem a presença de uma femme fatale que seduz o personagem principal e gera todos seus problemas, e concluem enfatizando o cinismo inerente à história.

Quase sempre, pois alguns contos fogem do padrão. Os mais insanos são A noite longa e obscura de Fortunato, de Lewis Shiner, e Bem Fundo, de Edward Bryant e Leanne C. Harper. A noite longa e obscura de Fortunato é protagonizado por um sujeito que necessita fazer sexo tântrico para ativar seus poderes e termina com ele encontrando Cthulhu. Espera aí, Cthulhu em um livro sobre super-heróis, política e preconceito? Pois é. E a criatura nunca mais é mencionada. Bem Fundo, por sua vez, tenta amarrar uma história sobre guerra de território entre mafiosos, uma senhora que fala com animais, um crocodilosomem e um vagão fantasma do metrô que está em busca de justiça. Edward Bryant e Leanne C. Harper até são bem sucedidos na empreitada, uma proeza e tanto considerando a premissa, mas o conto inevitavelmente deixa a impressão de que deveria pertencer a outro livro.

Os dois últimos contos de O Começo de Tudo são A garota fantasma conquista Manhattan, de Carrie Vaughn, e Chega o caçador, de John J. Miller. O primeiro tem uma premissa interessante – uma garota da classe média que atravessa paredes se vê perdida no bairro dos curingas quando sua melhor amiga é sequestrada pelos integrantes de uma banda de rock – mas acaba de forma anticlimática ao ignorar alguns conflitos e negar a existência de outros. Já a obra de John Miller é mais competente em sua resolução. Como seu título indica, o conto pretende somente apresentar o protagonista e montar o tabuleiro, posicionando os personagens em seus devidos lugares e explicando suas funções. Contudo, ainda assim Miller constrói uma narrativa com início, meio e fim bem delineados, permitindo, desse modo, que ela conclua de forma satisfatória.

Por fim, o livro tenta transmitir a ideia de passagem de tempo com o pequeno epílogo, Terceira Geração, escrito por Lewis Shiner, que relembra eventos de outros contos, enquanto se foca no legado de Jetboy.

A narrativa de Wild Cards costuma ser comparada a um mosaico porque é construída sob perspectivas completamente diferentes que, quando reunidas, montam a história principal. É uma ideia fascinante, mas que tem sua parcela de pontos negativos. O Começo de Tudo, por exemplo, além de sofrer com a questionável qualidade de alguns de seus contos, ainda carece de coesão interna, devido à gigantesca variação de tom entre algumas de suas histórias. Autores como Walter John Williams, Melinda M. Snodgrass e George R. R. Martin, todavia, trabalham exemplarmente com os temas apresentados e fazem o livro ser, apesar de instável, relevante.

por Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo.

Publicado originalmente em 18 de Setembro de 2014.


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Rodrigo Lopes C. O. de Azevedo


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